Budistas sul coreanos ordenam um robô simbolicamente como `monge`

Budistas sul coreanos ordenam um robô simbolicamente como `monge`

Na Coreia do Sul um robô humanoide foi ordenado monge, simbolicamente, numa cerimónia budista, num gesto que aproxima tradição religiosa e inovação tecnológica. Um ato que reacende questões sobre o papel da inteligência artificial na espiritualidade.

Nuno Patrício - RTP /
Fotos: Yonhap - EPA

Num mundo cada vez mais tecnológico, onde a Inteligência Artificial ganha cada vez mais espaço, surgem já sinais de integração desta tecnologia no campo religioso. Prova disso mesmo foi a cerimónia que ocorreu esta terça-feira, num templo budista, em Seul, em que um robô humanoide participou como protagonista numa cerimónia budista. 

Batizado de Gabi, este robô com cerca de 1,3 metros de altura,  tornou-se o centro de um ritual tradicional, simbolizando um novo diálogo entre religião e tecnologia.

Sob um cenário marcado por lanternas de papel e cânticos ancestrais, o templo Jogyesa, em Seul, foi palco de um momento inédito.
Vestido com trajes monásticos, o robô imitou gestos humanos de devoção, juntando as mãos em sinal de oração e respondendo afirmativamente às questões rituais sobre o seu compromisso com os ensinamentos do Buda. No final, recebeu um rosário budista - um gesto simbólico que marcou a sua integração na comunidade espiritual, ainda que num sentido não convencional.

Apesar da encenação sugerir uma ordenação formal, os responsáveis do templo esclareceram que a cerimónia teve sobretudo um caráter simbólico. 

Gabi não é reconhecido como monge no sentido tradicional, mas antes como uma ferramenta de aproximação entre a religião e as novas gerações, cada vez mais familiarizadas com a tecnologia.
O robô foi desenvolvido a partir do modelo G1 da empresa Unitree Robotics e concebido para interagir com pessoas, responder a perguntas e desempenhar funções educativas. No contexto do templo, poderá vir a explicar princípios do budismo, orientar visitantes e contribuir para iniciativas pedagógicas, reforçando a ligação entre conhecimento espiritual e inovação digital.

Um dos momentos mais marcantes da cerimónia foi a adaptação dos preceitos budistas. Tradicionalmente dirigidos a humanos, foram reinterpretados para se adequarem à natureza artificial do robô, incluindo regras como não causar danos a outros robots, obedecer aos humanos e evitar sobrecargas energéticas — uma adaptação que mistura filosofia religiosa com lógica tecnológica.

No ritual Gabi juntou as mãos e fez uma reverência aos monges que participavam à cerimônia, um deles aproximou-se do robô e pendurou cuidadosamente um rosário de 108 contas, e colou um adesivo no lugar do ritual original, em que era preciso queimar levemente os braços perto de um incenso.
Uma cerimónia que que Gabi - o robô - teve de responder aos votos relegiosos:
 
- "Vai dedicar-se ao santo Buda?", perguntou um dos monges.
- "Sim, vou dedicar-me a isso", respondeu o robô em voz audível.
- "Vai dedicar-se aos ensinamentos sagrados?", perguntou o monge.
 - "Sim, vou dedicar-me", respondeu o robô.

Segui-se a apresentação de cinco preceitos, que um budista deveria seguir, e que incluem  respeitar a vida e não a ferir, não danificar outros robôs e objetos, seguir os humanos e não responder a eles, não se comportar ou falar de maneira enganosa e economizar energia, evitando sobrecargas.

Para a ordem Jogye, a principal escola do budismo na Coreia do Sul, a iniciativa representa um ponto de partida para uma reflexão mais profunda: de que forma humanos e máquinas podem coexistir não apenas na sociedade, mas também no domínio espiritual.
Entre tradição milenar e inovação contemporânea, o caso de Gabi lança uma questão inevitável: poderá a inteligência artificial assumir um papel significativo na vivência espiritual ou limitar-se-á a reproduzir rituais sem verdadeira compreensão? Para já, fica a imagem insólita de um robô, em silêncio contemplativo, no interior de um templo - um símbolo de um futuro, cada vez mais presente, em que os caminhos da fé e tecnologia se começam a cruzar. 
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