Economia
Reunião da NATO. Jovens empresários portugueses preparados para projetos inovadores na indústria da defesa
A NATO reúne num fórum especial em Ancara, esta terça-feira, empresários e parceiros que querem investir na indústria da defesa.
Isto depois de o secretário-geral da Aliança ter garantido que “com os 258 mil milhões extra gastos em 2025 e 2026 pelos canadianos e pelos europeus, atingimos o limite máximo em termos de capacidade de absorção”, o que significa “porque há um limite para o que se pode gastar a mais num ou dois anos em termos de recrutamento de homens e mulheres para as Forças Armadas, garantindo que a base industrial de defesa, que está a desenvolver-se rapidamente, está em pleno funcionamento”.
Mark Rutte reforça que “há um limite para o que a indústria pode fazer em termos de aumento da produção em um ou dois anos”, mas mesmo assim serão anunciados novos projetos comuns.
Perante esta (já não tão) nova realidade a RTP Antena 1 quis saber o que podem esta oportunidade significar para os jovens empresários.
Carlos Carvalho, Presidente da Associação Nacional dos Jovens Empresários refere que “todo este contexto a que temos vindo a assistir nos úlitmos anos relativamente à indústria da defesa tem feito com que muita gente fale da indústria da defesa como uma oportunidade. E de facto, nós podemos estar a falar de um contexto em que estamos inseridos – e que se iniciou praticamente com a questão da guerra na Ucrânia – que pode e deve ser um mais um fator de aceleração para startups e PME nacionais”.
Carlos Carvalho refere que “devemos deixar de olhar para a economia em silos, ou seja, de pensar que quando falamos de defesa estamos só a falar daquilo que é a indústria tradicional da defesa. Temos a questão de tudo o que é dual use, ou seja, tecnologia de duplo uso, sistemas duplos que tanto podem servir para cadeias de defesa como para cadeias de utilização civil”.
O Presidente da ANJE refere que esta “é uma oportunidade para a economia”.
“Uma vez que temos que aumentar a execução do orçamento de defesa, o que deveria verdadeiramente acontecer era que fosse feito de forma – e eu vou usar a expressão – inteligente, e como? Aproveitando para fazer as aquisições em empresas inovadoras e de tecnologia nacional que podem ter aqui uma oportunidade para lançarem produtos inovadores e serviços inovadores e ganharem a escala que precisam para logo a seguir estarem mais fortes no mercado e a poder competir também em mercado internacional”.
Mais financiamento e mais ligação com a Academia
Mas Carlos Carvalho diz também que para que os jovens empresários possam avançar com ideia, tecnologias e empresas é preciso financiamento.
“E nós, apesar de termos passado muitos anos a falar de empreendedorismo, ainda temos uma sociedade que tem dificuldade em investir e em garantir financiamento para empresas em fase inicial. Portanto, essa dificuldade vai sempre existir. O que é importante aqui é que depois também exista uma garra e uma procura por parte desses empresários em rapidamente estarem nos sítios certos e estarem em plataformas que já existem e que permitem rapidamente chegar ao mercado”.
“Falo de plataformas que se têm juntado para promover o networking e entre empresas e entre empresários. E mesmo nós, na própria ANJE, temos muito esta ambição e esta missão de colocar os jovens empresários a falar uns com os outros para, em conjunto, poderem aproveitar melhor as oportunidades”.
Muito se tem falado da necessidade de uma maior interação entre empresários e universidades, institutos e académicos.
Carlos Carvalho considera que “é fundamental”.
“Eu diria que as empresas, quando querem realmente ser bastante inovadoras – e nós estamos numa época em que é preciso ser inovador – as ligações a universidades são muito importantes porque podem ajudar a garantir essa inovação. Mas aqui também é preciso que as próprias universidades tenham o mindset certo e produzam investigação que possa ser aplicada àquilo que são as necessidades do mercado”.
