"Albânia não está à venda": Prossegue contestação contra complexos turísticos do genro de Trump

"Albânia não está à venda": Prossegue contestação contra complexos turísticos do genro de Trump

Centenas de milhares de pessoas participam nas maiores manifestações dos últimos anos na Albânia. Exigem a suspensão dos projetos de desenvolvimento de Kushner na costa sul do país.

Um Olhar Europeu com Suspilne /
Adnan Beci / AFP

Desde o final de maio de 2026 que os habitantes de Tirana, a capital da Albânia, saem às ruas todos os dias para protestar. Centenas de milhares de pessoas, reunidas sob o lema "A Albânia não está à venda", estão a participar nas maiores manifestações dos últimos anos. 

Exigem a suspensão dos projetos de desenvolvimento nas áreas protegidas da costa sul do país. É aí, na única zona da Albânia onde os flamingos nidificam, que o genro de Donald Trump, Jared Kushner, planeia construir um hotel de luxo.

Aos poucos, as manifestações contra o projeto de desenvolvimento transformaram-se em protestos contra um dos seus defensores — o primeiro-ministro Edi Rama. Tem havido inúmeras queixas contra o líder do executivo, que lidera o governo da Albânia há 16 anos.

A Suspilne investigou por que razão este projeto de construção específico desencadeou uma onda de protestos tão intensa neste país balcânico empobrecido, por que razão as autoridades se aliaram aos investidores e quais são as queixas dos manifestantes contra o primeiro-ministro.O que contestam os albaneses
"Um dia acordámos — e descobrimos que parte da Albânia tinha simplesmente sido tomada. Sem qualquer transparência. Sem uma avaliação de impacto ambiental. Sem consultar a comunidade. Ninguém sabia de nada", afirma Ilir Brasa, economista e analista político albanês, à Suspilne. Todos os dias, Ilir junta-se aos protestos ao lado de milhares de compatriotas. Em Tirana, reúnem-se na Praça Skanderbeg, de onde marcham até ao parlamento. 

Para além de Edi Rama, o líder do Partido Democrático da oposição, Sali Berisha, também tem sido alvo de críticas por parte dos manifestantes. O escândalo está a afetar os principais líderes políticos do país.

No centro da controvérsia estão os planos para construir várias instalações no sul da Albânia, tanto no continente como numa ilha do mar Adriático. Os investidores estrangeiros estão dispostos a investir milhares de milhões de euros no projeto.

Os investidores são mundialmente conhecidos: trata-se de Ivanka, filha do presidente dos EUA, Donald Trump, e do seu genro, Jared Kushner. Na Ilha de Sazan, a maior e atualmente praticamente desabitada, a empresa de Kushner, a Atlantic Incubation Partners, planeia construir um resort ecológico sob a marca Aman

Estima-se que o projeto tenha um custo de 1,4 mil milhões de euros. A marca em questão pertence a Vladislav Doronin, um empresário de origem russa que deixou a Rússia antes do colapso da URSS e que agora possui cidadania britânica.

O segundo local é um trecho de costa na aldeia de Zvernets, em frente à ilha. Os terrenos foram adquiridos pela Albania Land Development, uma empresa detida pelos irmãos do Catar Mutaz Al-Hayat e Ramez Al-Hayat que são coinvestidores na empresa de Kushner.

O custo total destes projetos poderá atingir os 5 mil milhões de euros. Segundo a agência Reuters, o complexo turístico envolve a construção de cerca de dez mil quartos de hotel, bem como moradias.

O empreendimento em Zvernets está projetado para ser construído dentro do Parque Nacional Vjosa-Narta, o que provocou uma onda de indignação. Estas zonas húmidas abrigam mais de 200 espécies de aves migratórias, incluindo flamingos e pelicanos. Também ali vivem focas-monge do Mediterrâneo e tartarugas marinhas. O grupo de conservação animal PPNEA Bird Life Albania salienta que este é o único local no país onde os flamingos nidificam. 

Todos os anos, até sete mil destas aves sobrevoam o parque. O empreendimento, afirmam, poderá pôr tudo isto em risco. É por isso que o movimento de protesto foi batizado de "Revolução dos Flamingos".

