PM cabo-verdiano acusa anterior Governo de "ludibriar" FMI sobre derrapagem na despesa

PM cabo-verdiano acusa anterior Governo de "ludibriar" FMI sobre derrapagem na despesa

O primeiro-ministro cabo-verdiano acusou hoje o anterior Governo de ter "ludibriado" o FMI, alegando que a instituição não detetou uma "derrapagem" da despesa pública de cerca de 72,6 milhões de euros antes da mudança de executivo.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

"É normal aquela delapidação e aquele disparo de despesa de oito mil milhões de escudos [cerca de 72,6 milhões de euros]. O Governo conseguiu ludibriar o FMI [Fundo Monetário Internacional], que não detetou aquela derrapagem do Orçamento do Estado", afirmou Francisco Carvalho, durante a apresentação e discussão da proposta orçamental na Assembleia Nacional.

O primeiro-ministro acusou ainda o Instituto Nacional de Estatística (INE) de Cabo Verde de ter produzido "dados falsificados".

Segundo Francisco Carvalho, o Orçamento do Estado para 2026, aprovado pelo anterior Governo do Movimento para a Democracia (MpD) e promulgado pelo Presidente da República, José Maria Neves, em dezembro de 2025, tinha uma dotação inicial de 95.675 milhões de escudos (868 milhões de euros).

Contudo, segundo o primeiro-ministro, quando o atual Governo tomou posse em junho, após a vitória do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) nas eleições legislativas de 17 de maio, a execução orçamental projetada já ascendia a 104.011 milhões de escudos (943 milhões de euros).

"Esse aumento aconteceu porque antes e depois da eleição, com o MpD perdendo, continuou a tomar medidas, a gastar dinheiro do Estado num processo de claramente delapidar. Não há outra palavra", sustentou.

Francisco Carvalho defendeu que a apresentação do Orçamento Retificativo resulta da necessidade de corrigir a situação encontrada, garantindo que a governação deve ser baseada em responsabilidade e rigor.

"Governar tem de ser com responsabilidade e sustentado em decisões com rigor, para poder corrigir aquilo que encontramos na despesa, respeitar cada escudo dos contribuintes cabo-verdianos e produzir o maior benefício possível para Cabo Verde", declarou.

Francisco Carvalho adiantou que a diferença entre o orçamento aprovado e a execução projetada foi identificada durante a missão do FMI a Cabo Verde, realizada entre 21 e 24 de julho, no âmbito da análise das contas públicas.

"Durante a fase da missão tivemos de analisar a fundo as contas e esse disparo que há em relação às despesas públicas", afirmou.

O líder parlamentar do MpD, Luís Carlos Silva, rejeitou as acusações, afirmando que o FMI considera a relação com Cabo Verde "excelente e histórica" e um exemplo no mundo, acrescentando que, segundo a instituição, o anterior Governo deixou a economia em "excelente estado".

A proposta de Orçamento Retificativo, no valor global de 103.888 milhões de escudos (942 milhões de euros), reduz a despesa projetada em 123 milhões de escudos (1,12 milhões de euros) e prevê uma reafetação de recursos para áreas sociais.

Na sexta-feira, o FMI concluiu a sua primeira missão de aproximação ao novo executivo cabo-verdiano, realizada entre 21 e 24 de julho, manifestando "mais esperança e confiança" na continuidade da cooperação com o país e no compromisso das autoridades com a estabilidade macroeconómica e as reformas em curso.

Em declarações aos jornalistas no encerramento dos trabalhos, o diretor-executivo do FMI para Cabo Verde, André Roncaglia, destacou o balanço positivo da visita, destinada a conhecer as prioridades do Governo e discutir a continuidade do apoio do Fundo ao país.

A Lusa tentou obter esclarecimentos junto do FMI e do INE relativamente às declarações do primeiro-ministro cabo-verdiano, mas até ao momento não obteve resposta.

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