Apenas um em cada 10 europeus considera Estados Unidos um "aliado"

Apenas um em cada 10 europeus considera Estados Unidos um "aliado"

Treze por cento dos cidadãos europeus passaram a considerar os EUA como um rival, e 12 por cento como um adversário direto. A maioria dos inquiridos afirma não confiar que Washington viesse em auxílio do seu país em caso de ataque.

Andrea Neves, RTP Antena 1, Bruxelas /
Foto: Yves Herman - Reuters

Uma nova sondagem pan-europeia, publicada hoje pelo Conselho Europeu para as Relações Externas (um think tank baseado no Reino Unido), mostra que a confiança nos Estados Unidos como aliado fiável da NATO está a diminuir e que os europeus pretendem uma maior autonomia estratégica em matéria de segurança e defesa.

O inquérito, realizado em 15 países, entre os quais Portugal, expõe uma série de divergências entre Washington e as capitais europeias, mas revela pouco interesse numa instituição de defesa exclusivamente europeia ou num "divórcio" europeu em grande escala da Aliança Transatlântica.
Relação transatlântica
Portugal é o país onde mais se acredita que quando Donald Trump deixar a Casa Branca a relação da Europa com os Estados Unidos volta à normalidade.

Em todos os países inquiridos pelo ECFR, o sentimento predominante é o de que “as relações com os EUA irão melhorar assim que Donald Trump deixar a Casa Branca”.

Tal é particularmente enfatizado em Portugal, onde 58 por cento dos inquiridos acreditam que tudo deverá, em breve, “regressar à normalidade” enquanto 24 por cento admitem que a presidência Trump vai deixar marcas nas relações entre os dois blocos, mesmo depois de chegar ao fim.

O Conselho Europeu para as Relações Externas explica que os dados foram “recolhidos num contexto marcado pela agressividade dos Estados Unidos no Médio Oriente, pela retórica belicista e pelas promessas de retirada de tropas de bases estratégicas na Europa, bem como pelas declarações ambíguas de Donald Trump sobre a futura viabilidade da NATO” e “mostram que a confiança europeia na “garantia de segurança” norte-americana caiu para mínimos históricos”.
Os Estados-Unidos: cada vez mais um rival e um adversário direto
Apenas um em cada 10 inquiridos (11 por cento) nos 15 países analisados pelo ECFR considera atualmente os Estados Unidos um aliado, enquanto maiorias em todos os países inquiridos afirmam não confiar que Washington viria em auxílio do seu país em caso de ataque

Os autores do estudo consideram que estes dados revelam “uma profunda desconfiança europeia em relação aos Estados Unidos antes das cimeiras do G7 (Évian-les-Bains) e da NATO (Ancara), mas também evidencia um surpreendente pragmatismo e uma atitude pública moderada relativamente ao futuro da Aliança Transatlântica”.

“Apesar da linguagem depreciativa de Donald Trump em relação à NATO e à União Europeia, bem como das suas reivindicações sobre território europeu (nomeadamente a Gronelândia), a opinião predominante entre os europeus é a de que as relações com Washington vão melhorar após a sua saída da presidência”, pode ler-se no documento hoje divulgado.

De acordo com os inquéritos do ECFR, a confiança nos EUA caiu para novos mínimos, “com apenas 11 por cento dos inquiridos a considerarem a atual administração como um aliado, uma descida face aos 16 por cento de há meio ano e aos 22 por cento de novembro de 2024”.

A opinião prevalecente nos 15 países inquiridos é a que os EUA são agora um parceiro necessário em vez de um aliado. As maiorias em todos os países inquiridos também já não acreditam que “Washington viesse em seu auxílio em caso de ataque”. 

De facto, 13 por cento do público europeu passou a considerar os EUA como um rival, e 12 por cento como um adversário direto, sendo estas opiniões mais expressivas em França, Espanha, Dinamarca, Suíça e Alemanha. Em Portugal, 52.8 por cento dos inquiridos consideram que os Estados Unidos são parceiro necessário e apenas 11,1 por cento consideram que é um país aliado. Ao todo 16.2 por cento não sabem como classificar a relação com Washington e 6,6 por cento olham para o lado de lá do Atlântico e vêm um adversário enquanto 13.3 por cento consideram que os Estados Unidos são um rival com o qual se deve competir.

A maioria dos inquiridos afirma não confiar que Washington viesse em auxílio do seu país em caso de ataque.

Só seis por cento dos inquiridos admitem firmemente que os Estados Unidos viriam em auxílio do país, 19 por cento consideram que tendencialmente acreditam que viriam, 39 por cento não estão muito convencidos dessa possibilidade e 24 por cento não estão de todos confiantes de um ajuda que pudesse vir do lado de lá do Atlântico.

