Acordos de Bicesse garantiram unidade do Estado angolano diz Durão Barroso

Acordos de Bicesse garantiram unidade do Estado angolano diz Durão Barroso

O ex-primeiro ministro português Durão Barroso disse hoje, em Luanda, que houve potências que pretendiam dividir Angola na década de 90, realçando que os Acordos de Bicesse garantiram a unidade do Estado angolano, "apesar de todos os problemas".

Lusa /
RTP

"Apesar de todos os problemas, e foram grandes, a verdade é que se garantiu com [os Acordos de] Bicesse a unidade do Estado angolano, garantir que houvesse as primeiras eleições livres e consideradas justas pelas Nações Unidas, a unidade das Forças Armadas Angolanas (FAA)", disse hoje aos jornalistas, Durão Barroso, à saída de uma audiência com o Presidente angolano, João Lourenço.

Em Luanda, para as comemorações dos 35 anos da assinatura dos Acordos de Bicesse - acordo de cessar-fogo assinado em Estoril em 01 de maio de 1991 entre o Governo de Angola e a UNITA (oposição) sob mediação de Portugal -, Barroso manifestou "grande prazer" por voltar a visitar Angola.

Durão Barroso, à data secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Portugal, foi o principal mediador dos Acordos de Bicesse, que permitiram a realização das primeiras eleições multipartidárias em Angola em setembro de 1992.

As comemorações em Luanda acontecem na terça-feira com o lançamento do livro "Bicesse, o Caminho da Paz", coordenado por Sónia Neto e lançado em novembro último em Lisboa.

A obra reúne 22 depoimentos de intervenientes na longa ronda de negociações para a paz em Angola.

"Pessoas que contribuíram para a paz em Angola, do lado do Governo angolano, do lado da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) mas também do lado de Portugal, muitos deles escreveram artigos para esse livro, que é um livro interessante, é um registo histórico para quem no futuro quiser conhecer a História de Angola e como foi possível chegar a paz e eleições livres neste país", frisou Durão Barroso.

Recordando o longo percurso negocial, na altura com pouco mais de 30 anos, o ex-governante português e atual presidente do conselho de administração da Aliança Global das Vacinas (GAVI), assinalou que foram dois anos muito importantes da sua vida em que esteve "a tentar ajudar o processo de paz em Angola".

"Aí no livro, por exemplo, eu conto a primeira reunião em que o Presidente José Eduardo dos Santos (um dos signatários do acordo com Jonas Savimbi (UNITA)) pediu-me para fazer um encontro secreto com o presidente da UNITA, em 20 de março de 1990 em Windhoek (...) e depois começaram as conversações", disse.

Durão Barroso lamentou os incidentes registados, após a assinatura do acordo: "Infelizmente os resultados das eleições não foram respeitados, a guerra voltou".

Mas, acrescentou, "aquilo que foi negociado em Bicesse foi a unidade do Estado angolano em primeiro lugar", porque "houve quem na altura dissesse que se haveria de dividir Angola, puseram planos à minha frente com mapas a dividir Angola, algumas potências, nós Portugal dissemos não (...)", vincou.

Destacou igualmente o facto de Angola ter alcançado a "consolidação do Estado em paz", após a guerra civil que se prolongou até 2002, manifestando-se "orgulhoso" pelo contributo de Portugal e o seu, "de tantas e tantas horas de trabalho" entre as suas delegações.

Lembrou-se ainda "com saudade" de Fernando da Piedade Dias dos Santos "Nandó" (que morreu em dezembro de 2025) -- que liderou a delegação do MPLA em várias negociações de paz -- referindo que as comemorações vão também homenagear os "protagonistas de Bicesse" já falecidos.

Na audiência com João Lourenço, a quem Durão Barroso ofereceu um exemplar do livro "Bicesse, o Caminho da Paz", estiveram em abordagem vários assuntos, nomeadamente o atual contexto de Angola e o cenário geopolítico internacional.

"Agradeço por me descrever dos desenvolvimentos em Angola e o contexto geopolítico mundial tal como ele [o Presidente angolano] vê, que têm um impacto enorme na economia angolana, nomeadamente no capítulo da energia, capítulo esse em que Angola é um ator relevante não só na região, mas no mundo, falámos também dos principais desafios da situação angolana", concluiu o presidente da GAVI.


 

Tópicos
PUB