"Estamos a atingir o momento em que as máquinas conseguem pensar"

"A humanidade vai mudar mais nos próximos 20 anos do que nos últimos 300". A frase é de Gerd Leonhard, considerado um dos maiores futuristas da atualidade. Em entrevista à RTP, alerta para os riscos, mas também para as vantagens que os avanços da tecnologia estão a criar. Falámos sobre o Facebook - "uma armadilha de prazer" -, inteligência artificial e sobre a necessidade imperiosa de colocar o homem no centro desta evolução. Porque estamos a "atingir o momento em que as máquinas conseguem pensar".

Gerd Leohnard é considerado um dos maiores futuristas do mundo
Gerd Leonhard
| Fronteiras XXI

Nasceu na Alemanha, já viveu nos Estados Unidos, onde trabalhou na área da música, e está agora radicado na Suíça. Mas considera-se um homem do mundo. Um mundo que está a viver um tempo de transformações nunca antes observado.

Gerd Leonhard esteve em Portugal para participar na "Portugal Digital Week", conferência organizada pela ACEPI. Foi considerado pela revista Wired como um dos 100 maiores pensadores sobre o futuro. Estuda, analisa e prevê o que pode - diria, até, vai - acontecer nos próximos anos. E o que vai acontecer?

Pergunta: Diz que a humanidade vai mudar mais nos próximos 20 anos do que nos últimos 300. Vai mudar como?


Resposta: O progresso científico tem sido muito rápido em várias áreas. Por exemplo, na análise de informação (data), na internet das coisas, na conetividade de equipamentos, nos carros que andam sozinhos, computadores que pensam, mudanças na medicina."Estamos a ficar viciados na vida digital. E não conseguimos viver sem ela. Por isso tornamo-nos mais dependentes. E estamos a dar poder a uma máquina". Basicamente em todas as áreas.

O que se verifica é que a tecnologia tem impacto em qualquer parte da nossa vida. E algumas dessas coisas eram consideradas ficção científica, como por exemplo a tradução de línguas. Há 20 anos que se tenta mas agora estamos no ponto chave em que está realmente a funcionar. Daqui a dois anos será possível traduzir 20 línguas em tempo real sem qualquer problema.

Teremos dúzias destas transformações a acontecer. A energia solar irá fornecer energia ilimitada. Muitas destas coisas são boas porque levam a que os preços baixem e dão poder ao consumidor. Mas há outras coisas que não são assim tão boas. Por exemplo, toda a nossa informação está a ser partilhada. 

Estamos a ficar viciados na vida digital. E não conseguimos viver sem ela. Por isso tornamo-nos mais dependentes. E estamos a dar poder a uma máquina. Com o namoro, por exemplo, já não nos damos ao trabalho de procurar. A máquina procura por nós. Tornamo-nos preguiçosos. E isso não é bom. Se nos esquecemos quem somos, então a tecnologia pode tornar-se demasiadamente poderosa. É um desafio. Não será um problema assim tão grande como os filmes de Hollywood fazem crer mas há uma mudança na sociedade na qual as máquinas se sobrepõem aos humanos.

Pergunta: Fala sobre os próximos 20 anos, mas há mudanças que já estão em curso, que estão a mudar a forma como vivemos, como trabalhamos…

Resposta: O ponto-chave será o momento em que o computador conseguir ter a performance humana. Isso já é possível agora, mas o computador é muito caro e não é acessível. Será daqui a sete, dez anos, ou talvez mais cedo. 
"Proteger a humanidade significa participar no mundo digital, mas não nos tornarmos digitais".
Há um momento - "singularidade" -  no qual os computadores passam a fazer as coisas de forma semelhante aos humanos no que diz respeito a inteligência. Ou seja, teremos computadores a fazer exatamente o mesmo que nós, exceto sentimentos e existência.

Nessa altura todos os trabalhos que são agora realizados pelos humanos podem ser feitos por computadores: guardar livros, aconselhamento financeiro, guiar um carro, voar um avião. Isso vai criar uma enorme mudança na sociedade. 

E o que temos que fazer é preparar-nos para essa mudança, educando as nossas crianças de outra forma, compreender a tecnologia e proteger a humanidade. E proteger a humanidade significa participar no mundo digital, mas não nos tornarmos digitais. Tem que haver proteção sobre a informação, as empresas têm que ser responsabilizadas, temos que criar uma lógica nova se não quisermos transformar-nos numa máquina. 