Os protestos começaram a intensificar-se depois de um troço da costa em Zvernets ter sido inesperadamente vedado e colocado sob vigilância. Chegaram mesmo a ocorrer confrontos entre manifestantes e os seguranças privados do estaleiro. Imagens do local mostraram um segurança a agredir um manifestante e a arrastá-lo para fora da praia vedada.

A barreira foi removida e a polícia iniciou uma investigação interna sobre a gestão da esquadra local em Vlora, tendo detido um dos guardas que foi acusado de detenção ilegal e de causar lesões corporais leves.

O primeiro-ministro albanês, Edi Rama, descreveu as ações dos seguranças como "vergonhosas", mas voltou a manifestar o seu apoio ao projeto. Nas palavras do governante, trata-se do "bilhete do país para a 'Liga dos Campeões' do turismo mundial".

No entanto, não se trata apenas de cercas e máquinas de construção nas áreas onde vivem os flamingos. Arestina Skenderi, uma das manifestantes, disse à Suspilne que o processo de desenvolvimento pouco transparente foi, inicialmente, o que desencadeou os protestos. A causa principal, porém, reside agora na insatisfação sentida por muitas pessoas em relação à crise na educação e nos cuidados de saúde.

"Há anos que os cidadãos protestam contra a corrupção sistémica no governo. A educação encontra-se num estado de abandono, o sistema de saúde está em crise e até os medicamentos mais essenciais para doenças graves, como o cancro, estão frequentemente indisponíveis", afirma Arestina. "As pessoas sentem que o sistema as abandonou".

Skenderi trabalha como jornalista no canal de notícias A2 CNN. Atualmente, está à espera do segundo filho. No entanto, encontra forças para participar nos protestos todos os dias. "Não estou sozinha", afirma. "Milhares de mulheres encontram-se na mesma situação: mulheres grávidas, mães de crianças pequenas, famílias jovens, intelectuais e cidadãos comuns".

Os protestos já se espalharam por várias cidades da Albânia. De acordo com estimativas preliminares, pelo menos 150 mil pessoas saíram às ruas em todo o país nas duas primeiras semanas — de uma população total de cerca de 2,5 milhões de habitantes. Também se realizaram manifestações em Itália, França, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e Grécia. Os albaneses que vivem no estrangeiro participaram nessas manifestações.Quais são os fundamentos jurídicos para o desenvolvimento dos projetos turísticos? A base jurídica para o empreendimento foi estabelecida por uma lei aprovada pelo Parlamento em fevereiro de 2024. A lei permite a construção de hotéis de cinco estrelas em qualquer parte do país, incluindo em áreas naturais protegidas. O projeto do complexo turístico não foi submetido a uma avaliação de impacto ambiental.

Nesse mesmo ano, Jared Kushner anunciou oficialmente planos para construir um complexo turístico no âmbito de um programa de investimento mais vasto nos países dos Balcãs. Este incluía um projeto para construir um hotel no local de um edifício que tinha pertencido ao Estado-Maior do Exército Jugoslavo, em Belgrado. No entanto, no ano passado, Kushner abandonou o projeto sérvio. O motivo foi o mesmo: protestos de rua contra o hotel.

Para além dos riscos ambientais, os manifestantes na Albânia também estão a chamar a atenção para a falta de transparência em torno da implementação deste e de outros projetos semelhantes

Opõem-se à transferência de terrenos para investidores estrangeiros sem consulta pública. Exigem que o projeto seja cancelado e que a legislação que rege o investimento estrangeiro seja alterada. "Tem havido uma total falta de transparência desde o início deste projeto até aos dias de hoje", salienta Alexander Traitse, diretor executivo da organização ambiental PPNEA.

«Não somos contra o investimento. Somos a favor do desenvolvimento. Mas Vjosa-Narta é uma reserva natural», argumenta Ilir Brasa, um dos manifestantes, em declarações à Suspilne. "Se for construído aqui um complexo turístico, os flamingos e as tartarugas podem simplesmente desaparecer".

