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Guerra na Ucrânia
Gigantes da energia da Rússia com envolvimento direto no rapto de crianças ucranianas
As empresas estatais de energia, Gazprom e Rosneft, estão diretamente envolvidas no rapto de crianças ucranianas pela Rússia e subsequente doutrinamento. É o que revela um novo relatório de investigadores da Universidade de Yale.
Os gigantes da energia, através das suas filiais, gerem diretamente alguns dos campos onde as crianças ucranianas são "reeducadas" com o objetivo de destruir a sua identidade ucraniana.
No entanto, a grande maioria das instalações e empresas sobre as quais incidem estas novas revelações, não estão agora sujeitas a sanções americanas ou europeias.
A Gazprom, a companhia petrolífera Rosneft e as suas filiais estiveram envolvidas no rapto e/ou reeducação de pelo menos 2.158 crianças ucranianas entre 2022 e 2025, de acordo com um relatório do Laboratório de Investigação Humanitária (HRL na sigla em inglês) da Universidade de Yale.
Os casos identificados pelos investigadores dizem respeito a crianças das regiões de Donetsk, Luhansk e Zaporizhzhia. Os peritos incluíram apenas os casos que puderam confirmar a 100%, pelo que o número real pode ser significativamente mais elevado. Primeiros indícios do envolvimento da Gazprom e da Rosneft
De acordo com o relatório do HRL, as filiais da Gazprom e da Rosneft ajudaram a organizar a deportação de crianças e a sua colocação em campos patrocinados ou diretamente geridos por estas empresas ou pelos seus sindicatos.
Nestes campos, as crianças são depois sujeitas à propaganda russa e à militarização, a fim de as "reeducar" e destruir a sua identidade ucraniana.🚨 NEW REPORT 🚨 HRL identifies Russian state-owned companies Gazprom and Rosneft involved in transport and indoctrination of 2,158 children from Ukraine since beginning of full-scale invasion. This is the first definitive public proof of the companies' involvement in Russia's… pic.twitter.com/D4FUKi8Ocu
— Humanitarian Research Lab (HRL) at YSPH (@HRL_YaleSPH) March 25, 2026
"A Gazprom e a Rosneft são componentes-chave da campanha do Presidente (Vladimir) Putin de deportação e doutrinação de crianças (ucranianas), que está a assumir proporções industriais", disse à Rádio Europa Livre Nathaniel Raymond, diretor executivo do HRL.
Moscovo apresenta as deportações de crianças ucranianas como ajuda humanitária ou justifica-as com o mau funcionamento dos serviços nas regiões ucranianas que ocupa, acrescenta a estação de rádio.
O relatório é a primeira prova de que a Gazprom e a Rosneft estão a participar nesta campanha sistemática, escrevem os investigadores.Campos na Rússia e na Crimeia "Sabemos que as crianças ucranianas foram levadas para pelo menos seis campos (...) patrocinados pela Gazprom e pela Rosneft (...) ou (...) diretamente pertencentes a subsidiárias da Gazprom", disse à estação de rádio Paige Farrenkopf, responsável pela investigação.
Quatro destas seis instalações estão localizadas na Rússia. O campo Prometheus, na região de Sverdlovsk, nos Urais, e os campos Signal e Kubanskaya Niva, na região de Krasnodar, nos mares Negro e Azov, são propriedade de filiais da Gazprom.
O campo Sputnik, na vizinha região de Rostov, tem um proprietário privado. As crianças ucranianas vão para lá com base na cooperação das filiais da Gazprom com o partido político pró-regime Vsevolod Front.
As restantes duas instalações estão localizadas na Crimeia ucraniana ocupada. Uma delas é o campo Art-Quest, cujo fundador é o vice-diretor do complexo Artek da Crimeia, para onde a Rússia também envia um grande número de crianças ucranianas raptadas.
O segundo é o Campo de Convalescença para Crianças A.V. Kazakevich, que é oficialmente propriedade de uma empresa estrangeira registada em Chipre e onde, segundo o HRL, a Rosneft organizou a transferência das crianças ucranianas raptadas.
Gazprom e Rosneft ajudadas pelo abrandamento das sanções dos EUA
O relatório do HRL salienta ainda que, das 44 entidades afetadas pelas descobertas - os campos, as filiais da Gazprom e da Rosneft, os sindicatos e os executivos de alto nível - 80% não estão agora sujeitas a sanções americanas ou europeias.
Apenas seis das entidades apontadas estão sujeitas a sanções europeias e norte-americanas, enquanto o estatuto sancionatório das outras três não é claro.
Os dois gigantes russos do setor da energia são ainda favorecidos pelo recente levantamento das sanções sobre o petróleo russo transportado por via marítima.
As medidas, que estão em vigor até 11 de abril, foram impostas pelos EUA devido ao aumento dos preços do petróleo, que se tornaram mais caros devido à guerra israelo-americana contra o Irão, que bloqueou o Estreito de Ormuz em resposta.
A maior parte do dinheiro que Moscovo receberá com o alívio das sanções vai para a Gazprom, cuja subsidiária Gazprom Neft está envolvida no processamento de petróleo, e para a Rosneft, informa o HRL.
Uma análise da Universidade de Stanford também destaca o problema. "As vendas de petróleo e de produtos petrolíferos permitidas por esta medida beneficiarão a Rosneft e a Gazprom, que a HRL diz serem cúmplices de crimes de guerra relacionados com a deslocação forçada de crianças ucranianas", diz o documento.
"A política externa dos Estados Unidos (...) coloca dólares diretamente nos bolsos de duas empresas russas envolvidas na deslocação forçada e na reeducação de crianças ucranianas", disse à Rádio Europa Livre Ruth Gibson, autora da análise.
Petra Hosenseidlová / 9 abril 2026 05:00 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP