Nobel da Paz 2006 defendeu mundo sem pobreza, com negócios sociais
O Nobel da Paz 2006, Muhammad Yunus, defendeu hoje a possibilidade de um mundo sem pobreza se os negócios forem criados numa perspectiva social e não apenas de obtenção de lucro.
"Não existe nenhuma razão para que os pobres se mantenham pobres", disse Yunus, que se deslocou a Lisboa, pela segunda vez, para participar em duas conferências sobre microcrédito e desenvolvimento de parcerias entre os governos e as fundações.
O Nobel da Paz considerou que se muitos dos negócios que são criados tivessem em atenção as necessidades sociais, a maioria dos problemas seriam solucionados e a pobreza seria erradicada.
Muhammad Yunus referiu o exemplo de uma empresa que o Banco de microcrédito Grameen e a Danone francesa criaram no Bangladesh, sem o objectivo do lucro, mas sim para resolver o problema de sub-nutrição das crianças pobres.
A empresa produtora de iogurtes, que vai apenas reaver o seu investimento, junta aos iogurtes todos os nutrientes que estas crianças não têm na alimentação.
Muhammad Yunus falou na Fundação Gulbenkian sobre microcrédito, contou como é que ele surgiu, e de como tem sido um sucesso no combate à pobreza no seu país.
"Criámos um novo conceito de negócio, que tem como objectivo fazer bem aos outros, ajudar os pobres a mudar de vida", disse, referindo que o Bangladesh está a conseguir, desde 2000, uma redução de dois por cento ao ano no número de pobres e que se conseguir melhorar esta percentagem vai conseguir reduzir o número de pobres em metade antes de 20015. Yunus, considerado o pai do microcrédito, foi galardoado no ano passado com o Prémio Nobel da Paz, juntamente com o Banco Grameen, de que foi fundador. O microcrédito é um instrumento de combate à pobreza e exclusão social, que valoriza a capacidade de iniciativa na criação de condições de desenvolvimento de pequenos negócios, permitindo a plena inserção no mundo do trabalho.
É concedido a pessoas que, sem acesso a créditos normais, mas com condições e capacidades pessoais para desenvolver uma actividade concreta consigam contrair pequenos empréstimos para criarem o seu pequeno negócio. Muhammad Yunus, de 66 anos, começou nos anos 70 um projecto de ajuda aos mais pobres, revolucionando a ideia de banca tradicional.
Nascido no Bangladesh, Yunus doutorou-se em Economia nos Estados Unidos da América e voltou em 1972 para o seu país de origem para ser professor universitário e responsável do Departamento de Economia da Universidade de Chittagong.
Descontente com o reduzido efeito das as suas teorias económicas na melhoria das condições de vida dos mais pobres, durante um período de fome, emprestou do seu próprio bolso 27 dólares a 42 pessoas da cidade de Jobra, no Bangladesh, para que estas pudessem avançar com pequenos negócios.
Depois de ter sido reembolsado, Yunus entusiasmou-se com a ideia de criar um novo banco independente, nascendo então o conceito do microcrédito.
Em 1976, criou o Grameen Bank (que significa Banco das Aldeias).
Desde essa altura já distribuiu mais de 2,3 milhões de euros a pessoas necessitadas. Actualmente, o Grameen tem 12 mil funcionários, 1.200 balcões, e trabalha com 40 mil aldeias das 68 mil existentes no país e inspirou experiências semelhantes em países igualmente pobres e outros mais ricos por todo o mundo, como os EUA e até Portugal.