Cartas secretas revelam amizade muito especial do papa João Paulo II

Cartas secretas revelam amizade muito especial do papa João Paulo II

São centenas de cartas que revelam agora uma amizade muito especial do cardeal Karol Wojtyla, mais tarde papa João Paulo II. Uma troca epistolar com a filósofa americana - polaca de nascença – Anna-Teresa Tymieniecka que durou mais de três décadas e deixa vestígios de uma relação estreita entre o homem que chefiou a Igreja Católica durante 27 anos e uma mulher casada com três filhos.

RTP /
O cardeal Wojtyla e Anna-Teresa Tymieniecka durante umas férias na montanha, como era habitual fazerem com um grupo de amigos DR

A correspondência trocada entre João Paulo II e Anna-Teresa Tymieniecka só agora foi revelada, oito anos após ter sido vendida à Biblioteca Nacional da Polónia pela filósofa norte-americana, em 2008. As cartas desenham a história de uma relação estreita mantida durante 32 anos.O documento é semi-epistolar, já que não se conhecem as cartas de Anna-Teresa para Karol Wojtyla. Mas o cardeal confessava em determinada altura à própria filósofa que algumas das suas cartas eram “significativas e profundamente pessoais”.

A palavra é estreita e não íntima. A BBC, que teve acesso a estes documentos, refere que nada indicia que João Paulo II tenha quebrado os votos de celibato.

Então arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyla conheceu Anna-Teresa Tymieniecka em 1973, era ela nos seus 50 anos uma mulher casada com três filhos. A amizade entre ambos terá começado quando Anna-Teresa contactou o arcebispo Wojtyla a propósito de um livro de filosofia que este havia escrito.

Seguiu-se uma primeira viagem de Anna-Teresa à Polónia para discutir esse texto - The Acting Person (A Pessoa em Acção) - e ficaria decidido que ambos preparariam uma edição mais desenvolvida da obra, trabalho que levou quatro anos a fazer, mas que não agradou à Igreja.

As primeiras cartas seguiram-se a esse primeiro encontro de 1973, com a BBC a assinalar que de início eram formais mas que rapidamente se tornaram mais íntimas.

O documento é na verdade semi-epístolar, já que não se conhecem as cartas de Anna-Teresa para Karol Wojtyla. Mas logo em 1974, o cardeal Wojtyla escrevia à filósofa norte-americana que estava a reler quatro das suas cartas porque estas eram “significativas e profundamente pessoais”.

Dois anos depois, no Verão de 1976, durante um encontro católico nos Estados Unidos, Wojtyla iria ficar hospedado na casa de campo de Anna-Teresa na pequena cidade de Pomfret (Estado de Vermont).
O papa, o homem, o santo

Uma questão que é suscitada por esta troca de correspondência com uma mulher remete directamente para a santificação pela igreja Católica do papa João Paulo II, o que aconteceu de forma invulgarmente rápida, apenas nove anos após a sua morte.

É costume o Vaticano fazer uma revisão cuidada de todos os documentos públicos e privados dos candidatos a santo.

A BBC sublinha não ter conseguido confirmar se esta correspondência trocada com Anna-Teresa Tymieniecka foi examinada, mas refere uma nota da Congregação para as Causas dos Santos em que o órgão responsável pelas canonizações assegura que “todas as nossas funções foram cumpridas. Todos os documentos privados enviados por fiéis e documentos localizados em arquivos importantes foram analisados”.
Sentimentos
Karol Wojtyla descreve Anna-Teresa como um “presente de Deus”.Não se conhecendo o teor das cartas enviadas pela filósofa a Karol Wojtyla, fica entretanto a dúvida sobre a natureza dos seus sentimentos pelo homem que chefiou a igreja durante 27 anos.

A BBC assinala a possibilidade de terem sido incluídas cópias no arquivo da filósofa que foi vendido à Biblioteca Nacional da Polónia, mas assegura que esses documentos, a existirem, não estavam disponíveis quando os jornalistas o consultaram.

De acordo com a BBC, Anna-Teresa terá revelado sentimentos fortes por Karol Wojtyla, porque as respostas deste sugerem um homem em luta para definir a amizade que mantinham, mas em termos cristãos: “Minha querida Teresa, recebi todas as três cartas. Você escreve sobre estar arrasada, mas não consegui encontrar resposta para essas palavras”, escreveu em setembro de 1976.

A biblioteca não confirmou nem desmentiu estar na posse das cartas de Tymieniecka.“Aqui temos uma das grandes figuras públicas transcendentais do século XX, o chefe da Igreja Católica, numa relação intensa com uma mulher casada”, sublinha Eamon Duffy, professor de história do cristianismo na Universidade de Cambridge.

A comerciante de manuscritos raros que negociou a venda das cartas, acredita que Tymieniecka se apaixonou pelo cardeal Wojtyla logo no começo do relacionamento: “Acho que isso se reflete completamente na correspondência”.
Em luta com os sentimentos
É certo que o arcebispo de Cracóvia lutou com alguma espécie de contradição no relacionamento. E a fórmula encontrada para resolver essa contradição terá sido um escapulário.

Anna-Teresa Tymieniecka visitou João Paulo II um dia antes da sua morte.Wojtyla ofereceu a Anna-Teresa um colar de devoção, um dos seus objectos mais queridos, e numa carta de 10 de setembro de 1976 escreveu: “No ano passado andava à procura de uma resposta para as palavras ‘Eu pertenço-lhe’ e, finalmente, antes de partir da Polónia, encontrei uma maneira, um escapulário. A dimensão na qual aceito e a sinto em todo o lado, em todos os tipos de situações, quando você está perto e quando está distante”.

Certo é que a relação de Anna-Teresa com o arcebispo de Cracóvia permaneceu intacta quando Karol Wojtyla se tornou papa: “Estou a escrever após o evento, para que a correspondência entre nós continue. Prometo que me lembrarei de tudo neste novo estágio da minha jornada”.

E assim aconteceu, com a relação a estender-se até ao fim da vida de João Paulo II. Anna-Teresa Tymieniecka visitou-o um dia antes da sua morte, a 2 de abril de 2005. Anna-Teresa morreria a 7 de junho de 2014.


c/ BBC
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