Pergunta: A transformação digital levanta várias questões sobre o trabalho, sobre a economia. Como é que um país como Portugal pode responder a estes desafios?

Resposta: A primeira coisa a fazer é desenvolver a consciência do que está a acontecer. Quando começamos a compreender o que está a acontecer então podemos começar a preparar o futuro. Se não estamos à procura – aconteceu com a indústria da música que não viu a internet como uma oportunidade – então é doloroso. Somos atropelados pela tecnologia.  "A felicidade não é uma coisa que chega através de um algoritmo"

Temos também que conseguir desenvolver uma forma própria de fazer as coisas. Não querer ser Silicon Valley ou a China. Chamo a isso Centro de Controlo para a humanidade. Temos que ter o nosso centro de controlo para aquilo que consideramos importante. O objetivo da sociedade e da humanidade é a felicidade. Qualquer filósofo sabe isso. E a felicidade não é uma coisa que chega através de um algoritmo. Por isso, se queremos viver numa sociedade feliz, temos que ter a humanidade no centro. A tecnologia apenas como suporte.

Se conseguirmos usar a tecnologia para tornar as coisas mais baratas - como as chamadas de telefone, vídeos, entretenimento, computadores - então devemos também usar a tecnologia para criar algo importante como assistência médica mais barata. Curar doenças como o cancro. Permitir às pessoas que fiquem em casa para tomar conta das crianças.

Podemos fazer tudo isto mas temos que decidir. É uma decisão política. Todos os políticos têm que compreender as transformações que vão chegar nos próximos cinco anos e devem começar a avaliar isso antes que aconteçam.

Pergunta: E é possível acompanhar essas transformações num país com a dimensão de Portugal?

Resposta: Não é possível competir da mesma forma, mas Portugal, tal como a Europa, tem um sentimento de cultura coletiva. Isso significa que o nosso sistema está baseado em resultados coletivos. E isso é um pouco diferente do que acontece na América. 

O perigo que existe é quando pomos a tecnologia primeiro porque gera muito dinheiro. É uma visão a curto prazo porque apenas gera dinheiro, até que torna tudo igual. A nossa oportunidade é encontrar o que é necessário no mundo e fornecer, com um ângulo humano e com um bom mix com a tecnologia.  "Quando temos um governo que é poderoso e abusivo então a tecnologia ajuda esse governo a ser poderoso e abusivo".

A solução é não agir como se fossemos a Califórnia, ou como se Portugal fosse a Califórnia. A oportunidade que existe é agir como Portugal. Com uma boa mistura entre cultura, perceber as tendências e definir um caminho para o futuro.



Pergunta: Cada vez mais as empresas recolhem informação sobre cada um de nós. Em última instância os governos. Até que ponto isso é perigoso?

Resposta: Qualquer mau governo é perigoso. Quando temos um governo que é poderoso e abusivo então a tecnologia ajuda esse governo a ser poderoso e abusivo. Se temos um governo como, por exemplo, a Estónia, que tenta ser mais eficiente, mais transparente e rápido, isso é bom. 


A tecnologia é neutral até ser aplicada. Não devemos impedir os governos de aplicar a tecnologia. Vai tornar os governos mais rápidos e eficientes. Mas temos que o controlar por meios democráticos. Não é a tecnologia em si o problema, mas como a aplicamos. E sobre isso é preciso consenso. Por exemplo, responsabilizando as empresas pelo que estão a fazer. Elas têm que ser responsabilizadas pelas consequências das suas inovações. Os governos são um filtro mas também precisam ser controlados pelas pessoas.

Pergunta: Acontece que nos dias de hoje as novidades tecnológicas são tantas e tão rápidas que por vezes os governos são lentos a reagir, a legislar, não conseguem acompanhar a velocidade da tecnologia....

Resposta: Isso é verdade e não é, se virmos, por exemplo, o que está a acontecer na regulação dos carros autónomos. Vários governos por todo o mundo estão agora a tentar uma regulação. Mas diria que qualquer político ou qualquer representante público que não procura respostas para o desemprego por causa da tecnologia, para a inteligência artificial, para a engenharia genética, deve ou ler ou sair.

"O Facebook é uma armadilha de prazer".
Temos que definir o poder da tecnologia no contexto do que pretendemos atingir. Senão, se só fazemos tecnologia, só atingimos tecnologia. Oportunidades de négocio passam por criar produtos equilibrados, não abusivos. O Facebook, por exemplo, é uma armadilha de prazer. É um produto abusivo. Eu uso, é muito difícil não usar. Mas é abusivo.



