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"Cabo Verde é terreno pouco fértil para convulsões"
O Primeiro-Ministro de Cabo Verde, Ulisses Correia e Silva, aponta a força das instituições democráticas como o segredo para a dinâmica democrática do país africano. No meio da tempestade geopolítica mundial, garante que a relação com a União Europeia é privilegiada
Cabo Verde é o único país africano com níveis de liberdades civis e políticas no patamar europeu, de acordo com a Freedom House, uma organização não-governamental norte-americana. O segredo está na estabilidade e na força das instituições democráticas, garante, em entrevista ao jornalista Frederico Pinheiro da RTP África rádio, o primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva: “O poder não está apenas no Presidente da República, mas está também no Parlamento. Isso permitiu que pudéssemos ter estabilidade política”, adianta para sublinhar a diferença face a outros países africanos. "Depois o entendimento que existe também entre os atores políticos de que o país só tem algumas variáveis que pode apresentar como vantagem: é estabilidade, é boa governança, é credibilidade e confiança. E temos esses fatores, instituições que funcionam”.
Estas características, aliadas à liberdade de imprensa e à independência da justiça, ajudam a diferenciar o país no contexto africano e, por isso, “Cabo Verde é um terreno pouco fértil para essas convulsões a que nós assistimos”. Cabo Verde situa-se na África Ocidental, onde países como o Mali, o Níger, o Burkina Faso e a Guiné-Bissau sofreram golpes de Estado militares nos últimos anos. Já Cabo Verde alcançou a independência em 1975 e realizou as primeiras eleições multipartidárias em 1991.
A estabilidade cabo-verdiana contrasta com as convulsões geopolíticas mundiais, com tensões cada vez mais evidentes entre os diferentes blocos. Cabo Verde fala com todos, mas tem uma relação privilegiada com a União Europeia. Ulisses Correia e Silva garante não ser pressionado para escolher um lado. “Nós não sentimos pressão porque eles sabem qual é a nossa posição. E a nossa posição foi clara e está definida na carta de política externa do governo: relações privilegiadas com a União Europeia, porque nós temos a nossa moeda indexada com o euro, 80% do nosso comércio externo é feito com a União Europeia, 80% do investimento externo vem da União Europeia, o turismo vem da União Europeia, temos lá grande parte da nossa diáspora”, identifica em entrevista realizada no Palácio do Governo, na cidade da Praia.
O governante, que se candidata a um terceiro mandato consecutivo pelo MpD nas eleições de maio, deixa mesmo um conselho a outros países neste momento crítico. “Não fazemos esse jogo de estar hoje num tabuleiro A e amanhã num tabuleiro C. Os pequenos países não podem fazer esses jogos porque perdem depois com todos”. Assim, Ulisses Correia e Silva “prefere ter um leque, que eu sei que são os nossos parceiros firmes, são fortes, são consolidados, têm já um nível de maturação suficiente para não estarmos a entrar em jogos geopolíticos e isso tem dado credibilidade e estabilidade a Cabo Verde”.