Adesão da Rússia à UE nunca foi opção política real, defende ex-PM russo

Adesão da Rússia à UE nunca foi opção política real, defende ex-PM russo

Yegor Gaidar, ex-primeiro-ministro da era Ieltsin, defendeu hoje em Lisboa que a adesão da Rússia à União Europeia nunca foi uma opção política seriamente encarada.

Agência LUSA /

Numa intervenção, na conferência a decorrer na Fundação Gulbenkian, sobre os desafios estratégicos de desenvolvimento político e económico que se colocam à Rússia, enquanto vizinha da UE, Gaidar afirmou que, apesar de, geograficamente, a Europa ter duas fronteiras - o oceano Atlântico e a fronteira oriental russa -, "o que é facto é que a Rússia é demasiado grande" para ser integrada na UE.

"Não somos, nem seremos, um membro do clube, somos vizinhos.

Então, temos de estabelecer uma boa relação de vizinhança, de parceria", sublinhou o ex-primeiro-ministro russo, autor de reformas estruturais na Rússia após o desmembramento da União Soviética.

Para o actual director do Instituto para a Economia em Transição russo, o desenvolvimento do país coloca desafios de dimensões consideráveis, já que não conta com os incentivos de que os países da Europa de leste, que aderiram recentemente à UE, usufruíram.

"A adesão potencial ajudou os actuais novos membros da União a promover reformas profundas e a afastar medidas como, por exemplo, a inclusão da pena de morte", que chegou a ser considerada num deles, que não nomeou.

"Esses países puderam +importar+ a estabilidade decorrente de instituições democráticas", sustentou, acrescentando que a capacidade da UE para influenciar a Rússia é menor, "porque ninguém pode impor regras na casa do vizinho".

Enumerando problemas importantes como a corrupção, o terrorismo, e várias conflitos territoriais herdados da União Soviética e de difícil resolução - como o da república separatista da Tchetchénia -, o actual deputado da Duma russa (câmara baixa do Parlamento), declarou que a posição da UE não será importante para solucioná-los, "não mais do que para resolver, por exemplo, a questão do Tibete".

Segundo Yegor Gaidar, as relações de trabalho entre vizinhos como a UE e a Rússia têm de ser diferentes, porque não há imposição de regras, como se verificou nos Estados que aderiram, que tiveram de cumprir determinados requisitos "para pertencer à família, ao clube".

Depois de citar Bismarck - que dizia que "a Rússia nunca foi tão forte como parecia" - e de acrescentar que ela "também não é tão fraca como parece", Gaidar sublinhou que a União Europeia é um parceiro muito importante para a Rússia e que esta é também muito importante para a UE, porque apesar de ter problemas e fragilidades, tem também aspectos positivos.

A Rússia tem uma economia em crescimento dinâmico há seis anos, operou uma reforma fiscal, procedeu a mudanças importantes na legislação relacionada com propriedade privada e outras matérias, tem mão-de-obra qualificada e captou investimento, apontou o economista russo.

De acordo com Gaidar, existe uma unanimidade quanto ao facto de que a Rússia será "uma economia de mercado para sempre".

"Nunca se poderá lançar a ideia de que iremos reconstruir o socialismo", indicou, acrescentando que, no entanto, "não existe esse consenso em relação à democracia".

"Não temos uma tradição democrática. Temos de fazer essa construção da Rússia como uma democracia jovem - que ainda não está operacional - de uma forma lenta, porque ninguém pode impor ao país uma democracia em funcionamento", defendeu.

A solução passará, na sua opinião, por a União Europeia adoptar em relação à Rússia uma política que não preveja a sua integração, "porque esta não é possível", mas que consiga gerir o que de positivo o país possa trazer à Europa.

"A Rússia pode trazer coisas positivas à Europa, mas também pode ser problemática, sendo que o seu isolamento não faz parte da solução, faz parte do problema", concluiu.

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