Presidente da Moody`s reconhece que a agência de notação financeira falhou

Presidente da Moody`s reconhece que a agência de notação financeira falhou

O presidente executivo da Moody's admite que a agência de notação financeira falhou na atribuição de 'ratings' nos anos que antecederam a crise financeira nos EUA. Num testemunho enviado à comissão do Congresso norte-americano que investiga a crise financeira, Raymond McDaniel diz que os ‘ratings' que a agência atribuiu a activos relacionados com hipotecas residenciais foram "profundamente decepcionantes".

António Carneiro, RTP /

No testemunho enviado aos congressistas, Raymond McDaniel reconheceu que a Moody's "não está certamente satisfeita" com o desempenho destes 'ratings' e está a tomar medidas para melhorar o seu processo de atribuição de classificações.

Não obstante este "mea culpa", o presidente executivo da Moody's diz que os investidores devem apenas usar os ‘ratings' como uma ferramenta e não para vender ou comprar activos. 

McDaniel justificou a má prestação de serviços aos clientes dizendo que o colapso do mercado imobiliário e a consequente crise foram de uma magnitude que "muitos de nós pensávamos ser inimaginável".

As agências de notação financeira Moody's, Fitch e Standard & Poor's estão a ser investigadas pelo Congresso e pelos reguladores do mercado segurador por terem atribuído, de forma irrealista, classificações elevadas a obrigações de qualidade "subprime", ou seja, por terem certificado como bom investimento obrigações de dívida hipotecária arriscadas, imediatamente antes do colapso do mercado de crédito em 2007.

Conflito de interessesQuando os compradores das habitações hipotecadas deixaram de pagar os empréstimos, estas mesmas agências fizeram cair instantaneamente os ‘ratings' de milhares de milhões de dólares de investimentos, o que ajudou a desencadear a crise.

Alguns legisladores acusam também as agências de ‘rating' de terem um conflito de interesses, pois são pagas pelos próprios bancos cujos investimentos elas classificam.

Antigos funcionários do serviço de investidores da Moody's disseram à comissão do Congresso que foram alvo de intimidação por parte das chefias para atribuírem ‘ratings' mais favoráveis a produtos financeiros arriscados, num esforço para ganhar quota de mercado.

"Para mim era muito claro que o meu futuro na empresa e a minha compensação seriam baseadas na quota de mercado" disse à comissão Eric Kolchinsky, que em tempos liderou o serviço de investidores da Moody's, que avaliava as obrigações de dívida colateralizada do subprime, e agora é um dos principais "denunciantes" dos alegados defeitos da agência. 

Warren Buffet distancia-se das agências

Na sessão dedicada a apurar o papel das agências de notação financeira na crise do "subprime" também é testemunha o multi-milionário Warren Buffett, cuja companhia Berkshire Hathaway é um dos principais accionistas da Moody's

Em entrevista à cadeia de televisão CNBC, o investidor distanciou-se das agências, dizendo que elas perderam algum do seu atractivo enquanto investimento, por causa das críticas a que têm sido sujeitas na sequência da crise financeira.

"Creio que se enganaram como todos os outros", disse Buffet. O milionário de 79 anos repetiu que "adora" o modelo de negócio das agências mas que os investidores como ele devem fazer o seu próprio "trabalho de casa", em vez de dependerem das agências para o fazerem.

Buffet distanciou-se também da administração da Moody's dizendo que não tem tido contacto recente com ela, e alegou desconhecer que a agência de que é accionista tinha recebido recentemente um aviso do Governo, indicando a possibilidade de vir a ser alvo de um processo de responsabilidade civil por não ter revisto atempadamente em baixa certas obrigações de dívida europeia.

A Berkeshire Hathaway de Buffet detém actualmente 13 por cento da Moody's, menos sete por cento do que há um ano. O milionário diz que a agência "não é tão à prova de bala" como já foi e que lamenta não ter vendido, mais cedo, mais acções.

União Europeia quer regulamentar Esta quarta-feira a Comissão Europeia propôs que um novo regulador dos mercados passe a fiscalizar as agências de notação ao crédito em todo o bloco de 27 países. Este novo regulador teria o poder de multar as agências, se estas não explicarem as suas razões para diminuírem os ‘ratings´ de Governos ou empresas.

A Comissão sugere também mudanças ao modo como os bancos são geridos, defendendo que os membros das administrações e os accionistas devem fazer mais para garantir que os gestores não estão a assumir riscos demasiado elevados.

As reformas fazem parte de uma vasta revisão da supervisão financeira que visa resolver os problemas que em 2008 levaram à crise do sistema bancário, obrigando os Governos europeus a gastarem milhares de milhões de euros em injecções de liquidez, o que, por sua vez, fez disparar as dívidas públicas dos países e levou à necessidade de severos cortes orçamentais.

As propostas da União Europeia, que incluem também uma taxa sobre os bancos para pagar os custos de recuperar grupos financeiros insolventes, vão ser apresentadas na cimeira do G20 que terá lugar no Canadá em Junho.

Tópicos
PUB