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Artemis II. Cápsula espacial Orion regressa esta madrugada à Terra

Artemis II. Cápsula espacial Orion regressa esta madrugada à Terra

Chega na madrugada deste sábado ao fim a epopeia espacial que levou quatro astronautas ao redor da Lua para preparar o regresso da humanidade ao satélite natural da Terra. Mas para que tudo termine em sucesso, como esperado, a cápsula espacial Orion tem de ainda de passar um último e derradeiro teste: a dura e perigosa reentrada na atmosfera terrestre.

Quando os relógios marcarem 17h07 na California, Estados Unidos (01h07 de sábado em Portugal continental) a cápsula espacial Orion estará fisicamente a boiar nas águas do Oceano Pacífico. Mas antes deste desfecho os quatro astronauta, os norte-americanos Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadiano Jeremy Hansen, ainda vão sentir a árdua e difícil reentrada da cápsula espacial na atmosfera terrestre.

Uma atmosfera que parece ser só ar, mas na verdade o atrito criado por esta barreira invisível é o momento mais extremo de toda a missão. Em poucos minutos, os astronautas passam de 40 mil quilómetros por hora ao silêncio absoluto, ao calor infernal e a forças capazes de multiplicar o peso do corpo.

É o preço de voltar para casa.

A astronauta norte-americana  Christina Koch olha para "casa" por uma das quatro pequenas janelas instaladas na cápsula Orion | Créditos: NASA

Preparação para o regresso começa ainda no espaço

Depois da viagem de regresso à Terra, a reentrada e amaragem segura no azul marinho do Pacífico. Uma reentrada da Orion que começa ainda no espaço. Nos cerca de nove dias da missão Artemis II, em que viajaram até à Lua a bordo da nave espacial Integrity, os quatro astronautas sabiam que uma das partes fulcrais da missão passava obrigatoriamente pelo regresso sãos e salvos. Para isso tiveram que posicionar cuidadosamente o veículo espacial na rota certa para o planeta azul.

A separação entre o módulo de serviço europeu e a cápsula Orion ocorre aproximadamente 40 a 60 minutos antes da amaragem. Uma breve queima dos motores é suficiente para colocar a nave numa trajetória de colisão controlada com a atmosfera terrestre.

O módulo terá como destino a destruição por desintegração na atmosfera, sem controlo. A partir daqui, só o pequeno cone metálico, sem asas, com os astronautas continua. O resto do processo depende da física e da precisão matemática dos engenheiros da NASA.

Créditos: Agência Espacial Europeia (ESA)

Entrada na atmosfera em velocidade extrema

A Orion atinge as camadas superiores da atmosfera a cerca de 40 000 km/h, tornando‑se o veículo tripulado mais rápido alguma vez a regressar à Terra desde as missões Apollo.

Ao contrário do que se pensa, o perigo não vem do atrito, mas da compressão violenta do ar à frente da cápsula. Esse ar aquece instantaneamente, criando uma onda de choque e um envelope de plasma ionizado incandescente em redor da nave.

Para os astronautas, no interior da cabine espacial, este momento é marcado por uma vibração crescente, aumento de ruído e uma sensação clara de desaceleração. Lá fora, a cápsula assemelha-se a uma bola de fogo.

Imagem: NASA

Um novo “blackout” comunicativo
Os astronautas da Artemis II estão cientes de que durante esta missão há cortes na comunicação entre a nave e o controlo na Terra. O primeiro aconteceu durante a passagem pelo lado não visível da Lua, que durou cerca de 40 minutos, e um segundo “blackout” está previsto na reentrada terrestre.

Quando o plasma (bola de fogo) se forma, as ondas de rádio deixam de conseguir atravessar essa camada ionizada. Durante vários minutos (entre 6 a 8), a cápsula fica isolada e não há comunicações com o controlo de missão.

Este “blackout” de comunicações é esperado, ensaiado e planeado. Contudo continua a ser o momento mais tenso da reentrada.

Imagem: NASA

Dentro da cápsula tudo funciona em modo automático e os astronautas sabem que ninguém os ouve, mas também estão conscientes de que cada sistema foi testado inúmeras vezes para este cenário. Uma fase repetidamente vivida por todos os astronautas que executam missões espaciais.

Great ball of fire”, calor extremas e forças G

O escudo térmico da Orion foi preparado para suportar temperaturas superiores a 2.700 graus Celsius. Um escudo ablativo que se vai degradando e queimando de forma controlada, por camadas, levando consigo a energia térmica.

Imagem: NASA


Dentro da cápsula a temperatura mantém‑se estável (20º - 25º Celsius). Mas os corpos dos astronautas sentem outra coisa: as forças G.

Durante alguns segundos, os astronautas são sujeitos a forças entre 4 e 6 G. Em termos simples, o corpo passa a pesar quatro a seis vezes mais do que o normal. Respirar torna‑se mais difícil, os braços parecem colados ao assento e qualquer movimento exige esforço. É desconfortável, mas dentro dos limites humanos, e amplamente treinado nas missões espaciais.

O “skip reentry”: um salto que não é um salto
Ao contrário das cápsulas mais antigas, a Orion utiliza uma técnica chamada skip reentry.

Depois da primeira travagem violenta, a cápsula sobe ligeiramente para camadas mais altas da atmosfera antes de descer novamente. Apesar do nome, a Orion não volta ao espaço nem entra em órbita.

Um “salto” que tem como intuito reduzir o pico de calor, diminuir as forças G e aumentar a precisão do local de aterragem. Um ricochete atmosférico, que os astronautas vão sentir com uma leveza súbita e pontual, para depois voltarem a ser puxados para trás, mas mais devagar.

Grafico descritivo do "skip reentry" | Fonte NASA

À medida que a velocidade diminui, o plasma desaparece e as comunicações regressam e as temperaturas descem abruptamente. A Orion neste ponto viaja já a velocidades subsónicas quando inicia a sequência final.

Os astronautas presenciam neste momento estrondos aerodinâmicos, com estrutura a “gemer” e vibrações irregulares. Em contraponto, já sem a intensidade da força G, voltam a respirar normalmente e a sensação de peso regressa.

Paraquedas travão. A visão desejada antes da amaragem

A travar desde o espaço – desde os cerca de 40 mil quilómetros – é hora de abrir primeiro os dois pequenos paraquedas de estabilização. Depois surgem os três grandes paraquedas principais, cada um com dezenas de metros de diâmetro. A velocidade cai para cerca de 30 km/h.
Imagem: NASA

Dentro da cápsula sente‑se um abanão forte na abertura dos paraquedas, seguido de um balanço pendular suave. O pior já passou.

“Splach” - Amarar no oceano
O regresso com sabor do sucesso e de missão cumprida termina com uma amaragem no Oceano Pacífico. O impacto é firme, comparável a um embate automóvel moderado, mas perfeitamente controlado. A cápsula flutua, mantendo os astronautas em segurança até à chegada das equipas de resgate.

Imagem: NASA

Minutos antes, aqueles mesmos astronautas estavam a atravessar a atmosfera envoltos em plasma. Agora, escutam apenas o som do mar e aguardam a equipa de resgate.

Uma missão que quase tocou a Lua, mas com o desejo de voar mais vezes e mais longe num espaço que ainda demora a conquistar e a dominar. 

Veja em direto a amaragem da cápsula Orion no Oceano Pacifico (sábado 01h07 Lisboa)  



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