`Chapeiros` moçambicanos arriscam no regresso à África do Sul quando ainda faltam passageiros
O `chapeiro` moçambicano Celso viveu dias difíceis com a escalada da xenofobia na África do Sul, mas, sem alternativas para sustentar a família, continua a arriscar naquela rota, apesar dos poucos passageiros que leva para o país vizinho.
"A gente não tem passageiros. Só temos de lá para cá, até que esses últimos dias têm aparecido um e o outro que tem coragem de voltar", diz à Lusa, na baixa de Maputo, Celso Jotal, 50 anos, enquanto prepara a próxima viagem no seu `chapa`, viatura de transporte informal, com capacidade para 15 passageiros.
Trabalha como motorista desde 2007 na rota Maputo-Durban, na África do Sul, e ainda hoje recorda os dias difíceis recentes na escalada de tensão xenófoba a poucos quilómetros de distância. Os episódios de violência começaram a intensificar-se no final de maio, atingindo várias zonas daquele país e levando à saída de dezenas de milhares de moçambicanos.
Naquela viagem de aproximadamente 550 quilómetros (km), antes feita com a viatura lotada, agora é raro Celso fazer o percurso com apenas quatro ocupantes, incluindo o ajudante, mas garante que o medo de enfrentar a situação xenófoba é menor comparado ao risco de não garantir o pão diário.
"Mas há semanas atrás, era ir `zerado`, sem nada. Era um desafio", reforça, com o rosto a denunciar cansaço com a situação que, há semanas, prejudica a rotina que sempre serviu como fonte de sustento da família e dos estudos dos cinco filhos.
Recorda que um dos colegas `chapeiros` foi agredido na África do Sul quando tentava abastecer a carrinha com combustível, para voltar a Maputo, mas assume não ter outra alternativa que não arriscar e transportar os poucos passageiros que, por falta de alternativas em Moçambique, aparecem a tentar regressar ao país vizinho, apesar dos receios.
"Não temos nenhuma segurança, é só rezar ao sair, desafiar. Eles já sabem que moçambicano não tem nada no ombro dele", lamenta, enquanto aguarda a saída do último carro do dia para a África do Sul e tenta marcar a fila para ser o primeiro na manhã seguinte.
No parque, que antes da agitação recebia centenas de passageiros com destino às cidades sul-africanas, há agora mais entrada de viaturas que procuram estacionamento do que saídas com viajantes. O cenário e a apreensão dominam as conversas entre os `chapeiros` que se juntam com os `cambistas`, que interpelam qualquer pessoa que entra naquele local tentando vender rands.
Se antes podiam dali sair diariamente cinco viaturas para cada destino daquele país, a situação mudou. Num dia bom, partem apenas dois carros, por vezes apenas com dois passageiros.
"Estamos a desafiar", diz Celso.
A situação de incerteza, mas carregada de coragem, é partilhada também por Guilherme, transportador na rota Maputo-Joanesburgo, quase 545 km, cidade que registou focos de xenofobia nas últimas semanas, que visam sobretudo os imigrantes de outros países africanos --- crise que já provocou pelo menos 11 mortos entre moçambicanos --- e foi caracterizada pela invasão de residências e saques a estabelecimentos comerciais.
Guilherme pouco trabalho tem agora. Cada viagem custa ao passageiro 1.500 rands (78,80 euros) e tenta não desistir do trabalho: "Hoje, o carro que saiu daqui, nem encheu. Saiu com quatro pessoas".
"As pessoas só estão a voltar, não estão a ir para a África do Sul. Então, o número de passageiros que a gente tem levado de Maputo para lá é muito pouco", descreve, explicando que os que regressam chegam cheios a Maputo.
"Vêm cheios. E não é só um, vêm tantos carros", diz, assumindo que continua a tentar por não ter alternativas de trabalho para sustentar os quatro filhos.
"É difícil, tem que tentar. A gente às vezes vem aqui à praça, tentamos carregar para Ressano Garcia e não passamos a fronteira, é só por aqui perto e voltamos, mas para o outro lado é difícil, porque não há passageiros", conta.
Frederico Lopes, presidente da associação Moçambique-África do Sul Transportes Associados (Mozata), que opera as rotas internacionais de passageiros entre os dois países, relata dias de enchentes nos postos de migração, com moçambicanos a tentarem regularizar os documentos para regressarem, contando com a acalmia dos protestos.
"As pessoas estão a voltar gradualmente", diz Frederico Lopes, recordando que o regresso em massa criou uma pressão para os serviços de transporte, para assegurarem o retorno, apressado, a Moçambique.
Para Lopes, os transportadores aproveitaram a experiência que vivem anualmente na Páscoa e no final do ano, períodos em que apenas há entradas de pessoas em Moçambique e não saídas para a África do Sul: "Não custou nada para a gente engrenar, porque é uma experiência que a gente tem feito todos os anos".
Neste momento de falta de passageiros, o responsável explica que os transportadores são obrigados a dividir os passageiros para evitar que outros voltem para casa sem fazer sequer uma viagem, face também às restrições no número de viagens por dia.
"Não tínhamos como, se alguém quisesse ficar aqui para poder arranjar passageiros era muito difícil, porque praticamente ninguém ia daqui para lá", detalha.
Cerca de 1.500 cidadãos moçambicanos foram repatriados pelas autoridades a partir da África do Sul, fugindo aos ataques xenófobos, enquanto os serviços provinciais de migração relataram nas últimas semanas a entrada massiva de cidadãos que usaram meios próprios para regressar a províncias como Gaza ou Manica.
É o caso de Adilton Moiane, de 23 anos, que saiu antes de os protestos chegarem à sua zona, em Joanesburgo, para tratar em Maputo da documentação. Agora, de malas feitas, espera transporte para regressar, apesar dos riscos: "A única forma de eu evitar o assunto xenófobo é os documentos que eles necessitam lá".
"Mesmo assim é muito arriscado, mas estamos a enfrentar a situação, sim", diz Adilton.
Em Joanesburgo deixou um salão feminino de unhas que pretende reativar, para continuar a garantir o sustento da família em Manjacaze, província de Gaza, explicando que pagou a renda antes de deixar aquela cidade para garantir a segurança dos seus bens junto do senhorio sul-africano.
"Pedi que guardassem as minhas coisas lá para quando eu regressar encontrar todos os meus bens materiais", frisa.
Voltar ao fim de duas semanas é mesmo uma necessidade: "Volto inseguro, sendo que é necessário voltar mesmo porque a situação cá em Moçambique não está fácil".
Já Silvino Limeme, serralheiro, faz parte das estatísticas de passageiros que tentam regressar ao país vizinho para encontrar a família que deixou, após anos sem passar por Moçambique.
"O que eu quero é estar próximo das minhas crianças. Se eles tiverem problema, eu poderia ajudar para resolver. Se não fosse isso, eu deveria viver em casa [em Moçambique]", diz Silvino, evitando dar a cara na hora do regresso à África do Sul, para tentar recuperar a vida e a família.