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Bruxelas quer Europa mais preparada para os fogos florestais

Bruxelas quer Europa mais preparada para os fogos florestais

Com incêndios florestais cada vez maiores, mais frequentes e mais destrutivos, a Comissão Europeia apresentou hoje uma nova abordagem integrada à gestão do risco deste tipo de fogos.

Andrea Neves, Correspondente da Antena 1 em Bruxelas /
Foto: João Santos Costa - RTP

E para ilustrar a situação dos incêndios devastadores, Bruxelas deu o exemplo de Portugal.

“O Inferno de Dante. Foi assim que um bombeiro maltês descreveu os incêndios florestais em Portugal. O cheiro a fumo, o céu noturno vermelho, as chamas que se estendiam até onde a vista alcançava. O último verão foi o pior em décadas em termos de incêndios florestais. Mais de 1 milhão de hectares arderam, uma área equivalente ao tamanho de Chipre. Mas permitam-me acrescentar que foi quatro vezes mais do que no ano anterior”.

O exemplo de Portugal foi apresentado Hadja Lahbib a Comissária responsável pela preparação e gestão de crises que quis insistir nos números que se conhecem, mas que se querem evitar.

“Quase todos os Estados-Membros foram atingidos. Alguns enfrentaram centenas de incêndios num único verão. Só em Portugal, quase 3% do território foi queimado. Os incêndios florestais custam à UE quase 3 mil milhões de euros por ano, e todos os anos também tiram vidas” reforçou Hadja Lahbib.

A estratégia hoje apresentada abrange a prevenção, a preparação, a resposta e a recuperação numa abordagem que pretende reforçar a resiliência da Europa face à crescente ameaça de incêndios florestais e garantir uma maior proteção aos europeus e ao ambiente, bem como às infraestruturas e património cultural.

A Vice-presidente da Comissão Roxana Mînzatu referiu, na apresentação desta estratégia em Bruxelas, que “os incêndios florestais deixaram de ser um problema sazonal do sul da Europa. São uma realidade europeia que se torna mais rápida, mais intensa e, infelizmente, mais frequente”.

“E não se trata apenas de hectares de terra queimada. Trata-se das vidas e dos meios de subsistência dos nossos cidadãos. Trata-se da ameaça ao nosso abastecimento alimentar. Trata-se dos 2,5 mil milhões de euros de danos materiais e infraestruturais que acumulamos ano após ano. Prevenir um incêndio é, obviamente, sempre mais barato do que combatê-lo, e esta proposta que hoje apresentamos visa transformar a nossa estratégia de preparação da União em ações concretas”.

A Vice-Presidente salientou que são 3 os objetivos desta proposta: “Em primeiro lugar, integrar a prevenção e a resposta numa abordagem coerente.

Em segundo lugar, fazer um melhor uso de todos os instrumentos da UE, dos dados de financiamento e da investigação, que é muito importante, para que, em conjunto, funcionem de forma mais eficaz.

E em terceiro lugar, claro, reforçar a nossa cooperação, a nossa solidariedade, porque os incêndios florestais nunca respeitam fronteiras. Precisamos de passar de uma cultura de reação para uma cultura de antecipação”.

Em consonância com a Estratégia da União para a Preparação, Bruxelas apresenta orientações sobre como prevenir, preparar, responder e recuperar melhor dos incêndios florestais, com exemplos e recomendações sobre como as autoridades nacionais e regionais e outras partes interessadas podem implementar este quadro.

O objetivo é reforçar a resiliência da Europa face à crescente ameaça de incêndios florestais.

Prevê-se que a dimensão e a intensidade dos incêndios florestais se agravem em todo o território continental.

Em 2025, a Europa registou a sua pior época de incêndios florestais desde que os registos começaram, com mais de um milhão de hectares ardidos.

Isto deve-se também à intensificação das alterações climáticas.

No comunicado da Comissão Europeia pode ler-se que “as alterações climáticas estão a agravar os riscos de incêndios florestais em toda a Europa, com verões mais longos, quentes e secos a aumentar a frequência e a intensidade dos incêndios”.

Os incêndios florestais preocupam cada vez mais os cidadãos

Antes considerados como uma realidade do sul da Europa, os incêndios florestais não eram um preocupação nos países do centro e norte da Europa. Mas a realidade está a mudar.

De acordo com um inquérito recente da Agência Europeia do Ambiente, metade dos cidadãos inquiridos está preocupada com este fenómeno natural.

O objetivo é definir as melhores formas de sensibilizar os europeus para o risco de incêndios florestais e de preparar a população, mas também de como pode ser melhorado o apoio ao alerta precoce e à resposta e de como deve ser feita a recuperação pós-incêndio e a restauração da natureza”.

Bruxelas considera que “as pessoas e as comunidades locais desempenham um papel fundamental na prevenção e gestão do risco de incêndios florestais. A percentagem de incêndios florestais causados ​​​​pela atividade humana na UE excede em muito os causados ​​​​por causas naturais e poderá atingir os 96%”.

