Mundo
Alimentados "como animais" refugiados arriscam-se agora a ser caçados
Depois de alimentarem refugiados como animais num zoológico, de os bombardearem com jactos de água e gás lacrimogéneo, as autoridades húngaras tinham ainda uma humilhação na manga para “deter a massa de pessoas que procuram na Europa um abrigo da guerra e da miséria: o autarca de Asotthalam, uma pequena vila do sul do país ameaça caçar todos aqueles que passem ilegalmente as fronteiras da Hungria.
László Toroczkai é um jovem autarca, líder da extrema-direita húngara, que encarna bem o espírito da Hungria face à crise de refugiados que estão a chegar ao país. Eleito autarca da pequena localidade de Asotthalam pelo Sixty-Four Counties Youth Movement, Toroczkai tem atrás de si um currículo digno de nota: de acordo com a biografia colocada na Wikipedia, em 2004 foi banido da Sérvia por um ano devido a cenas de pancadaria; em 2006 foi banido da Eslováquia por cinco anos por causa de uma série de manifestações.
Esta terça-feira procurou engordar este historial e colocou no Youtube um vídeo de desencorajamento à entrada de refugiados na Hungria.
Depois de se apresentar, László Toroczkai apresentou também os meios de que a região dispõe para evitar a entrada de refugiados e migrantes que procurem na Hungria um corredor para os países ricos da União Europeia.O Governo de Viktor Orban ergueu uma cerca – uma espécie de muro, para já 175 km de arame farpado na fronteira com a Sérvia - que faz lembrar maus exemplos de outras latitudes ou simplesmente remete para as piores memórias da Europa. É com esse muro que Orbán pretende enfrentar a questão migratória, não com a edificação de uma solução concertada entre os 28.
Toroczkai começa por ameaçar com prisão todos aquele que passem a fronteira de forma ilegal, não prestando qualquer esclarecimento quanto à extensão daquele adjectivo.
De facto, as Nações Unidas referem os refugiados como uma condição muito particular, que merece um tratamento sensível e diferenciado de todo e qualquer outro indivíduo estrangeiro.
No entanto, é esta a ameaça que fica no ar, a partir de 15 de setembro, terça-feira passada, portanto, todos estrangeiros em trânsito “apanhados” a atravessar a fronteira serão presos de imediato. Nada refere também o jovem autarca acerca da idade a partir da qual serão detidos.
A sequência de cenas que se segue sugerem que os meios militares, policiais e civis da região serão colocados ao serviço de uma autêntica caçada aos estrangeiros que arrisquem passar a barreira de arame farpado.
"Não acreditem nos passadores ilegais, A Hungria é uma má escolha. Asotthalam é a pior", avisa László Toroczkai.
Arame farpado abre crise com alemães
O arame farpado usado pelo Budapeste para erguer o muro de separação da Sérvia, primeiro, e agora também da Croácia e da Roménia, foi adquirido a empresas alemãs que agora se recusam a continuar a fornecer a matéria-prima das cercas húngaras. “Ver crianças presas no arame é uma vergonha”, apontou um dos fabricantes alemães.
Os fabricantes alemães alegam que o arame farpado pode causar lacerações e, consequentemente, alto risco de infecção, explicando que se destinam primordialmente a prisões e instalações militares.
“O arame farpado está desenhado para impedir actos criminosos […] e crianças e adultos em fuga não são criminosos”, declarou a Mutanox, que tem sede em Berlim.
Polícias tratam refugiados "como animais"
Mas estes não são casos isolados nos procedimentos que a Hungria vem adoptando para lidar com a massa de refugiados e migrantes, trata-se antes de novos capítulos num manual de más práticas que tem merecido o dedo acusatório das Nações Unidas e dos parceiros europeus.
Budapeste já na semana passada ficara mal na fotografia: um vídeo divulgado por um trabalhador humanitário mostrou elementos da polícia húngara a alimentarem os refugiados como animais numa cerca. As imagens foram captadas por um casal de voluntários austríacos que na altura visitavam o campo de refugiados de Roszke, na fronteira com a Sérvia.
As imagens mostram centena e meia de refugiados empilhados uns em cima dos outros a tentar apanhar os sacos com comida que lhes é atirado pelos polícias, protegidos com máscaras faciais.
Alexander Spritzendorfer, o marido, lamentou a actuação dos polícias, assinalando que se comportavam como se estivessem a “alimentar animais numa cerca”.
“Era como ver animais a serem alimentados numa cerca. Era uma Guantánamo na Europa”, explicou Alexander Spritzendorfer, deixando a referência à prisão norte-americana, sobre a qual recai a acusação de torturar os prisioneiros.
O casal viajou desde Viena, capital austríaca, para levar roupa a medicamentos aos refugiados que se encontram encurralados na Hungria, explicou Alexander Spritzendorfer, um vereador do Partido Ecologista.
