Ruas de Maputo são casa e sustento para centenas de sem-abrigo que tentam delas sair

Ruas de Maputo são casa e sustento para centenas de sem-abrigo que tentam delas sair

José, 42 anos, vive na rua, em Maputo, desde que perdeu o emprego, como psicólogo, passando a reciclar garrafas para sustentar três filhos, enfrentando discriminação, como as 1.500 pessoas que ocupam passeios e avenidas da capital moçambicana.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Luísa Nhantumbo - Lusa

Em conversa com a Lusa conta que há um ano que passa uns dias da semana com a mulher e os filhos e o restante tempo no passeio da avenida Patrice Lumumba a catar latas e garrafas, além de lavar e vigiar carros para sustentar a família.

"Se tivesse condições não faria isso que estou a fazer", desabafa José Tivane, que se apresenta como licenciado em psicologia pela Universidade Pedagógica de Maputo.

"Eu faço um tempo aqui na rua e um pouco tempo na minha família, mas na maior parte do tempo vivo aqui na rua", conta o homem, natural de Inhambane, no sul de Moçambique, pouco depois de se levantar para mais um dia de trabalho, pelas 06:00.

Passou a viver na rua após perder o emprego na clínica onde trabalhava, em Maputo.

"Estou na rua infelizmente porque perdi concentração da minha consciência (...). Eu sou um jovem que faço reciclagem das latas e garrafas e porque na verdade tenho uma família por cuidar e eu cuido dessa família usando esse mérito e sem outro mecanismo", diz, garantindo que, tal como ele, há nas ruas muitas pessoas formadas.

Hoje, a esquina onde costumava lavar o seu próprio carro passou a ser o seu local de trabalho e residência, onde divide com os companheiros a comida e os escassos lençóis oferecidos por quem por ali passa.

Afirma ter exercido a profissão durante cerca de sete anos e escolheu as ruas para sustentar a educação dos três filhos: "Não posso deixar os meus filhos perderem escola, esse é o meu caminho e para diante posso dizer eu vou lutar e ainda luto para que os meus filhos não deixem a escola. Não vão ser que nem eu (...). Não podem ser como eu".

O psicólogo integra um total de 1.528 pessoas que vivem nas ruas de Maputo, segundo o mais recente Relatório Anual da Campanha sobre Assistência à População em Situação de Rua, Praticantes de Mendicidade e Trabalho Infantil. Entre as causas estruturais para o fenómeno estão o desemprego, a desestruturação familiar, a pobreza extrema e a exclusão social, indica ainda o documento, divulgado recentemente pelo Serviço de Assuntos Sociais do Conselho dos Serviços de Representação do Estado na Cidade de Maputo.

"A problemática da população em situação de rua na cidade de Maputo constitui um desafio estrutural que exige uma abordagem integrada, contínua e orientada por resultados", sublinha-se.

Uma realidade que Manuel Macuácua, que completa 50 anos em setembro, conhece bem. Também faz parte das estatísticas e divide com outros sem-abrigo o passeio da avenida Patrice Lumumba, junto ao Jardim dos Professores.

Há pelo menos 20 anos que Manuel vive na rua, depois de a tia vender a casa em que vivia com a falecida avó, enquanto cumpria pena. Sem ter para onde ir, viveu ainda em três centros. Não deu certo e acabou por voltar às ruas.

"Eu não tinha um sítio para ir porque a casa principal é lá no Chibuto, em Gaza [no sul do país]. Não conhecia também porque só fui uma vez", diz à Lusa Manuel, pai de dois filhos, com quem viveu na rua durante cerca de 10 anos, até à morte da mulher.

Manuel Macuácua queixa-se de preconceito e discriminação, já que vive e dorme próximo de um contentor de lixo, mas garante que não é marginal e não rouba ninguém, explicando até que fez catequese, conhece a Bíblia e o Evangelho.

"As vezes passam e nos ignoram, as pessoas quem vêm com fatos limpos, são aqueles os próprios marginais (...). Nós ficamos aqui, 24 horas estamos aqui. As vezes amanhecemos enquanto estamos aqui sentados sem levar coisa de dono", diz.

Além da ajuda de terceiros, Manuel também sobrevive da lavagem e guarda de carros, atividade que pode render até 100 meticais (1,36 euro) por dia, e, ao cair da noite, desenrasca-se para enfrentar o frio, cobrindo-se com o que denominou de "lençolzinho".

A menos de dois meses do seu aniversário, Manuel Macuácua, que só tem a roupa que traz no corpo, diz que quer sair da rua: "Ninguém gosta de estar aqui na rua (...). [Sair daqui] é uma coisa que eu quero e não sou só eu. Somos muitos irmãos que estamos a sofrer, que estamos a dormir aqui na rua".

Tópicos
PUB