Pergunta: E vai sobreviver?

Resposta: Eu acho que não. É grande demais para cair, para já, mas se continua neste caminho de ser abusivo com o que fazemos, vamos acabar por experimentar e mudar para outra coisa qualquer. É só uma questão de tempo. Não é viável neste momento porque agora o Facebook é como o ar.

Pergunta: Inteligência Artificial. Ainda uma coisa do futuro?

Resposta: Não. Está em toda a parte. Os produtos que usamos hoje utilizam máquinas inteligentes. Os mapas da Google, por exemplo. Há computadores que recolhem informação, os assistentes inteligentes. E este assistente inteligente sabe tudo sobre nós. Analisa informação, vê o que os nossos amigos fazem, verifica o trânsito e depois diz: “O Starbucks tem uma promoção”.

É inteligente. No futuro vamos estar num carro que não guiamos. Os carros vão saber tudo sobre nós. Sobre o trânsito. Ainda não estamos lá mas vamos lá chegar. Pelo menos nas cidades: carros autónomos que nos levam do aeroporto para o hotel a uma média de 30 quilómetros por hora. Não será um problema. "Um médico que tem acesso a uma quantidade enorme de informação sobre cancro torna-se num supermédico".

São os assistentes inteligentes. Os bancos terão robôs que recebem a minha chamada, falam como nós, e a quem eu poderei colocar questões simples sobre o meu portofólio de ações e terei respostas. Tudo isto é assistência inteligente. E isso está já a acontecer.


Pergunta: Na área da medicina, a tecnologia continua a ajudar muito?

Resposta: Na medicina, saúde, bem-estar, a tecnologia é uma mina de ouro. Um médico que tem acesso a uma quantidade enorme de informação sobre cancro torna-se num supermédico. Se compreender o contexto. Porque as máquinas não têm contexto. Eu posso estar deitado na cama  - e há 10 mil casos de cancro como o meu - mas a máquina não sabe que eu estou em depressão porque a minha mulher me deixou. As máquinas não fazem essas ligações. Por isso os médicos têm que fazer o que os humanos fazem. Descodificar essa informação. 

Mas claramente há um enorme avanço ao tornar a assistência médica mais barata, nos diagnósticos remotos. Eu posso estar em Cascais, usar uma pulseira de saúde e trocar informação de forma imediata. Isso salva vidas em doenças como a diabetes. 

Vamos viver mais tempo. E a cura para o cancro terá que ser gratuita. Terá que ser paga pelo governo. Se assim não for vai criar uma enorme disrupção porque só as pessoas ricas poderão viver mais tempo. E isso não será uma boa ideia.
 
Pergunta: Se tivesse que escolher uma grande transformação tecnológica nos anos mais próximos, qual seria?
"Temos que estruturar a nossa sociedade para que tome as decisões certas agora porque em menos de dez anos as decisões serão tomadas pelas empresas".
Resposta: São na verdade duas. Uma é que estamos a atingir o momento em que as máquinas conseguem pensar. Computação cognitiva. Máquinas que conseguem olhar para 100 triliões de dados, avaliar e realizar 100 milhões de simulações e chegar a uma nova forma de fazer coisas. Máquinas que conseguem compreender as coisas. Computadores que têm um quociente de inteligência de 10 mil. Estamos quase lá. E eu conseguirei comunicar com esses computadores a falar com eles. Isso vai mudar tudo. As empresas estão de forma séria a investir em máquinas inteligentes. 

A segunda grande mudança será na biologia das pessoas. Uma edição dos genomas para os humanos. Coisas simples como controlar a diabetes mexendo nos genes. 


Pergunta: Está otimista em relação ao futuro?

Resposta: Nesta altura poderei dizer que sim. Noventa por cento otimista e 10 por cento preocupado. Quando olhamos para o futuro muitas vezes pensamos no pior cenário porque é isso que os media mostram. É o que vemos nos filmes de Hollywood. Porque vende. 


A realidade, nesta altura, é que se tomarmos as decisões corretas vamos viver num mundo onde a energia será gratuita, a saúde, a água, os grandes problemas serão resolvidos. Não temos uma grande guerra há muito tempo. Há muitas coisas positivas. 

Mas temos que estruturar a nossa sociedade para que tome as decisões certas agora porque em menos de dez anos as decisões serão tomadas pelas empresas. Pelas quatro principais empresas no mundo. E isso não será bom.

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