Terá sido na quarta-feira da semana passada, numa altura em que falava com um trabalhador da Cruz Vermelha, que a sua mulher se afastou e decidiu fazer estas imagens: “Foi inumano e as imagens são um testemunho que abona a favor destas pessoas que, apesar de estarem esfomeadas, não lutaram entre si pela comida”, explicou Michaela Spritzendorfer.
O vídeo surgiu numa altura em que a ACNUR, agência das Nações Unidas para os refugiados, se referira às condições extremas do campo de Roszke. Apesar de tudo, e apesar das críticas de outros membros da União, Budapeste reagiu endurecendo o tratamento contra os refugiados.
Pontapeados por repórter húngara
Uma repórter de imagem húngara também conotada com a extrema-direita desculpou-se pelas imagens que a apanharam a pontapear refugiados. Petra Lazlo, de 40 anos, diz que foi tomada por um ataque de pânico. Nunca chegou, no entanto, a explicar por que pontapeou refugiados em duas situações distintas.O canal N1TV considerou este “comportamento inaceitável”.
Logo depois da divulgação das imagens, a “câmara” foi despedida pelo canal de televisão N1TV, que tem ligações ao partido Jobbik (extrema-direita austríaca).
A polícia de Budapeste acabaria também por interrogar a jornalista, que está acusada de vandalismo. “Sinto muito pelo que se passou. Estou em estado de choque pelo que fiz e pelo que estão a fazer comigo”, declarou numa carta publicada na imprensa local.
Petra Lázló argumentou que na altura em que fazia imagens centenas de refugiados começaram a correr, o que a assustou: “É difícil tomar decisões corretas quando se está em pânico. Não consegui fazê-lo”.
Petra Lazlo foi filmada em duas alturas diferentes. Primeiro, a agredir um homem e a pontapear uma menina que corria; depois, já numa sequência diferente, a pontapear e rasteirar um homem de idade que corria com uma criança ao colo, o que provocou uma queda violenta a ambos.
“Estava em pânico e agora vejo-me nas gravações como se não fosse eu (…) estou arrependida com o que aconteceu [e vou] assumir a responsabilidade”, declara Petra Lazlo, para acrescentar que não merece contudo ser alvo de uma “caça às bruxas política” ou das ameaças de morte que diz ter recebido.
Canhões de água e gás lacrimogéneo
Já esta semana, a fórmula escolhida pelas autoridades de Rozke para lidar com a crise dos refugiados voltou a colocar a cidade húngara nas páginas dos jornais pelas piores razões. A polícia usou canhões de água e gás lacrimogéneo contra os refugiados que procuravam entrar no país a partir da Sérvia.
Uma multidão de refugiados que se amontoava na fronteira, do lado da Sérvia, procurou esta quarta-feira entrar na Hungria pela força. A polícia húngara acabou por usar gás lacrimogéneo e canhões de água, depois de terem sido arremessadas pedras e garrafas. Refugiados e migrantes estão amontoados do lado da Sérvia, depois de a Hungria ter fechado as fronteiras.
Há um arame farpado com três metros e meio de altura que separa os dois países, o que tem provocado reacções de indignação.
Esta terça-feira procurou engordar este historial e colocou no Youtube um vídeo de desencorajamento à entrada de refugiados na Hungria.
Depois de se apresentar, László Toroczkai apresentou também os meios de que a região dispõe para evitar a entrada de refugiados e migrantes que procurem na Hungria um corredor para os países ricos da União Europeia.O Governo de Viktor Orban ergueu uma cerca – uma espécie de muro, para já 175 km de arame farpado na fronteira com a Sérvia - que faz lembrar maus exemplos de outras latitudes ou simplesmente remete para as piores memórias da Europa. É com esse muro que Orbán pretende enfrentar a questão migratória, não com a edificação de uma solução concertada entre os 28.
Toroczkai começa por ameaçar com prisão todos aquele que passem a fronteira de forma ilegal, não prestando qualquer esclarecimento quanto à extensão daquele adjectivo.
De facto, as Nações Unidas referem os refugiados como uma condição muito particular, que merece um tratamento sensível e diferenciado de todo e qualquer outro indivíduo estrangeiro.
No entanto, é esta a ameaça que fica no ar, a partir de 15 de setembro, terça-feira passada, portanto, todos estrangeiros em trânsito “apanhados” a atravessar a fronteira serão presos de imediato. Nada refere também o jovem autarca acerca da idade a partir da qual serão detidos.
A sequência de cenas que se segue sugerem que os meios militares, policiais e civis da região serão colocados ao serviço de uma autêntica caçada aos estrangeiros que arrisquem passar a barreira de arame farpado.
"Não acreditem nos passadores ilegais, A Hungria é uma má escolha. Asotthalam é a pior", avisa László Toroczkai.
Arame farpado abre crise com alemães
O arame farpado usado pelo Budapeste para erguer o muro de separação da Sérvia, primeiro, e agora também da Croácia e da Roménia, foi adquirido a empresas alemãs que agora se recusam a continuar a fornecer a matéria-prima das cercas húngaras. “Ver crianças presas no arame é uma vergonha”, apontou um dos fabricantes alemães.