“Todos têm um papel a desempenhar, especialmente os nossos cidadãos, e queremos que as pessoas não só estejam seguras, mas também que participem ativamente na sua própria proteção. E isso começa com uma comunicação rápida e precisa. As pessoas precisam de conhecer os riscos e precisam de informações claras e oportunas em que possam confiar. Por isso, estamos a reforçar a forma como comunicamos os riscos, tornando-os mais claros e acessíveis a todos. Ninguém deve ficar de fora” salientou a Comissária Hadja Lahbib.

Ouvir e envolver os cidadãos

A Vice-Presidente com a pasta da preparação salientou que “é muito importante referir que, neste contexto, precisamos de analisar as causas. Até 96% das causas dos incêndios são provocadas pelo homem, seja por negligência ou simplesmente por comportamentos inadequados. Isto significa que 96% destes desastres são evitáveis. Queremos sensibilizar. Queremos melhorar a educação e, assim, transformar cada cidadão numa primeira linha de defesa. E devemos apoiar aqueles que também estão na linha da frente da resposta”

“Se 96% dos incêndios florestais são causados ​​por nós, pelos humanos, significa que também fazemos parte da solução” reforçou Roxana Mînzatu.

“No final, são os Estados-Membros que se mantêm no centro da gestão dos incêndios florestais, e estamos aqui para os apoiar, conscientes de que não existe uma solução única em termos de antecipação e resposta, e que as autoridades regionais e locais conhecem as comunidades melhor do que ninguém as suas realidades”.

“Estamos também a envolver toda a comunidade na segurança contra incêndios florestais, porque, para manter todos em segurança, todos devem fazer parte do esforço. Isto é importante tanto nas zonas rurais como nas cidades, como vimos recentemente em Los Angeles, onde os incêndios florestais mataram mais de 30 pessoas e destruíram milhares de casas. Por isso, precisamos de mais educação, mais formação, mais simulações da vida real e de estarmos mais informados para tomarmos melhores decisões”.

A Comissão organizará um Painel Europeu de Cidadãos dedicado a este tema – para envolver os cidadãos através da Plataforma de Envolvimento dos Cidadãos e do Painel Europeu de Cidadãos dedicado – que irá deliberar e abordar recomendações sobre a sensibilização para o risco de incêndios florestais e a preparação.

“A Comissão Europeia pretende que as pessoas estejam mais conscientes dos riscos e que os cidadãos sejam envolvidos na preparação para os incêndios florestais, em consonância com a Estratégia da União para a Preparação. Irá continuar o trabalho de inclusão da preparação na formação do pessoal docente, promover a preparação nos programas da UE para a juventude nesta área e promover oportunidades de intercâmbio e voluntariado em matéria de preparação para os incêndios florestais” pode ler-se no comunicado hoje divulgado.

Mais meios para os incêndios florestais

No âmbito do reforço da preparação, a Comissão continuará a posicionar os bombeiros em zonas de risco e a promover o intercâmbio de peritos em combate a incêndios. O intercâmbio de experiências e a cooperação serão também promovidos com regiões propensas a incêndios florestais em todo o mundo.

Os Estados-Membros e as partes interessadas serão informados sobre as oportunidades de financiamento específicas.

Bruxelas vai desenvolver ainda mais o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, apoiado pelo satélite Copernicus, melhorando as suas ferramentas de alerta precoce e monitorização de incêndios. Serão desenvolvidas novas capacidades para a modelação de riscos padronizada à escala pan-europeia para ajudar a identificar as melhores práticas para reduzir os riscos de incêndio e aumentar a resiliência da paisagem.

“Estamos a adicionar 12 aviões de combate a incêndios e cinco helicópteros à nossa frota de resgate e também a inaugurar um novo centro de treino de combate a incêndios no Chipre que Irá treinar bombeiros e preparar as equipas para a época de incêndios” referiu a Comissária com a pasta da gestão de crises.

Os aviões serão posicionados em seis países da UE: Portugal, Espanha, França, Itália, Croácia e Grécia. Os 5 helicópteros são destinados à República Checa, Eslováquia e Roménia. Os primeiros helicópteros entrarão em funcionamento em 2026 e os primeiros aviões em 2028.

“Precisamos de saber quem tem o quê, quem faz o quê e onde o apoio é mais necessário. Garantir que todos têm as ferramentas e os recursos de que necessitam de forma rápida e eficiente. Precisamos também que os nossos equipamentos funcionem perfeitamente em conjunto, independentemente das fronteiras. Isto é essencial quando cada minuto conta” salientou Hadja Lahbib a Comissária responsável pela preparação

“O nosso Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, baseado em todos os sistemas de satélite Copernicus, já nos ajuda a detetar e a mapear incêndios em tempo real. Fornece às equipas de emergência as informações necessárias para agir rapidamente. Agora, estamos a melhorá-lo para fornecer mapas de risco em toda a Europa e um sistema de alerta precoce. Isto tornar-nos-á mais autónomos e mais conectados com os nossos parceiros internacionais”.

Bruxelas vai apostar também no desenvolvimento de ferramentas de modelação de incêndios florestais assistidas por Inteligência Artificial para apoiar a tomada de decisões.