Uma das prioridades da NATO e da União Europeia no que se refere às industrias de defesa é a localização das unidades de produção e abastecimento, de as instalar em locais diversos em cada país, diversificando os locais de produção, para garantir que, por exemplo, no eventual caso de um conflito, nem tudo esteja no mesmo local.
Deslocalizar as unidades de produção
A importância de criar estas empresas no interior do país e mais longe de grande cidades é cada vez mais uma realidade.
“Bom, eu tenho opinião sobre isso porque lidero uma empresa tecnológica” refere o Presidente da ANJE à RTP Antena 1, “portanto, nós sabemos que ter tudo no mesmo local é um princípio perigoso. Naturalmente que se pudermos ter empresas críticas ou organizações críticas de uma forma mais dispersa, estamos a melhorar aquilo que possa ser a nossa resiliência agora”.
Além disso, “hoje em dia, muitas destas empresas também têm por base produtos e serviços tecnológicos. Por isso não será tão importante a questão da localização, naturalmente, isto se falarmos do país. Esta onda de apostar em novas empresas e ajudar empresas a crescerem ligadas à indústria da defesa, deve também sempre ser aproveitado para, dinamizar-mos todo o território nacional e não apenas os grandes centros”.
Carlos Carvalho defende ainda a produção conjunta, em consórcios que incluam empresas de diferentes países europeus.
“Eu próprio, a nível profissional e na minha empresa, estamos a participar em consórcios europeus que têm vindo a desenvolver projetos, no caso tecnologia, com outras empresas, outras instituições, até de ensino superior e de investigação de outros países. Portanto, a cooperação e principalmente cooperação a nível europeu é extremamente positivo, principalmente porque nos permite também ganhar alguma escala, algum conhecimento e mais rapidamente convergimos”.
“Nós temos que ter consciência que o mercado português é curto e temos que ser claros sobre isso. E quanto mais pudermos beneficiar deste tipo de comparações e participarmos neste tipo de consórcios, melhor”.
“Acredito também que a nova geração de empresários e as novas lideranças empresariais estão sobejamente preparadas para este tipo de desafios. Agora também precisamos de ter um Estado que queira que estas lideranças empresariais, essas novas lideranças empresariais, possam realmente singrar”.
O Presidente da ANJE explica: “e com isto eu quero dizer que a questão das compras e da aceleração que damos à nossa economia é fundamental. Nós não podemos, por um lado, dizer que queremos empresas inovadoras e que apostem em tecnologia – que possa, por exemplo, ser usada no mercado civil, mas também em mercado militar – e depois termos o próprio Estado português a preferir e a optar por soluções que não respeitam estas regras e que muitas vezes fogem daquilo que é a soberania e a soberania cibernética nacional”.
“Portanto, se temos um Estado que quer realmente acelerar a economia, ele também deve ser coerente e deve ter compras inteligentes, compras públicas inteligentes que ao mesmo tempo beneficiem a inovação. Nós não vamos ser um país inovador por decreto. Nós podemos ajudar a economia a ser mais inovadora se o próprio Estado optar por comprar aquilo que é inovador”.
Cooperação PME e startups
Por fim, na conversa com a RTP Antena 1, Carlos Carvalho realçou a importância da ligação entre as PME e as startups.
“Se nós queremos ser um país verdadeiramente empreendedor, precisamos cada vez mais de startups que possam crescer. Não vou por aquele jogo de dizermos que nós precisamos de “unicórnios”, mas precisamos de startups que possam escalar. Para isso é fundamental – e temos defendido isso – que as startups possam aproximar-se possam existir programas de cooperação especificamente desenhados para que startups e PME industriais para que possam interagir mais de forma a que as startups levem a inovação para dentro destas PME e as PME garantam as startups a escala que elas precisam para realmente crescer.
“Precisamos de dinamizar este tipo de interação na nossa economia nacional. Assim vamos ser bastante mais competitivos e vamos ultrapassar as dificuldades de sermos um mercado pequeno para rapidamente estarmos a competir com players industriais mais relevantes a nível europeu”.