Taxas de juro e andamento dos mercados marcam próximos meses
As decisões dos bancos centrais norte-americano e europeu e o desenrolar dos efeitos da crise do crédito hipotecário vão ser os principais factores a marcar o andamento dos mercados monetário e bolsista nos próximos meses.
Os analistas ouvidos pela agência Lusa consideram que as decisões desses bancos centrais sobre as taxas de juro vão ser decisivas para o mercado perceber qual a dimensão dos problemas do crédito hipotecário.
Desde Fevereiro que se têm multiplicado as falências de instituições financeiras e o anúncio de problemas em várias instituições com exposição a créditos hipotecários de alto risco (`subprime`), dado o crescimento das taxas de incumprimento.
No início de Agosto, a falta de liquidez nos mercados financeiros levou à intervenção de vários bancos centrais, injectando dinheiro, e as bolsas reagiram em baixa, com o mercado muito marcado pela volatilidade e instabilidade.
"Ainda passou pouco tempo para se dizer se isto [crise do sub prime] vai ter impacto", disse à Lusa o economista-chefe do BCP, Gonçalo Pascoal.
"É preciso perceber quem está exposto e em quanto", acrescentou, e isso será determinante para o grau de confiança das pessoas e das empresas.
Já no início de Setembro o Banco Central Europeu tem a sua reunião mensal do conselho de governadores e o mercado está à espera que este suba a taxa de juro de referência em 0,25 pontos percentuais, para 4,25 por cento.
O BCE já disse que continua a monitorizar a evolução dos acontecimentos, mas deu a entender que pretende manter o anunciado e voltar a subir o preço do dinheiro.
A reunião da Fed está agendada para 18 de Setembro, pelo que o BCE será o primeiro a dar ao mercado a sua interpretação da extensão da crise.
Com uma subida de taxas, o mercado pode interpretar que o BCE acredita que a crise do sub prime não se vai estender ao conjunto da economia real.
Será complicado o BCE continuar a subir taxas de juro e a Fed optar por descê-las, justificando tais acções com o `sub prime`, avisa Gonçalo Pascoal.
A Fed está com o dilema de combater a inflação e fazer face ao risco de agravamento das condições dos mercados, segundo o analista do BCP, mas tentará não ser vista como alguém que salvaguarda as asneiras que outros fazem.
Se o impacto do `sub prime` for maior do que o esperado, a Reserva Federal será obrigada a cortar as taxas de juro e o BCE fica sem margem de manobra para continuar a subir as taxas na Zona Euro, corroborou Artur Amaro, analista do Banif.
Além da actuação dos bancos centrais, os investidores vão estar de olhos postos no andamento da economia norte-americana na segunda metade do ano, segundo os vários analistas ouvidos pela Lusa.
As pessoas vão querer saber se há uma aterragem suave em 2007 para o optimismo regressar em 2008, ou se tudo vai correr pior do que o esperado, frisou Artur Amaro.
Já no terceiro trimestre, quando as empresas e os bancos começarem a divulgar as contas trimestrais, em que se vai começar a perceber claramente quem ficou com o mau e com o bom crédito, afirmou Luís Bravo, analista do Barclays, a preocupação com os fundamentos vais regressar.
Depois disso e passado o "pânico exagerado", é muito provável que as atenções se comecem a voltar novamente para os fundamentos das economias, segundo Luís Bravo, e o investimento em acções volte a ser favorecido.