Aliás, nesta nova fase da relação transatlântica faz com que em quase todos os países (exceto a Bulgária) é maior a percentagem dos que acreditam que "pelo menos alguns países europeus viriam em seu auxílio se fossem atacados”.

Os portugueses afirmam que estão tendencialmente confiantes de que pelos menos alguns países europeus os viessem defender no caso de o país ser atacado (45 por cento), 23 por cento não estão muito confiantes, 20 estão muito confiam nessa possibilidade e 4 por cento não estão de todos confiantes nesse auxílio.

A confiança era mais elevada na Dinamarca (88 por cento), seguida de perto pelos Países Baixos (82 por cento) e pela Suécia (81 por cento).

Há outros dados a reter no caso de o país ser atacado: o pelo Conselho Europeu para as Relações Externas questionou os portugueses se consideram que a maioria das pessoas do país estaria disposta a defendê-lo. Trinta e seis por cento dizem que estão confiantes, mas 32 por cento dizem que não estão muito confiantes. Só 14 por cento estão muito confiantes na possibilidade de a maioria dos portugueses defender o país e 11 por cento não estão de todo confiantes.

Os números mudam quando a questão se torna pessoal: estaria disposto a lutar pelo seu país? 29 por cento dos portugueses dizem que tendencialmente sim, 14 por cento que definitivamente sim. Mas, 29 por cento dizem que tendencialmente não e 22 por cento dizem que definitivamente não.
Maior autonomia na defesa e segurança
Este inquérito revela que existe uma clara consciência da necessidade de proteger a Europa contra a imprevisibilidade dos Estados Unidos durante esse período da presidência de Donald Trump, “aumentando os investimentos europeus em defesa, reduzindo a dependência do continente em relação ao armamento americano e procurando garantias imediatas de apoio junto dos países vizinhos em caso de agressão”.

“Os europeus tornaram-se progressivamente mais favoráveis a um aumento das despesas nacionais com a defesa entre 2025 e 2026. Em média, a recetividade cresceu 4 pontos percentuais durante este período. 

A mudança de atitude é mais significativa em Espanha, onde, apesar de uma divisão anteriormente equilibrada sobre esta questão, o apoio prevalece atualmente sobre a oposição a esse aumento. A Itália permanece o único caso isolado na sua oposição a maiores despesas militares (58 por cento contra vs. 28 por cento a favor), enquanto as populações da Estónia e da Áustria estão divididas. Os portugueses admitem que tendem a apoiar mais investimento em defesa (47 por cento) enquanto 17 por cento demonstram um forte apoio a esta ideia. Sete por cento opõe-se totalmente e 15 por cento tendem a estar contra uma aumento dos gastos em defesa.

Os europeus dos 15 países onde se realizou este inquérito estão dispostos a considerar a criação de uma dívida comum para financiar as despesas com a defesa.

Portugal é o país onde mais apoio existe (43 por cento) à possibilidade da emissão de dívida comum para financiar investimentos em defesa. 

Dezasseis por cento admitem que apoiariam totalmente esta ideia e 14 por cento opõe-se, sendo que cinco por cento se opõe totalmente a uma dívida comum para investimentos em defesa.

Em média, 47 por cento apoiam esta proposta, enquanto 35 por cento se opõem. O apoio é mais forte em Portugal, na Dinamarca, nos Países Baixos e Espanha enquanto a oposição é maioritária apenas em dois países, Áustria e Suíça.

“É de salientar que mesmo os eleitores dos partidos governantes na Dinamarca, Países Baixos, Suécia, Áustria e Alemanha (ou seja, países frequentemente caracterizados como "frugais") são maioritariamente a favor” refere o relatório hoje publicado.

Mas no que deveriam ser feitos os investimentos em defesa? Para os portugueses sobretudo em compras de mais equipamentos e armas a países europeus em vez de aos Estados Unidos. É o que dizem 69 por cento dos portugueses com 35 por cento a apoiar fortemente esta possibilidade e 34 por cento a apoiar tendencialmente.
Menor dependência da energia russa
Em quase todos os países inquiridos, a maioria dos inquiridos indicou preferência por que o seu país reduzisse a sua dependência estratégica do equipamento militar dos EUA. Entre os mais entusiastas em comprar localmente, a parceiros europeus, "em vez de fora da Europa" (por exemplo, nos EUA), encontravam-se a Dinamarca (75 por cento a favor), os Países Baixos (72 por cento), a Suécia (70 por cento), Portugal (69 por cento),
Mais investimento em defesa
Contudo, “embora muitos europeus sejam favoráveis ao aumento do investimento na defesa, nem sempre estão dispostos a aceitar cortes nas despesas públicas internas como parte deste processo”.

