Precisamos de reforçar os media independentes e devolver a sua saúde
A subsecretária-geral das Nações Unidas para as Comunicações Globais defende, em entrevista à Lusa, que é preciso reforçar a comunicação social independente e devolver-lhe a saúde financeira, que foi afetada pelas redes sociais.
"A comunicação social tem sofrido imenso com as redes sociais", nomeadamente com a programação algorítmica, "que nunca se sabe quando promove ou despromove as notícias", aponta Melissa Fleming, que é uma das oradoras do TEDxPorto 2026 - (In)visível, que se realiza no sábado na Alfândega do Porto..
Aliás, "a ONU foi incluída nas mesmas categorias que alguns órgãos de comunicação social no Facebook, quando Mark Zuckerberg fez as suas alterações para (...) dar prioridade a amigos e indivíduos", prossegue.
Foi nessa altura que os media começaram a desaparecer dos `feeds` das pessoas e a ONU enfrentou os mesmos problemas, tendo as Nações Unidas questionado o Facebook sobre isso.
Em princípio disseram desconhecer a razão, mas "o que nos confessaram mais tarde foi que, sim, este tipo de conteúdo --- notícias e assuntos de interesse público --- estava a ser despromovido há anos no Facebook", o que representa "um campo de jogo desigual".
Em suma, as redes sociais "detêm todo o controlo sobre o nosso ambiente de informação e nós estamos a travar a batalha da narrativa".
Acima de tudo, "trata-se de tentar fazer chegar informação credível às populações, estamos a tentar fazê-lo na ONU, vocês estão a tentar fazê-lo como jornalistas e organizações de comunicação social", enfatiza.
Melissa Fleming classifica de uma "verdadeira luta", em que os media perderam as receitas publicitárias, o que levou a muitas empresas do setor à falência.
"Temos desertos de notícias por toda parte, o jornalismo independente está realmente em crise como resultado desse ambiente digital", por isso "precisamos de reforçar os media independentes e restaurar a sua saúde, esse é outro antídoto" contra a desinformação, defende.
Um das soluções "mais poderosas na qual "estamos a trabalhar" passa pelas marcas e anunciantes, já que "queremos critérios" para onde é veiculado.
"O sistema que coloca anúncios ao lado das pessoas `online` que ganham a vida dessa forma é um sistema muito obscuro", sublinha.
Aliás, há ONG "que monitorizam isto e mostram que grandes marcas estão, na verdade, a monetizar alguns dos piores intervenientes nas redes sociais. Portanto, se isto pudesse ser alterado --- e se a desinformação e o discurso de ódio pudessem ser desmonetizados --- isso enfraqueceria este tipo de conteúdo", defende Melissa Fleming.
A desinformação "é um cancro para a saúde da nossa sociedade", por isso, "a outra coisa que recomendamos, obviamente, é que a literacia mediática e a literacia digital façam parte da educação e não apenas para as crianças, porque vemos muitos idosos que acreditam piamente" em tudo o que está `online`.
As plataformas dizem que os utilizadores devem aprender a navegar, "mas essa não pode ser a única solução".
Contudo, "temos de nos tornar mais astutos" para que as pessoas não acreditem em tudo e "ter jornalistas dedicados a esta área, a escrever sobre o tema e a fazer investigações, é também fundamental", remata.
"Temos magnatas [tycoons] de tecnologia que dominam o nosso ambiente informacional e sua principal motivação é o lucro, não a saúde da sociedade", critica Melissa Fleming.
"Acho que fomos enganados a pensar que existem" redes sociais gratuitas às quais podemos acessar, "sem perceber o preço que pagamos", que é "sermos constantemente vigiados, o objetivo deles é manter-nos nas suas plataformas o máximo de tempo possível para que possam extrair o máximo de informações possível sobre nós, para que possam vender publicidade direcionada", adverte.
Aliás, "são basicamente empresas de publicidade, não redes sociais como gostam de se dizer", em suma, "são máquinas de lucro" e infelizmente "a natureza humana é atraída por conteúdo sensacional", que gera medo ou raiva.
Há uma crescente perceção de que este ambiente "não é bom" e "exigimos mudanças", diz. "Temos os princípios globais da ONU sobre integridade da informação", os quais "recomendam um leque de soluções".
Em primeiro lugar, "se as plataformas tornassem os seus designs seguros, não teríamos todos os outros problemas, mas temos que conviver com a realidade de que provavelmente elas não mudarão muito e, portanto, precisamos trabalhar em outros aspetos".
Por isso é que os governos estão a optar "por regulamentar agora, o que força as plataformas a fazerem mudanças que serão melhores para" os seus utilizadores, conclui.