Economia
Guerra comercial. Trump quer cobrar à China dívidas pré-maoistas
Dívidas chinesas velhas de um século estão a ser usadas pelo presidente norte-americano como arma de arremesso na guerra comercial em curso contra a China. Pelas contas de Trump, a China deveria agora pagar um bilião de dólares.
A Casa Branca aceitou receber Jonna Bianco, da American Bondholders Foundation (ABF), a fundação que diz representar os detentores de obrigações da dívida externa chinesa dos regimes anteriores a 1949. Bianco anda desde há 18 anos a bater à porta da mansão presidencial, a tentar obter uma audiência com quem seja, na circunstância, o inquilino, para convencê-lo a reclamar o pagamento das obrigações da dívida externa pré-maoista.
Bianco terá mesmo chegado ao detalhe de propor que uma parte da actual dívida trilionária dos Estados Unidos à China seja amortizada com papeis dessa dívida chinesa prescrita e caducada. O Tesouro norte-americano compraria os papeis da dívida aos detentores respectivos e apresentá-los-ia depois à China, na esperança de que o seu suposto valor de um bilião de dólares seja descontado na actual dívida norte-americana à China.
A representante da ABF declara-se entusiasmada com as perspectivas, por considerar que, “com o presidente Trump, as regras do jogo são completamente novas". E acrescenta: "Ele é uma pessoa de 'América primeiro'. Deus o abençoe".
Mas, tendo as dívidas sido contraídas tanto pelo regime imperial, como pela república instaurada por Sun Yat Sen em 1911, o novo regime instaurado por Mao Tse Tung em 1949 declarou que, depois de vencer a sua "guerra popular prolongada", não se considerava responsável pelas dívidas e não se sentia obrigado a pagá-las.
A recusa a pagar as dívidas era tanto mais expectável, quanto muitas delas tinham sido contraídas pelo chefe de Estado Chiang Kai Chek, precisamente para financiar a sua guerra contra os comunistas. Ao ser derrotado na guerra civil, Chiang Kai Chek, sempre apoiado por financiadores ocidentais, apoderou-se da ilha de Taiwan, que a China ainda hoje reclama como território seu.
Na história do Direito Internacional existem precedentes desde tempos imemoriais sobre a inimputabilidade das dívidas contraídas por um beligerante àquele que fosse o seu inimigo durante um conflito. Assim, o ditador espanhol Francisco Franco, sem surpresas, enjeitou quaisquer dívidas da República espanhola. Também a Rússia soviética declarou ilegítima toda a dívida contraída pelo regime czarista e recusou pagá-la, no todo ou em parte.
Segundo a agência Bloomberg, Donald Trump tem uma equipa a estudar as hipóteses de ser reclamado o pagamento das obrigações da centenária dívida externa pré-maoista, sendo que esses papeis de crédito são há muito considerados tão incobráveis que andam a ser vendidos no eBay, principalmente a coleccionadores.
Apesar de o plano não passar de uma bizarria, com muito poucas probabilidades de merecer sequer alguma recusa formal por parte da China, ele já tem suscitado em tempos recentes uma miragem de lucros fáceis, com a correspondente febre especulativa.
Tal foi o caso de um conselheiro de George W. Bush, que fez uma campanha junto de cidadãos idosos, para convencê-los a investirem as suas poupanças para a reforma na compra dos papeis, sem qualquer valor, da dívida externa pré-maoista. Supostamente, terá conseguido com esse golpe especulativo amealhar 3,4 milhões de dólares.