Portugal (com 47 por cento de respostas favoráveis) está entre os 5 países onde se admite mais cortes nalguns gastos públicos para poder aumentar os investimentos em defesa: 12 por cento afirmam estar fortemente a favor de reduzir despesas públicas para aumentar o investimento em defesa e 35 por cento admitem que estariam tendencialmente dispostos a apoiar esses cortes mesmo sem saberem em que áreas poderiam ser feitos essa diminuição de despesa em prol da defesa. 

As respostas negativas, em Portugal, situaram-se nos 36 por cento com 13 por cento dos inquiridos a dizer que seriam totalmente contra e 23 por cento que seriam tendencialmente contra os corte de despesas públicas para maiores investimentos em defesa.

Especialmente em cinco países – Alemanha, Itália, Espanha, Dinamarca, Áustria e Suíça – existe uma oposição maioritária aos cortes nas despesas públicas em prol do investimento na defesa nacional.
Pouco “apetite” por uma alternativa europeia à NATO

Nos dias de hoje os cidadãos europeus têm pouco desejo de substituir a NATO por uma nova instituição de defesa exclusivamente europeia.

Apenas 29 por cento dos inquiridos no estudo do ECFR consideraram que seria uma "muito boa ideia" ou uma "boa ideia", e em nenhum dos quinze países inquiridos uma maioria (ou seja, mais de 50 por cento) era a favor. Ao todo, 38 por cento dos portugueses consideram que essa alternativa seria uma muito boa ideia ou uma boa ideia sendo o país onde esta opção é mais considera como positiva (13 por cento dizem que seria uma muito boa ideia e 26 por cento uma boa ideia, contra 15 por cento que defendem que seria uma má ideia e nove por cento que seria uma muito má ideia).

Os espanhóis (37 por cento), suecos (35 por cento) e italianos (35 por cento) são os que mais apoiam a ideia de uma organização de defesa alternativa, enquanto a oposição é mais intensa na Estónia, Dinamarca, Países Baixos e Reino Unido.

Mas a maioria dos inquiridos não sabe se seria melhor ou não.

De notar ainda que a maioria dos portugueses defende a ideia de se desenvolver um sistema de persuasão nuclear independente (e que não dependa) dos Estados Unidos. É o que pensam 32 por cento dos inquiridos que apoiariam totalmente esta ideia enquanto 31 por cento tendem a apoiá-la.

O responsável pelas sondagens do ECFR, coautor e senior policy fellow, Pawel Zerka, considera que “num contexto de críticas e comportamento agressivo da administração Trump, os cidadãos europeus tornaram-se cada vez mais pragmáticos em relação à sua própria segurança. A procura pública por maior autossuficiência e a necessidade de se protegerem face às garantias norte-americanas, em particular no domínio da defesa, criaram uma janela de oportunidade para que os líderes europeus avancem mais longe e mais depressa na construção de sistemas comuns de segurança. É uma oportunidade que os decisores políticos não podem dar-se ao luxo de perder.”
Apoio à Ucrânia
Os dados do ECFR mostram igualmente que, “apesar das pressões económicas e de quatro anos de guerra, os cidadãos europeus continuam empenhados em apoiar a Ucrânia, bem como em manter a proibição, a nível de todo o bloco, das importações de energia russa. Contudo, não existe uma maioria que apoie o alargamento para leste no contexto atual”.

Após quatro anos de guerra, maiorias em todos os países inquiridos pelo ECFR veem a Ucrânia como um aliado ou um parceiro necessário. Em Portugal 37 por cento dos inquiridos considera que a Ucrânia é um aliado que partilha “os nossos valores e interesses” e 35 por cento admitem que é um parceiro necessário com o qual se deve manter uma cooperação estratégica.

Portugal está do mesmo lado da Suécia, Reino Unido, Dinamarca, Países Baixos e Estónia.
Só cinco por cento dos portugueses admitem que a Ucrânia é um rival com o qual é preciso competir ou um adversário com quem estamos em conflito.

Nos outros países prevaleceu a ideia de que Kiev é um parceiro necessário. No entanto, existe pouco entusiasmo em relação ao envio de tropas para "manter a paz após a guerra". Portugal é o quarto país, dos quinze onde se realizou este inquérito, onde mais apoio existe à possibilidade do envio de tropas numa missão pós-guerra. Trinta e oito por cento apoiariam esta missão, 15 por cento mostram um forte apoio a esta iniciativa.

O mesmo acontece entre alguns dos principais aliados de Kiev, como a Suécia (61 por cento), a Espanha (55 por cento), a Dinamarca (54 por cento) e o Reino Unido (51 por cento).