Os fabricantes alemães alegam que o arame farpado pode causar lacerações e, consequentemente, alto risco de infecção, explicando que se destinam primordialmente a prisões e instalações militares.
“O arame farpado está desenhado para impedir actos criminosos […] e crianças e adultos em fuga não são criminosos”, declarou a Mutanox, que tem sede em Berlim.
Polícias tratam refugiados "como animais"
Mas estes não são casos isolados nos procedimentos que a Hungria vem adoptando para lidar com a massa de refugiados e migrantes, trata-se antes de novos capítulos num manual de más práticas que tem merecido o dedo acusatório das Nações Unidas e dos parceiros europeus.
Budapeste já na semana passada ficara mal na fotografia: um vídeo divulgado por um trabalhador humanitário mostrou elementos da polícia húngara a alimentarem os refugiados como animais numa cerca. As imagens foram captadas por um casal de voluntários austríacos que na altura visitavam o campo de refugiados de Roszke, na fronteira com a Sérvia.
As imagens mostram centena e meia de refugiados empilhados uns em cima dos outros a tentar apanhar os sacos com comida que lhes é atirado pelos polícias, protegidos com máscaras faciais.
Alexander Spritzendorfer, o marido, lamentou a actuação dos polícias, assinalando que se comportavam como se estivessem a “alimentar animais numa cerca”.
“Era como ver animais a serem alimentados numa cerca. Era uma Guantánamo na Europa”, explicou Alexander Spritzendorfer, deixando a referência à prisão norte-americana, sobre a qual recai a acusação de torturar os prisioneiros.
O casal viajou desde Viena, capital austríaca, para levar roupa a medicamentos aos refugiados que se encontram encurralados na Hungria, explicou Alexander Spritzendorfer, um vereador do Partido Ecologista.
Terá sido na quarta-feira da semana passada, numa altura em que falava com um trabalhador da Cruz Vermelha, que a sua mulher se afastou e decidiu fazer estas imagens: “Foi inumano e as imagens são um testemunho que abona a favor destas pessoas que, apesar de estarem esfomeadas, não lutaram entre si pela comida”, explicou Michaela Spritzendorfer.
O vídeo surgiu numa altura em que a ACNUR, agência das Nações Unidas para os refugiados, se referira às condições extremas do campo de Roszke. Apesar de tudo, e apesar das críticas de outros membros da União, Budapeste reagiu endurecendo o tratamento contra os refugiados.
Pontapeados por repórter húngara
Uma repórter de imagem húngara também conotada com a extrema-direita desculpou-se pelas imagens que a apanharam a pontapear refugiados. Petra Lazlo, de 40 anos, diz que foi tomada por um ataque de pânico. Nunca chegou, no entanto, a explicar por que pontapeou refugiados em duas situações distintas.O canal N1TV considerou este “comportamento inaceitável”.
Logo depois da divulgação das imagens, a “câmara” foi despedida pelo canal de televisão N1TV, que tem ligações ao partido Jobbik (extrema-direita austríaca).
A polícia de Budapeste acabaria também por interrogar a jornalista, que está acusada de vandalismo. “Sinto muito pelo que se passou. Estou em estado de choque pelo que fiz e pelo que estão a fazer comigo”, declarou numa carta publicada na imprensa local.
Petra Lázló argumentou que na altura em que fazia imagens centenas de refugiados começaram a correr, o que a assustou: “É difícil tomar decisões corretas quando se está em pânico. Não consegui fazê-lo”.
Petra Lazlo foi filmada em duas alturas diferentes. Primeiro, a agredir um homem e a pontapear uma menina que corria; depois, já numa sequência diferente, a pontapear e rasteirar um homem de idade que corria com uma criança ao colo, o que provocou uma queda violenta a ambos.
“Estava em pânico e agora vejo-me nas gravações como se não fosse eu (…) estou arrependida com o que aconteceu [e vou] assumir a responsabilidade”, declara Petra Lazlo, para acrescentar que não merece contudo ser alvo de uma “caça às bruxas política” ou das ameaças de morte que diz ter recebido.
Canhões de água e gás lacrimogéneo
Já esta semana, a fórmula escolhida pelas autoridades de Rozke para lidar com a crise dos refugiados voltou a colocar a cidade húngara nas páginas dos jornais pelas piores razões. A polícia usou canhões de água e gás lacrimogéneo contra os refugiados que procuravam entrar no país a partir da Sérvia.
Uma multidão de refugiados que se amontoava na fronteira, do lado da Sérvia, procurou esta quarta-feira entrar na Hungria pela força. A polícia húngara acabou por usar gás lacrimogéneo e canhões de água, depois de terem sido arremessadas pedras e garrafas. Refugiados e migrantes estão amontoados do lado da Sérvia, depois de a Hungria ter fechado as fronteiras.
Há um arame farpado com três metros e meio de altura que separa os dois países, o que tem provocado reacções de indignação.