África "é rica em tudo, exceto em poder de negociação" diz PR do Ruanda
O Presidente do Ruanda, Paul Kagame, considerou hoje que o continente africano "é rico em tudo, exceto em poder de negociação" com os países mais ricos que procuram explorar os vastos recursos naturais dos países africanos.
"É uma situação em que as potências dominantes têm um chicote nas mãos, usando um bastão para espancar quem quer que queiram espancar, nem sequer o escondem, é algo que está à vista de todos", afirmou Kagame durante uma entrevista na abertura do Fórum Africa CEO, que decorre hoje em Kigali, a capital do Ruanda.
Citado pela revista Africa Report, o chefe de Estado do Ruanda disse que África "é rica em tudo, exceto em poder de negociação", e acrescentou que "essas potências que vêm dar lições às pessoas sobre democracia e direitos humanos fazem-no com uma mão e, com a outra, estão simplesmente a tirar tudo o que as pessoas possuem", no que a revista diz ser uma referência clara aos Estados Unidos.
Durante a entrevista de abertura do fórum, feita perante uma plateia de 2.800 pessoas, incluindo os Presidentes da Nigéria, Gabão, Guiné, Mauritânia e Moçambique, Kagame vincou a opinião de que os países mais ricos continuam a ter um espírito colonialista, usando África para recolher matérias-primas em vez de olharem para os países como parceiros em pé de igualdade.
Kagame elogiou os países africanos, como a Zâmbia, o Gana e o Zimbabué, que rejeitaram acordos bilaterais com os Estados Unidos sobre o acesso a dados de saúde dos cidadãos para estudos epidemiológicos e sobre a utilização dos recursos naturais.
"Não é assim tão difícil dizer não; na verdade, custa-vos menos do que dizer sim à coisa errada", defendeu.
As declarações de Kagame surgem semanas depois de o Governo dos Estados Unidos, que não participa no fórum deste ano, ter aplicado sanções às forças armadas do Ruanda devido ao envolvimento nos conflitos na República Democrática do Congo, país que sextuplicou as exportações de cobre para os Estados Unidos no ano passado.
"Por vezes, as sanções são aplicadas apenas no caso de quem fornece menos do que o outro", afirmou Kagame, concluindo: "Se [os EUA] souberem que vão extrair mais de um determinado local, serão mais favoráveis a esse local, mesmo que sejam eles que estão errados".
O fórum deste ano, com o tema "O imperativo da escala: por que razão África deve abraçar a propriedade partilhada", foi oficialmente inaugurado pelo fundador, Amir Ben Yahmed, que defendeu uma união dos governos africanos perante as sucessivas crises externas e a necessidade de ganhar escala.
"Começou com as alterações climáticas -- de repente, nós, como africanos, não conseguimos financiar os nossos projetos de petróleo e gás, e depois a covid-19, depois a Ucrânia e a guerra no Irão e, em todas as ocasiões, África paga o preço", afirmou, concluindo: "Temos agora duas opções: ou continuamos a pagar o preço das crises alheias, ou decidimos construir a escala de que precisamos para ter influência".
O Fórum deste ano é organizado em conjunto pela Corporação Financeira Internacional (IFC), que canalizou 14,2 mil milhões de dólares [12,1 mil milhões de euros] para África no passado, aos quais se juntam mais 6,2 mil milhões de dólares [5,3 mil milhões de euros] de investidores.
"Este é o modelo que devemos usar para ganhar escala: não afastar o capital privado, mas sim chamá-lo a jogo; África não precisa do mundo para investir nela; África precisa que o mundo invista em conjunto com o continente", disse o diretor executivo da IFC, Makhtar Diop.