Advogados duvidam que regime responsabilize culpados pela explosão
Dois advogados da Guiné Equatorial ouvidos pela Lusa duvidam que a justiça apure os verdadeiros responsáveis pela explosão num quartel da cidade de Bata, porque iria expor a negligência das forças militares, o principal suporte do Governo.
"É um quartel no meio da cidade, com toneladas de equipamento que está armazenado sem que se saibam as condições. Acha que eles vão querer investigar devidamente?", questionou, em declarações à Lusa, um dos advogados, residente em Bata, que ouviu a forte explosão no domingo, que destruiu o aquartelamento e várias casas vizinhas.
Até ao momento, as autoridades admitem que os mortos atingem a centena, mas este advogado, que pediu para não ser identificado por motivos de segurança, acredita que sejam mais.
"Ainda há muitos escombros e casas derrubadas. E não sabemos como está dentro do perímetro", acrescentou.
A explosão, cuja origem ainda não foi explicada pelas autoridades, verificou-se dentro dos muros do quartel e não existia nenhuma queima nas quintas vizinhas, adiantou.
"A origem é lá dentro, não tem origem civil, tem origem nos militares. É uma negligência muito grave", afirmou o causídico.
Outra advogada contactada telefonicamente pela Lusa a partir de Lisboa, que também pediu o anonimato, disse que "há uma série de gente que perdeu as casas", mas "ninguém falou com elas", porque o governo "só está preocupado com os militares".
A Guiné Equatorial é um país muito fechado e é governado desde o final da década de 1979 por Teodoro Obiang Nguema, que conquistou o poder após um golpe de Estado, e que é acusado de várias violações dos direitos humanos.
Com uma economia assente no petróleo -- é o maior extrator do Golfo da Guiné --, o pequeno país tem um dos rendimentos per capita mais elevados do mundo, mas várias organizações e relatórios internacionais apontam a existência de grandes franjas de pobreza no país.
A ambiciosa política de obras públicas ficou suspensa desde há dois anos após a queda dos preços do petróleo e a diminuição da produção, o que levou a uma crise económica acentuada.
"Não faz sentido que um quartel, com armas daquele calibre, fique tão perto do centro de uma cidade", explicou o advogado.
Este é um exemplo da forte militarização do país, com quartéis e um exército sobredimensionado, com equipamento de última geração. A aposta do reforço dos meios militares foi concretizada por Obiang após uma tentativa de golpe de Estado em meados da década de 1990.
O causídico disse estar disponível para receber queixas de civis de modo a iniciar um processo judicial nos tribunais, mas não acredita que "alguém tenha coragem de fazer isso".
"As pessoas têm medo e vão receber o que o governo lhes der para não fazerem nada" que "coloque em causa os militares", explicou.
Na sequência das explosões, consideradas acidentais, o chefe de Estado, Teodoro Obiang, lançou um apelo à comunidade internacional para que ajude a Guiné Equatorial, que integra a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Num comunicado no domingo, o Presidente disse que o acidente tinha sido causado "pela negligência e descuido" da unidade responsável pela proteção dos depósitos de dinamite e explosivos anexos ao paiol de munições do quartel militar de Nkuatama, localizado numa zona residencial de Bata.
Os depósitos de dinamite ter-se-ão incendiado devido a queimadas que estariam a ser realizadas por agricultores em quintas nas proximidades e que provocaram a explosão, segundo a versão do chefe de Estado.
Obiang prometeu que os responsáveis serão investigados e punidos, assinalando a devastação que as explosões vão custar ao país, com perdas humanas, económicas e materiais significativas.