Trump é "aliado involuntário" da descarbonização
O economista brasileiro Jorge Arbache afirmou hoje à Lusa que a crise energética global e as políticas do Presidente norte-americano, Donald Trump, estão a acelerar, de forma involuntária, a transição energética mundial.
O antigo vice-presidente do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caraíbas e colaborador no Banco Mundial e na Organização Internacional do Trabalho foi um dos oradores convidados para a edição deste ano do Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau 2026 (MIECF na sigla inglesa), que termina hoje.
À Lusa o economista sublinhou que o Presidente norte-americano, ao iniciar diferentes conflitos relacionados com fontes de petróleo, acabou por expor a vulnerabilidade das economias dependentes de combustíveis fósseis e, sem intenção, tornou-se um aliado involuntário da descarbonização.
"Trump está fazendo esses movimentos todos e o que ele está conseguindo com isso é mostrar para todo mundo que todo mundo tem que descarbonizar o mais rápido possível, porque depender de fósseis implica depender de questões geopolíticas de grandes proporções", afirmou à Lusa o antigo vice-ministro e economista-chefe no Ministério do Planeamento do Brasil.
Os Estados Unidos e Israel lançaram em 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irão e, em resposta, Teerão encerrou o estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Como consequência, o tráfego de petroleiros no estreito caiu drasticamente e aumentou a instabilidade relacionada com a oferta, pressionando os preços.
Arbache explica que a crise energética atual "descortinou" a dependência estrutural de países produtores de petróleo e gás, tornando evidente que a descarbonização não é apenas uma questão ambiental, mas também estratégica.
A necessidade de reduzir riscos geopolíticos está a impulsionar políticas de transição energética em várias regiões.
Arbache defende que a resposta passa por políticas orientadas para o mercado, capazes de aproveitar regiões com energia renovável abundante e barata, como a América Latina, para instalar indústrias intensivas em energia.
Essa lógica, que o economista denomina `powershoring` permitiria não só reduzir custos de produção, mas também aumentar a resiliência das cadeias de valor globais.
"Se você resolver fazer toda a sua produção na Alemanha, só para dar um exemplo, de tudo aquilo que você precisa de aço, de alumínio, de produtos químicos, você não só vai produzir a um custo muito maior, mas vai estar muito mais exposto a choques geopolíticos", alertou.
Para Arbache, a crise energética atual é uma oportunidade para repensar a geografia da produção industrial e acelerar a transição para energias limpas.
A diversificação para zonas menos expostas a tensões internacionais e com forte capacidade renovável é, na visão do responsável, a chave para garantir segurança energética e competitividade económica.
No caso da China, o economista descreve ter seguido uma estratégia dupla: apoiar países que ainda precisam de descarbonizar, fornecendo capital e tecnologia, e investir em países já descarbonizados, como o Brasil, através de parcerias que permitem explorar o que chama de `carbon arbitrage`.
"Você está falando uma agenda com países que precisam descarbonizar, outra agenda com países que já descarbonizaram, mas que se beneficiarão de investimentos chineses em produção ali de coisas por 0carbon arbitrage`", explicou.
Sobre a Europa, Arbache é crítico e considera que o continente mantém uma visão excessivamente centrada em si próprio, o que limita a capacidade de resposta.
"A Europa busca uma visão de total independência, autonomia do mundo. Não só ela não vai conseguir, estou falando no que tange a energia e também a produção de coisas verdes, não só ela não vai conseguir, mas aquilo que ela venha a conseguir será a um custo muito alto, ponto. Porque ela é estruturalmente não competitiva", afirmou.
Na visão do economista, a União Europeia precisa de mudar de mentalidade e aceitar que necessita de aliados em regiões menos expostas a tensões geopolíticas. "Enquanto você não mudar a mentalidade, você vai olhar para os potenciais aliados como competidores, quando na verdade eles são aliados", acrescentou.