“Tal como a IA ajuda a melhorar os tratamentos, os médicos a melhorar os tratamentos e os agricultores a proteger as culturas, também nos pode ajudar a combater os incêndios florestais. Pode prever, simular e simular como os incêndios se propagarão, levar os bombeiros para o terreno e ajudar-nos a tomar a decisão certa e a agir com antecedência. E, claro, salvará vidas” referiu a Comissária.

Apoiar e os bombeiros

“Os nossos bombeiros, os nossos voluntários, a quem expresso o meu mais sincero apreço e gratidão, precisam de ser apoiados com formação. Precisamos de os apoiar com o equipamento adequado, equipamento de proteção, com a proteção necessária para que continuem a estar presentes para nós. Em algumas regiões, observamos escassez de pessoal formado e, por isso, necessitamos de dados mais precisos e precisamos de planear em conformidade, utilizando esses dados, para colmatar essas carências” referiu a Vice-Presidente da Comissão Europeia Roxana Mînzatu.

A Comissão propõe também recolher dados para melhor compreender e reduzir os riscos para a saúde a longo prazo que os bombeiros enfrentam, relacionados com a sua exposição a condições perigosas e substâncias tóxicas.

A Comissão está também a trabalhar no estabelecimento de um Centro Europeu de Combate a Incêndios Florestais no Chipre, que servirá como centro regional para treino, exercício e preparação sazonal. Terá uma dupla função: operacional, para responder a emergências de incêndios florestais, e de formação.

O centro será concebido não só para reforçar a proteção das pessoas e dos ecossistemas contra os incêndios florestais, mas também para reforçar a resiliência e a adaptação, bem como a cooperação com os países parceiros vizinhos. Espera-se que abrigue um centro de excelência, com foco no desenvolvimento de capacidades, treino, exercícios e preparação sazonal, contando com a experiência técnica e os recursos da UE e dos países da Vizinhança Meridional.

A Comissão quer encorajar os Estados-Membros a coordenarem-se mais, a partilharem as melhores práticas e a aprenderem uns com os outros. Nesse sentido vais ser criado um programa permanente de intercâmbio de especialistas em combate a incêndios.

A proposta hoje apresentada não vai impor quaisquer custos aos Estados-Membros.

“Pelo contrário, procura promover uma maior eficiência na gestão dos incêndios florestais. Mas um problema de longa duração como os incêndios florestais não desaparecerá nos próximos anos e irá mesmo propagar-se a mais Estados-Membros. São necessários investimentos sustentados e a longo prazo para melhor prevenir, preparar, responder e recuperar dos incêndios. Mas, ao reforçar o financiamento da prevenção e da preparação, os custos das operações de combate e os danos causados ​​pelos incêndios florestais podem ser drasticamente reduzidos. Investir na prevenção é, pois, investir num futuro resiliente”.

Restaurar a natureza

“Em 2025, os incêndios florestais devastaram mais de um milhão de hectares na União Europeia pela primeira vez desde o início dos registos, conforme relatado pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais Copernicus. A área ardida registada em quatro dos últimos cinco anos foi superior à média, e a dimensão e intensidade dos incêndios florestais estão a aumentar. Além disso, a frequência dos "megaincêndios" está a aumentar, representando um desafio significativo para os esforços de gestão de incêndios florestais”.

Restaurar a natureza da Europa é, portanto, fundamental, uma vez que os ecossistemas saudáveis ​​são mais resilientes aos incêndios florestais.

Com esta proposta o executivo comunitário pretende criar orientações sobre como implementar a prevenção baseada nos ecossistemas e construir paisagens resilientes ao fogo e sobre como se pode melhorar a preparação através de uma melhor avaliação do risco, previsão e conhecimento.

O objetivo é construir paisagens resilientes ao fogo e mitigar o risco e o impacto dos incêndios florestais através da proteção e restauração da natureza.

“Para este efeito, a Comissão adotou hoje um documento de orientação sobre a Rede Natura 2000 e as alterações climáticas, que fornece conselhos para uma abordagem estruturada à adaptação climática nos sítios da Rede Natura 2000. Esta orientação mostra também como promover o planeamento de paisagens resilientes e medidas para reduzir o risco de incêndios florestais, em compatibilidade com os objetivos de conservação dos sítios” refere o comunicado do executivo comunitário.

Além disso, clarifica as flexibilidades para os Estados-Membros na gestão dos sítios da Rede Natura 2000 em caso de emergências, como incêndios florestais, em que as respostas rápidas são vitais para o resgate de pessoas e a proteção da biodiversidade.

Para auxiliar o planeamento a longo prazo, a Comissão fornecerá orientações atualizadas de avaliação de riscos que os Estados-Membros poderão integrar nos seus relatórios nacionais.

“A gestão integrada do risco de incêndios florestais é a resposta a esta urgência de agir. Trata-se de reunir todas as áreas políticas e intervenientes numa abordagem conjunta para reduzir o risco de incêndios florestais – por exemplo, gestão da paisagem e das florestas, comunicação de riscos, proteção civil e investigação e inovação. Trata-se da UE, dos seus Estados-Membros e regiões trabalharem em conjunto para proteger os europeus, bem como o ambiente”.
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