A maioria das pessoas noutros países opõe-se a tal cenário, especialmente na Bulgária, Áustria, Suíça, Polónia e Hungria. Em Portugal 30 por cento dos inquiridos são contra com 15 por cento a opôr-se e 15 por cento a opôr-se totalmente.
Energia da Rússia
O estudo mostra igualmente que, apesar do aumento dos custos energéticos em toda a Europa, a opinião predominante entre os cidadãos europeus (44 por cento) é que seria uma ideia “má” ou “muito má” restabelecer as importações de petróleo e gás russos (contra apenas 27 por cento que consideram essa opção uma ideia “muito boa” ou “razoavelmente boa”). 

Em Portugal, uma maioria dos inquiridos (47 por cento) afirmou que seria uma má ideia retomar as importações de energia de origem russa, contra 17 por cento que expressaram concordância. Os outros inquiridos não sabem como responder ou qual das duas opções é a melhor.

Candidatura da Ucrânia à adesão à UE continua a dividir a opinião europeia

Portugal é o país onde mais pessoas defendem o alargamento da União Europeia com 51 por cento dos inquiridos a considerar que esta perspetiva como muito boa ou boa ideia. Apenas 12% dos inquiridos em Portugal consideram que um alargamento do bloco para incluir a Ucrânia seria uma possibilidade negativa ou muito negativa.

De facto, os inquiridos em Portugal (51 por cento), Espanha (43 por cento) e Suécia (42 por cento) são os que mais defendem a ideia de "criar uma nova e maior União Europeia, que se estenderia para Leste (por exemplo, incluindo a Ucrânia)", com 50, 43, e 42 por cento dos inquiridos, respetivamente, a considerá-la uma muito boa ou boa ideia.

No entanto, noutros locais a oposição tende a estar enraizada, particularmente na Hungria, Bulgária, Áustria e Alemanha.

Jana Kobzova, coautora, senior policy fellow do ECFR e codiretora do Programa de Segurança Europeia do think tank, sublinha que “a nossa investigação também mostra que, embora os europeus continuem a apoiar a Ucrânia, no contexto atual não existe um consenso público para a adesão do país à UE". 

E acrescenta, "mantendo a adesão como objetivo, os europeus precisam de ser mais criativos com mecanismos intermédios para envolver Kiev, como a integração setorial ou sinergias na cooperação de defesa e na dissuasão no flanco oriental da NATO.”
Principais preocupações no dia a dia
Este inquérito quis ainda saber o que mais preocupa os europeus no dia a dia.

Entre as hipóteses colocadas percebe-se que para os portugueses é sobretudo o surgimento de uma forte e intensa crise económica no país. Oitenta e três por cento da totalidade dos inquiridos está preocupada com esta possibilidade sendo o país onde mais se nota esta preocupação.

Setenta e seis por cento dos inquiridos estão preocupados com a eventualidade de as alterações climáticas terem efeitos em Portugal (recorde-se que o inquérito foi feito em maio deste ano), 74 por cento que possa existir um grande guerra na Europa e não só na Ucrânia (sendo que 64 por cento dos inquiridos preocupam-se que sob a presidência de Donald Trump Portugal possa ser arrastado para uma guerra com outro país). 

É também o país onde esta questão mais preocupa os inquiridos.

Setenta e dois por cento preocupam-se que possa existir uma nova forte crise migratória nas fronteiras da Europa e 70 por cento com o declínio da democracia em Portugal
A sondagem
O novo relatório do ECFR baseia-se em dados de opinião pública recolhidos pela YouGov, Mandate Research e Turu-uuringute em 15 países europeus (Alemanha, Áustria, Bulgária, Dinamarca, Espanha, Estónia, França, Hungria, Itália, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, Suécia e Suíça) entre 30 de abril e 19 de maio de 2026.

Metodologia e inquérito Os dados citados neste estudo baseiam-se num inquérito de opinião pública a populações adultas (18+) realizado em maio de 2026 em 15 países europeus: Áustria, Bulgária, Dinamarca, Estónia, França, Alemanha, Hungria, Itália, Países Baixos, Polónia, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça e Reino Unido.

O trabalho de campo foi realizado online pela Mandate Research e YouGov em Portugal onde foram inquiridas 1.003 pessoas entre 1 e 19 de maio, 4,19

Parceiros O ECFR colaborou neste projeto com a Calouste Gulbenkian Foundation, o International Centre for Defence and Security o Federal Department of Foreign Affairs da Suíça e o Think Tank Europa.

Sobre o ECFR O European Council on Foreign Relations é um think tank pan-europeu premiado. Fundado em outubro de 2007, o seu objetivo é realizar investigação e promover um debate informado em toda a Europa sobre o desenvolvimento de uma política externa europeia coerente e eficaz, baseada em valores. 

O ECFR é uma organização de beneficência independente financiada por diversas fontes.

Mais informações em: www.ecfr.eu/about/


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