A Procuradoria Anticorrupção (SPAK) já está a investigar se ocorreram violações durante a celebração de acordos de investimento relativos a projetos de desenvolvimento em áreas protegidas. Em junho, as autoridades policiais congelaram as contas de uma empresa do Catar envolvida no caso. O montante em questão era de 195 milhões de dólares. No entanto, as restrições foram levantadas alguns dias depois — para evitar um processo de arbitragem internacional, que os empresários do Catar tinham planeado intentar.

A Suspilne enviou um pedido oficial à SPAK mas não recebeu qualquer resposta.

Os promotores imobiliários insistem que estão a cumprir todos os regulamentos. "Continuamos empenhados numa gestão responsável, na melhoria do ambiente e na criação de emprego", afirmou Asher Abegser, presidente da Sazan Real Estate Development LLC, empresa que está a realizar o projeto em parceria com a empresa de Kushner.

No entanto, os manifestantes estão agora a centrar-se menos nos responsáveis pela execução do projeto e mais naqueles que o autorizaram e apoiam. Em particular, os dirigentes do país.O que dizem as autoridades e a União Europeia
O primeiro-ministro Edi Rama rejeita todas as acusações. Alega que a dimensão do caso está a ser exagerada e que os protestos têm motivações políticas. Entre as possíveis causas do descontentamento, apontou a influência externa, particularmente do Irão — afinal, as autoridades albanesas concederam asilo a alguns dissidentes iranianos. Em Teerão, nega-se qualquer envolvimento nos protestos.

"A razão pela qual o mundo inteiro está tão agitado com isto é Donald Trump", afirma o primeiro-ministro. "Não creio que os flamingos na Albânia tivessem causado tanto alvoroço se não houvesse uma oportunidade para criticar Trump. Mas isto não tem nada a ver com ele. Quando Kushner e Ivanka Trump vieram cá, ainda não se sabia ao certo se Donald Trump acabaria na prisão ou regressaria à Casa Branca".

Rama acrescenta que o país necessita urgentemente de investimento direto estrangeiro. "É fundamental que continuemos a ser hospitaleiros e justos — e que, em circunstância alguma, sejamos rotulados como um país onde os investidores são tratados com hostilidade", argumenta.

O governo insiste que o projeto ajudará a transformar a economia do país, a posicioná-lo no mercado do turismo de luxo e até mesmo a aproximá-lo da adesão à União Europeia.

"Nunca houve dúvidas de que isto iria acontecer. É uma bênção para o país», afirmou o primeiro-ministro albanês à Reuters. "Um investimento de quatro mil milhões de euros num país com um PIB de 27 mil milhões de euros fala por si".

No entanto, Bruxelas mostra-se cética em relação à afirmação do primeiro-ministro de que a construção do complexo turístico aproximará o país da União Europeia. A Comissão Europeia já alertou a Albânia de que o empreendimento poderá prejudicar as áreas de conservação da natureza e complicar o caminho do país para a adesão à UE. Bruxelas apelou a uma revisão das alterações à lei sobre áreas protegidas.Um protesto em vez de um café Os manifestantes afirmaram à Suspilne que as manifestações vão continuar até verem mudanças concretas. A principal exigência neste momento é a demissão do primeiro-ministro e do líder do Partido Democrático, da oposição, Sali Berisha.

"Preferia estar em casa, a fazer o meu trabalho, ou até mesmo a tomar um café com amigos", admite Ilir Brasa. "Mas decidi estar aqui porque é o meu dever para com o nosso país".

No terreno, os protestos são, em grande parte, espontâneos; nenhum partido político ou instituição os está a organizar. Os manifestantes coordenam-se principalmente através das redes sociais: combinam uma hora e um local e, depois, reúnem-se. Testemunhas dos protestos em Tirana referem que é possível sentir como a cidade está a "tremer com a ira e a frustração da população".

«O que se vê nas ruas é a parte mais ativa e preocupada da população», afirma Arestina. "São pessoas que sentem que já não podem continuar em silêncio". 

Marija Tril / 13 junho 2026 11:43 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa
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