Ativista e cidadão português detido há 11 meses em Macau sem falar com família

Ativista e cidadão português detido há 11 meses em Macau sem falar com família

Uma das filhas do ex-deputado de Macau Au Kam San disse à Lusa que a família não consegue falar com o ativista pró-democracia e cidadão português desde que foi detido há mais de 11 meses.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

O antigo deputado foi detido em 30 de julho de 2025 em Macau e depois submetido a prisão preventiva por alegado conluio com "forças externas anti-China" e por "suspeita de violar a Lei relativa à defesa da segurança do Estado".

"Apareceram na nossa casa, sem qualquer aviso e levaram a minha mãe primeiro. Depois, começaram a recolher provas na nossa casa. E logo a seguir levaram o meu pai também. Foi um choque", disse Cherry Au, numa videochamada com a Lusa.

"Nunca imaginámos que algo assim pudesse acontecer em Macau. Em Hong Kong, talvez. Em Macau, era algo absurdo até de se pensar. Era nisso que o meu pai acreditava. Dizia: `Não há forma de isto acontecer. Macau é diferente`", recordou.

Mais de 400 pessoas foram detidas em casos ligados à segurança nacional em Hong Kong desde a implementação de uma lei imposta por Pequim, em resposta aos protestos antigovernamentais, por vezes violentos, de 2019.

Há quase um ano que a família não consegue falar com Au Kam San.

"Não nos deram nenhum motivo, mas ele está simplesmente proibido de ter qualquer contacto com o mundo cá fora", disse Cherry.

"A única informação que temos sobre ele é através de um assistente social, e ele também não é capaz de nos dizer grande coisa. Só nos diz que ele está a alimentar-se bem e está bem", lamentou a filha.

A revisão da lei de segurança nacional de Macau, de 2023, prevê que os arguidos em prisão preventiva podem ser proibidos de receber visitas, para não revelarem segredos de Estado.

"Não tenho a certeza se isto inclui advogados, porque tentámos enviar um advogado para o ver, mas foi-lhe negado acesso", disse Cherry, que preferiu não revelar a identidade do defensor.

"Ele não pôde sequer aceitar o caso, já que nem sequer lhe era permitido ver o meu pai. Além disso, houve muita pressão por parte das autoridades para que nenhum advogado em Macau aceitasse o caso", acrescentou.

Na mesma entrevista, o defensor internacional de Au Kam San, Michael Polak, disse que passou "bastante tempo a contactar outros advogados em Macau, que se sentiram incapazes de aceitar o caso".

Na quinta-feira, a Justiça da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) anunciou que Au Kam San vai a julgamento e mencionou que o advogado foi "designado oficiosamente e reconhecido anteriormente pelo arguido".

Cherry Au diz que a família não sabe quem é o defensor oficioso: "Por mais emails que enviemos e seja qual for o departamento que contactemos, todos nos ignoram".

"A probabilidade de ele ter um julgamento justo, com um advogado capaz de ter a coragem de se levantar e questionar as acusações que lhe são feitas, é muito pequena", admitiu o britânico Michael Polak, diretor da Justice Abroad, organização de apoio jurídico em casos de defesa dos direitos humanos.

A entrevista decorreu por videoconferência, a partir do Reino Unido, onde Cherry Au mora desde os 13 anos. A jovem não voltou a Macau desde a detenção do pai.

"A minha família também estava preocupada com a minha segurança, caso eu regressasse", sublinhou.

Em 2020, Cherry e a irmã, Christy Au, foram detidas por transmitirem, atrás das redes sociais, uma vigília privada em memória da repressão de 1989 na Praça de Tiananmen, em Pequim.

Durante três décadas, Hong Kong e Macau foram os únicos locais em solo chinês onde o 04 de junho era lembrado com vigílias públicas, que em Macau tinham Au Kam San como um dos organizadores.

"Estamos todos muito preocupados com ele e só queremos vê-lo e falar com ele", disse Cherry Au.

"É muito difícil não ver alguém com quem costumava falar ao telefone todos os dias. Ele ligava-me para falar de uma coisa qualquer a caminho de ir nadar, de manhã e, de repente, desapareceu", acrescentou.

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