Moçambique. Graça Machel diz que não se pode "fazer de conta não aconteceu nada" sobre duplo homicídio

Moçambique. Graça Machel diz que não se pode "fazer de conta não aconteceu nada" sobre duplo homicídio

A ativista social moçambicana Graça Machel, viúva do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, afirmou este sábado que não se pode "fazer de conta que não aconteceu nada" ao referir-se ao duplo homicídio de apoiantes do candidato presidencial Venâncio Mondlane.

Lusa /

"Nós não podíamos aqui, neste ato público, fazer de conta que não aconteceu nada. Aconteceu sim, e toca-nos a nós, aquelas pessoas que nunca vão passar um 19 de outubro em plena alegria", afirmou Graça Machel, numa cerimónia, em Maputo, em que se recordava o 38.º aniversário da morte de Samora Machel (29 de setembro de 1933 -- 19 de outubro de 1986).

"Acontece que a partir de agora, não é, temos mais duas famílias que vão chorar connosco. E vão chorar connosco, nós não sabemos ainda as razões, mas uma perda é uma perda. E a perda é igual", acrescentou Graça Machel, uma das figuras influentes na sociedade moçambicana.

A polícia moçambicana confirmou hoje que a viatura em que seguiam Elvino Dias, advogado do candidato presidencial Venâncio Mondlane, e Paulo Guambe, mandatário do Podemos, partido que o apoia, mortos a tiro, foi "emboscada" e um terceiro ocupante ferido.

O crime aconteceu cerca das 23:20 locais (menos uma hora em Lisboa) de sexta-feira, na avenida Joaquim Chissano, centro da capital, e segundo a polícia um outro ocupante, uma mulher que seguia nos bancos traseiros da viatura, foi igualmente atingida a tiro, tendo sido transportada ao Hospital Central de Maputo.

O advogado Elvino Dias, conhecido defensor de casos de direitos humanos em Moçambique, era assessor jurídico de Venâncio Mondlane e da Coligação Aliança Democrática (CAD), formação política que apoiou inicialmente aquele candidato a Presidente da República de Moçambique, até a sua inscrição para as eleições gerais de 09 de outubro ter sido rejeitada pela Comissão Nacional de Eleições (CNE).

Venâncio Mondlane viria depois a ser apoiado na sua candidatura pelo partido Povo Otimista para o Desenvolvimento de Moçambique (Podemos), cujo mandatário nacional das listas às legislativas e provinciais, Paulo Guambe, também seguia na viatura alvo do crime.

As eleições gerais de 09 de outubro incluíram as sétimas presidenciais - às quais já não concorreu o atual chefe de Estado, Filipe Nyusi, que atingiu o limite de dois mandatos - em simultâneo com as sétimas legislativas e quartas para assembleias e governadores provinciais.

A CNE tem 15 dias, após o fecho das urnas, para anunciar os resultados oficiais das eleições, data que se cumpre em 24 de outubro, cabendo depois ao Conselho Constitucional a proclamação dos resultados, depois de concluída a análise, também, de eventuais recursos, mas sem um prazo definido para esse efeito.

As comissões distritais e provinciais de eleições já concluíram o apuramento da votação das eleições gerais de 09 de outubro, que segundo os anúncios públicos dão vantagem à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, partido no poder) e ao candidato presidencial que o partido apoia, Daniel Chapo, com mais de 60% dos votos, embora o candidato presidencial Venâncio Mondlane conteste esses resultados, alegando com os dados das atas e editais originais da votação, que recolhe em todo o país.

Venâncio Mondlane garantiu na quinta-feira, na Beira, centro de Moçambique, que após o anúncio dos resultados das eleições gerais vai recorrer ao Conselho Constitucional, com as atas e editais originais da votação.

O Governo português, a União Europeia e as representações diplomáticas em Maputo dos Estados Unidos da América, Canadá, Noruega, Suíça e do Reino Unido condenaram estes assassínios, por entre apelos a uma investigação cabal e rápida.

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