Relação entre China e EUA não irá voltar ao que era, defende analista
Um analista afirmou hoje que os Estados Unidos e a China "não podem regressar" à relação que tinham há uma década e disse que o afastamento das duas economias começou muito antes da guerra comercial.
Durante uma palestra na Universidade de Macau, Kevin Zhang, professor na Universidade Estadual de Illinois, no centro dos Estados Unidos, foi questionado sobre se existe um "desacoplamento ideal" entre as duas superpotências.
"De facto, não há maneira de os EUA e a China regressarem ao que eram há 10 anos", afirmou Zhang, explicando que a razão foi a insatisfação mútua. "Ambos os lados não estão satisfeitos" com a relação bilateral, explicou.
Numa guerra comercial, "não existe tal coisa como dominância na escalada, nem os EUA nem a China podem manter armas assimétricas a longo prazo, porque todas as armas são espadas de dois gumes", disse o académico.
O analista explicou que os Estados Unidos possuem o conjunto de ferramentas assimétricas mais abrangente, incluindo o domínio do dólar, pontos de estrangulamento tecnológico, o poder das sanções económicas e a dimensão do mercado de consumo.
"A China, por sua vez, tem domínio na cadeia de abastecimento em áreas como terras raras, veículos elétricos e baterias, bem como um grande mercado de consumo, embora as suas ferramentas financeiras e alianças sejam mais fracas", acrescentou.
Na sua análise, Zhang argumenta que ambos os países já estão a sofrer com o conflito comercial, mas também se têm vindo a preparar há anos para uma independência a longo prazo.
"Mesmo antes da guerra comercial, por volta de 2016 e 2017, a China já trabalhava para tornar o seu setor de alta tecnologia independente dos EUA", explicou Zhang.
Segundo o analista, a motivação era a preocupação com a forte dependência dos sistemas norte-americanos, desde as finanças até à Internet.
"Pensem na Internet, nas tecnologias de informação, têm de depender dos EUA", observa Zhang, "porque os EUA construíram a plataforma".
Citou a tecnológica chinesa Huawei como exemplo: "porque a empresa usava o sistema Android, tornou-se vulnerável à pressão dos EUA. Em poucos anos, a Huawei caiu do primeiro lugar no seu mercado para fora dos dez melhores."
Zhang afirmou que, ao reconhecer esta vulnerabilidade, a China começou a criar um sistema alternativo, o sistema WPS, ao longo dos últimos 15 a 20 anos.
"A China, não os EUA, foi a primeira a iniciar o desacoplamento económico," argumentou, "outros países perceberam isto, mas não podem fazer nada", "apenas a China percebeu isto, depois construiu outro sistema."
Olhando para o futuro, Zhang acredita que outras economias pequenas e médias, incluindo o Vietname, o Japão, a França e a Alemanha, aprenderão com este exemplo.
"Elas terão cuidado para não depender 90 por cento dos EUA ou da China em qualquer área única," acrescentou.