Podcast português "País de incendiários" de que "ninguém sai bem" premiado em Espanha
O `podcast` "País de incendiários", da revista portuguesa Divergente, com autoria de Sofia da Palma Rodrigues e Manuel Bivar, recebeu hoje em Madrid um dos Prémios Internacionais Rei de Espanha de Jornalismo 2025/2026.
A revista digital Divergente foi distinguida na categoria Meio Ambiente destes prémios, atribuídos desde 1983, anualmente, a trabalhos de jornalismo dos países ibero-americanos, em língua espanhola e portuguesa.
O `podcast` "País de Incendiários", segundo os autores, percorreu Portugal, "o país que mais arde na União Europeia", para tentar perceber "o que leva uma pessoa a sair de casa e, sem explicação aparente, deitar fogo a tudo o que a rodeia", realçando que "a principal causa" dos fogos no país "é o incendiarismo".
"Contamos a história de um país que abandonou grande parte do seu território e da sua população. E fazemos um retrato de onde ninguém sai bem", dizem os autores, na apresentação do trabalho.
O júri destacou hoje que o `podcast` aprofunda de forma rigorosa o tema dos incêndios, num trabalho de "constante atualidade", com um guião e execução "que prende" quem o ouve, depois de um percurso por Portugal para tentar fazer um retrato da figura do pirómano e analisar causas estruturais dos fogos, o impacto das alterações climáticas ou problemas de saúde mental, alcoolismo e revolta contra o sistema.
Em declarações à Lusa hoje em Madrid, depois de ter recebido o prémio das mãos do Rei de Espanha, Sofia da Palma Rodrigues sublinhou a importância de um galardão destes para a sustentabilidade e projeção da Divergente, um projeto "pequeno e de jornalismo independente e jornalismo lento", que dedica "o tempo necessário a ouvir as pessoas" para contar as histórias que pretende.
Com a Divergente, foram distinguidos trabalhos de meios de comunicação internacionais da dimensão e projeção como os jornais El Pais ou The Washington Post.
Os Prémios Internacionais Rei de Espanha de Jornalismo são organizados pela agência de notícias espanhola EFE e pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID).
O júri da 43.ª edição distinguiu trabalhos em seis categorias e atribuiu a "País de incendiários" o prémio de Meio Ambiente, a que se candidataram 60 trabalhos.
Outro dos distinguidos este ano foi o `media` digital brasileiro "Aos Factos", que venceu na categoria de Meio de Comunicação Ibero-americano.
Trata-se de uma plataforma de verificação de factos e foi distinguida por defender a verdade em tempos de manipulação digital, tendo já conseguido que fossem retiradas publicações enganosas da rede social TikTok e vídeos que sexualizavam adolescentes das plataformas da Meta.
Os Prémios Internacionais Rei de Espanha de Jornalismo 2025/2026 distinguiram outros quatro trabalhos nas categorias Jornalismo Narrativo; Cooperação Internacional e Ação Humanitária; Cultural e Fotografia.
O prémio Jornalismo Narrativo foi para o `podcast` da Cadena SER "Assistolia, a morte desde dentro", coordenado pelos jornalistas Aimar Bretos e Víctor Olazábal.
A equipa de investigação de El Universal, do México, venceu em Cooperação Internacional e Ação Humanitária com um trabalho sobre as mortes por afogamento de migrantes que tentam alcançar os EUA através do rio Bravo, feito em colaboração com a plataforma de jornalismo Lighthouse Reports e o jornal norte-americano The Washington Post.
Na categoria Cultura, venceu a revista Contracultura, das Honduras, que, realçou o júri, deu o salto para o papel "nos tempos da IA [Inteligência Artificial]" e com diversidade de temas e expressões artísticas.
O prémio na categoria Fotografia foi para Óscar Corral, por uma imagem publicada no jornal espanhol El Pais captada numa localidade de Valência, Espanha, durante as inundações de outubro de 2024, em que morreram mais de 230 pessoas.
Os prémios - que têm uma dotação de 10 mil euros por categoria - foram entregues hoje pelo Rei de Espanha, Felipe VI, numa cerimónia na Casa América, de Madrid.