Apoiantes de "Nino" Vieira exigem demissão do primeiro-ministro
Um grupo de apoiantes do ex-presidente guineense "Nino" Vieira, entre eles quatro destacadas figuras do PAIGC, exigiu sexta-feira a demissão do primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, alegando "total falta de autoridade do Estado".
Entre os apoiantes assumidos de João Bernardo "Nino" Vieira figuram Aristides Gomes, primeiro vice-presidente do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Cipriano Cassamá, líder da bancada parlamentar, e Hélder Proença e Francisco Conduto de Pina, ambos da Comissão Permanente.
Em declarações à Agência Lusa, os quatro dirigentes do partido que sustenta o governo indicaram que vão promover a realização de um novo Congresso do PAIGC, de forma a afastar Carlos Gomes Júnior da liderança da maior força política guineense.
Os quatro dirigentes alegaram que o executivo de Carlos Gomes Júnior tem mostrado "total falta de autoridade" em assuntos que dizem respeito à segurança interna do país, bem como "grande arrogância e falta de diálogo", quer na gestão de questões ligadas à governação, quer no interior do próprio PAIGC.
Assumindo-se todos como apoiantes de "Nino" Vieira, que regressou quinta-feira à Guiné-Bissau após seis anos de exílio em Portugal, Gomes, Cassamá, Proença e Pina indicaram que estão "fora de causa" quer novas eleições legislativas, quer a formação de um governo de iniciativa presidencial.
"O PAIGC, como grande partido, tem a capacidade para chegar a um consenso e formar um novo governo", disse à Lusa Hélder Proença.
Por outro lado, Hélder Proença não comentou as acusações feitas hoje pelo governo à "flagrante violação do espaço aéreo" guineense, quando o helicóptero militar da Força Aérea da Guiné-Conacri que trouxe "Nino" Vieira a Bissau aterrou, "sem autorização", num estádio de futebol, remetendo o jornalista para um comunicado a divulgar hoje.
O extremar de posições público surge na sequência da forte recepção popular que "Nino" Vieira está a desencadear em Bissau, onde é recebido com grande aceitação, quer popular, quer dos militares.
Muitas personalidades políticas e militares ligadas ao regime de "Nino" Vieira (1980/98), que desde 1999 se mantinham na "sombra", ressurgiram com a chegada do ex-presidente, com o intuito de o "convencer" a candidatar-se às eleições presidenciais de 19 de Junho.
Entre essas figuras destacam-se João Cardoso, "braço-direito" do ex-presidente, João Monteiro, antigo chefe dos Serviços Secretos, Carlos Domingos Gomes (pai do actual primeiro-ministro, com quem mantém um corte de relações desde 1994) e ainda vários dirigentes "históricos" do PAIGC.
"Isto parece a Presidência da República há dez anos", afirmou Edmundo Évora, um dos coordenadores do "Grupo dos 30.000", movimento da sociedade civil que está a promover o regresso de "Nino" Vieira, comentando as sucessivas visitas que "Nino" Vieira recebe na suite do hotel de Bissau em que se instalou.
Os assessores de então são os mesmos que hoje estiveram a liderar o "protocolo" de "Nino" Vieira, que deve abandonar hoje a Guiné-Bissau com destino a Conacri.
Por outro lado, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) da Guiné-Bissau, general Tagmé Na Waie, reuniu-se sexta-feira, pela terceira vez, com "Nino" Vieira, sendo visível o entendimento manifestado entre dois rivais do passado.
Nem "Nino" Vieira, nem Tagmé Na Waie falaram à imprensa, o mesmo sucedendo com o embaixador de Portugal em Bissau, José Manuel Pais Moreira, que se reuniu no hotel com o antigo presidente do país ao longo de mais de duas horas.
Antes de regressar a Conacri, de onde seguirá para Lisboa, em princípio via Dacar, "Nino" Vieira tem hoje ao fim da manhã um encontro previsto com Kumba Ialá, também ex-presidente guineense, deposto no golpe de Estado de Setembro de 2003.
Os dois ex-presidentes cruzaram-se sexta-feira no hotel onde "Nino" Vieira está hospedado, tendo mantido uma conversa animada de cerca de cinco minutos.