Moçambique quer missão militar da UE por mais dois anos e agradece apoio de Portugal
Moçambique pretende a extensão por dois anos da missão militar da União Europeia (UE) em Cabo Delgado, disse à Lusa o Presidente moçambicano, Daniel Chapo, agradecendo o apoio europeu e destacando o papel de Portugal no processo.
"Terminámos a fase do apoio, no primeiro acordo, e agora estamos numa fase de negociação para a extensão, pelo menos por mais de dois anos, porque achamos que é extremamente importante", afirmou o chefe de Estado moçambicano, que partiu hoje para Lisboa, para uma visita oficial.
Em entrevista à Lusa, em Maputo, Chapo agradeceu aos Estados-membros da UE pelo apoio a Moçambique no combate ao terrorismo e destacou o papel de Portugal, que liderou a anterior (2022 a 2024) Missão de Formação Militar da UE em Moçambique (EUTM-MOZ) e lidera a atual (desde 2024) missão de assistência militar EUMAM MOZ, que foi prorrogada, em maio, por mais seis meses, até final do ano.
"Portugal e Moçambique têm uma cooperação na área de defesa e segurança já há muitos anos. Uma relação histórica e principalmente no que toca ao apoio às Forças Armadas de Moçambique, na formação, capacitação, treino", afirmou.
As missões foram desenvolvidas ao abrigo do Mecanismo Europeu de Apoio à Paz, que ainda financiou com 89 milhões de euros a compra de equipamento não letal e o apoio logístico para equipar 11 companhias de Reação Rápida das Forças Armadas (QRF, na sigla em inglês) moçambicanas, treinadas pela EUTM-MOZ.
Segundo o Presidente moçambicano, a cooperação entre os dois países neste setor "é tradicional", e agradeceu igualmente o apoio prestado pela UE e por Portugal desde o início da insurgência armada em Cabo Delgado, em 2017.
"Quero agradecer à UE e agradecer a Portugal, em particular, pelo facto de, durante este período, termos tido este apoio no combate ao terrorismo", afirmou.
O chefe de Estado destacou não apenas o apoio à formação e capacitação das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), mas também a solidariedade demonstrada pelos parceiros europeus desde o início do conflito: "Sentimos esta solidariedade, este carinho, esta aproximação, e achamos que vamos conseguir juntos continuarmos unidos, coesos".
Para Daniel Chapo, o combate ao terrorismo exige uma resposta internacional coordenada, por se tratar de uma ameaça que ultrapassa fronteiras, acontecendo, em Moçambique, numa província com algumas das maiores reservas de gás em África.
"É preciso nos unirmos, como mundo, para podermos combater o terrorismo", defendeu.
O Presidente moçambicano associou ainda a estabilidade em Cabo Delgado à proteção dos grandes projetos de gás natural da província, que envolvem também interesses europeus.
"O terrorismo está a ocorrer numa zona onde temos projetos de gás. E esses projetos de gás não são projetos só de Moçambique, são projetos que também vão beneficiar a própria UE", afirmou, recordando que esses empreendimentos são liderados pela francesa TotalEnergies e pela italiana Eni, empresas de países membros da UE, referindo que representam dois investimentos de cerca de 30 mil milhões de dólares (26,3 mil milhões de euros).
"É extremamente importante todos nós garantirmos a segurança de Cabo Delgado, restabelecer a paz na província", acrescentou.
Segundo o Presidente, a reposição da segurança é uma condição essencial para o desenvolvimento de Moçambique e dos parceiros envolvidos nos projetos energéticos da província.
"Com a paz possamos desenvolver não só Cabo Delgado, desenvolver Moçambique, mas também desenvolver os países que fazem parte da União Europeia e, em particular, Portugal", afirmou.
Daniel Chapo defendeu ainda a manutenção da cooperação internacional para alcançar a estabilização definitiva da província: "Para podermos realmente, unidos, a UE, Moçambique, continuarmos a combater o terrorismo".
"Não há nenhum país do mundo que desenvolve sem paz e segurança. Moçambique precisa de paz, precisa de segurança para poder continuar a desenvolver-se", concluiu.
O Conselho da União Europeia prorrogou em maio o mandato da EUMAM MOZ por mais seis meses, até 31 de dezembro de 2026. O objetivo é continuar os programas de capacitação das FADM, particularmente das Forças de Reação Rápida, incluindo formação, logística e manutenção.
Desde setembro de 2024, a EUMAM MOZ implementou mais de 40 programas de capacitação, envolvendo cerca de 1.200 militares moçambicanos. A missão, liderada por Portugal, conta com mais de 80 militares e civis de 11 Estados-membros da UE e da Sérvia.
A anterior EUTM-MOZ formou, em dois anos, mais de 1.700 militares comandos e fuzileiros moçambicanos, atualmente integrados em 11 companhias de QRF destacadas para o combate à insurgência em Cabo Delgado.
Desde outubro de 2017, Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada associada a grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico, conflito que já provocou cerca de 6.600 mortos e 1,1 milhões de deslocados, segundo dados de organizações internacionais.