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António Guterres: o candidato mais aplaudido nas Nações Unidas

António Guterres: o candidato mais aplaudido nas Nações Unidas

Pela primeira vez em 70 anos de história, a ONU faz a seleção do próximo secretário-geral da ONU com mecanismos que permitem uma auscultação dos Estados-membros, audições aos candidatos e mobilização da opinião pública, num processo inédito. Esta terça-feira à noite, dez dos doze candidatos defenderam a sua candidatura, em Nova Iorque, numa estrutura obrigada a adaptar-se a novos desafios internacionais. António Guterres foi o candidato mais aplaudido, num debate transmitido para todo o mundo pela televisão Al-Jazeera. O antigo primeiro-ministro português defendeu que o mundo precisa de liderança e valores, prometeu paridade de género nas nomeações da ONU e ainda defendeu uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Sandra Salvado - RTP /
Mike Segar - Reuters

Sofrimento humano em zonas de conflito, extremismo violento, discriminação contra as mulheres, aumento da xenofobia, mais de 800 milhões de pessoas que lutam contra a pobreza extrema, cerca de 60 milhões de deslocados em todo o mundo, resposta às alterações climáticas e desenvolvimento sustentável - são alguns dos dossiers que o próximo secretário-geral da ONU assumirá.

O mundo “precisa urgentemente de liderança de valores”. Na sua declaração inicial, António Guterres disse que o próximo secretário-geral da ONU tem de ser "sólido", um "símbolo de unidade" e que "precisa saber combater, e derrotar o populismo político, o racismo e a xenofobia."

António Guterres defendeu neste primeiro debate inédito entre candidatos a secretário-geral da ONU, que o mundo "precisa urgentemente de liderança e valores".

"Com a mudança climática e o aumento da população, o mundo está a ficar mais pequeno e os recursos mais escassos", pelo que é necessário enfrentar esses desafios, referiu o candidato português, o mais aplaudido da noite.

Ricardo Alexandre, António Nunes - RTP

Os primeiros aplausos surgiram quando elogiou o atual secretário-geral, Ban Ki-moon, ao dizer que não o pretendia criticar e que o sul-coreano tinha feito "um trabalho fantástico" ao longo dos seus mandatos.

"Precisamos traduzir as muitas iniciativas que temos e atividades que desenvolvemos para uma linguagem que as pessoas de todo o mundo percebam", disse ainda, em resposta a uma pergunta sobre como vai comunicar o trabalho da ONU. E acrescentou: "Mas uma liderança não é apenas uma questão de comunicação. É sobre substância”.
Justiça penal internacional
Em todo o debate, o antigo primeiro-ministro português foi o único a falar noutra língua que não o inglês. Em francês, Guterres afirmou acreditar que o Tribunal Criminal Internacional é um “passo extremamente importante para o desenvolvimento de uma justiça penal internacional”.

Ao contrário do que acontecia no passado, em que estas sessões decorriam à porta fechada, os debates serão transmitidos em direto para todo o mundo, pela televisão Al-Jazeera, “a bem da transparência”, como fez questão de referir o presidente da Assembleia Geral, o dinamarquês Mogens Lykketotf.
No debate com dez dos 12 candidatos, já que dois não puderam estar presentes, os grupos foram divididos em dois. António Guterres fez parte do primeiro grupo, no qual participaramm ainda Vesna Pusic, da Cróacia, Susana Malcorra, da Argentina, Vuk Jeremic, da Sérvia e Natalia Gherman, da Moldávia.

No segundo grupo participaram Helen Clark, da Nova Zelândia, Danilo Turk, da Eslovénia, Christiana Figueres, da Costa Rica, Igor Luksic, de Montenegro e Irina Bokova, da Bulgária.
Reforma do Conselho de Segurança
Tal como já tinha afirmado, António Guterres apoia a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. "Diria o mesmo que disse Kofi Annan: nenhuma reforma da ONU está completa sem uma reforma do Conselho de Segurança”.

O candidato português, disse que o Conselho de Segurança tem problemas de representatividade da comunidade internacional, por não ter, por exemplo, membros permanentes oriundos da América Latina ou África.

"Mas isto só será possível se os países membros assim o quiserem e se criarem o consenso necessário para que essa reforma aconteça (…) Irei apoiar, mas de nenhuma forma irei substituir os países membros neste assunto, assim como em muitos outros”, explicou Guterres.

O antigo primeiro-ministro português considerou ainda que "tem de haver um contínuo, com as mesmas prioridades e as mesmas estratégias" durante todas as fases em que a ONU lida com conflitos, o que não acontece neste momento.

António Guterres lembrou que a questão não é fácil e que "existe um debate na comunidade internacional porque muitos acreditam que existe o risco de interferir na soberania internacional (…) É aqui que o secretário-geral pode intervir, de forma humilde, para criar pontes entre os vários participantes, e fazer entender que existe uma forma da prevenção de conflitos ter resultados e reduzir o sofrimento humano".
Paridade entre géneros
António Guterres garantiu ainda que se for eleito irá existir paridade entre géneros nas nomeações da organização. "Vamos ter objetivos, metas e avaliações permanentes para assegurar que tudo está a ser cumprido”.
Na Carta das Nações Unidas estabelece-se que o cargo de secretário-geral é designado pela Assembleia Geral da organização, depois de aprovado pelo Conselho de Segurança, onde tem de passar pelo crivo dos cinco países com assento permanente e poder de veto: Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, França e China.
A resposta foi dada durante uma ronda sobre a possibilidade de o próximo secretário-geral da ONU ser uma mulher. A candidata da Croácia Vesna Pusic fez questão de sublinhar que "durante 70 anos a organização foi governada por pessoas que representam apenas cinquenta por cento da experiência humana (…) Está na hora de isso mudar."

Em jeito de conclusão, o candidato português lembrou os seus mandatos como alto-comissário para os refugiados e os motivos porque concorre agora a secretário-geral.

"Senti a frustração de ver as pessoas a sofrer e saber que não tinha uma solução para elas. Foi por isso que entendi ser minha obrigação candidatar-me a secretário-geral da ONU”.

As negociações têm lugar à porta fechada e a decisão requer pelo menos nove votos a favor, incluindo os dos cinco membros permanentes.

O sucessor do sul-coreano Ban Ki-moon assumirá funções a 1 de janeiro de 2017.


c/Lusa
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