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"Chernobyl foi um dos catalisadores do colapso da União Soviética"

"Chernobyl foi um dos catalisadores do colapso da União Soviética"

No 40.º aniversário do pior desastre nuclear de sempre, que se assinala a 26 de abril, o acidente de Chernobyl continua a ser relevante e a mostrar os perigos da tecnologia nuclear nas mãos de regimes autocráticos, disse à Lusa o especialista Adam Higginbotham.

Lusa /
Foto: Dimitar Dilkoff - AFP

O autor de "Meia-noite em Chernobyl" considerou que há várias lições a retirar até hoje do acidente, que contribuiu para o fim do regime soviético então liderado por Mikhail Gorbachev. 

"Não foi o único evento que desencadeou o fim, mas há um forte argumento que Chernobyl foi um dos catalisadores do colapso da União Soviética", afirmou. "Gorbachev permitiu uma cobertura jornalística muito mais aberta. Permitiu que jornalistas visitassem a zona de exclusão", referiu. "Quando essa abertura começou, foi difícil de a parar". 

Mas esse não foi um efeito imediato do desastre de 1986, quando o reator 4 da central nuclear explodiu e lançou quantidades maciças de material radioativo na atmosfera. A gravidade do incêndio e o risco de um núcleo exposto que podia derramar lava radioativa e contaminar água e solo não foram logo revelados por Moscovo, a cúpula da União Soviética da qual a Ucrânia fazia parte. 

"O nível de secretismo era horrível", disse à Lusa o correspondente da CBS News que cobriu o acidente, Wyatt Andrews. "Era como uma armadura em torno da informação". 

Adam Higginbotham e Wyatt Andrews são dois dos especialistas que participaram na nova série documental "Chernobyl: Por Dentro do Desastre", que se estreia no domingo, no National Geographic Portugal. 

A série mostra como os primeiros indícios do acidente foram notados na Suécia, quando um engenheiro químico da central de Forsmark detetou níveis elevados de radiação. A contaminação vinha da União Soviética, que demorou quase três dias a informar a população de que tinha havido um desastre. 

"Os responsáveis do governo não diziam nada nem aos jornalistas nem aos diplomatas do resto do mundo", frisou Wyatt Andrews. Para tentar perfurar a muralha de sigilo, os jornalistas formaram redes de partilha de informações e falavam com turistas em Kiev, que relatavam o que saía dos canais oficiais e era muito menos alarmista que o que a situação exigia. 

"Cobri aspetos disto. A chuva era perigosa? Os aviões estavam seguros? O solo estava contaminado? Podia-se beber a água?", exemplificou Andrews, refletindo sobre o pânico na Europa com os efeitos potenciais da radiação. "Os soviéticos podiam ter endereçado esses receios com mais informação, mas recusaram-se a informar o mundo durante as primeiras três semanas". 

Para Adam Higginbotham, um dos pontos mais importantes é que este acidente não poderia ter acontecido noutras circunstâncias. "Foi uma combinação de má tecnologia e má formação na indústria nuclear soviética, mas mais ainda do sigilo absoluto e encobrimento dos acidentes que aconteceram usando esta tecnologia nas décadas anteriores que levaram ao desastre". 

O especialista disse que é perigoso que tecnologias como estas sejam usadas por sociedades fechadas sem transparência governamental. "Uma das lições mais importantes é o perigo da autocracia, do totalitarismo e de um governo que tenta suprimir a verdade", frisou. 

Higginbotham também notou que o perigo em Chernobyl não terminou e isso tornou-se visível quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em 2022, e atacou a estrutura que protege o núcleo do reator que explodiu.  

"O facto de eles terem atacado a nova estrutura de confinamento com um drone explosivo e terem aberto ali um buraco, que destruiu o funcionamento dos mecanismos desenhados para conter a radiação existente nas ruínas do reator 4, indica que o local continua a ser muito relevante", considerou. 

O britânico, que investigou o acidente durante mais de uma década antes de publicar o livro, disse que "Chernobyl: Por Dentro do Desastre" é o primeiro documentário que tenta contar tudo de forma integral e desmistificar a história. 

"Chernobyl: Por Dentro do Desastre" estreia-se no domingo, 19 de abril, com episódio duplo às 22:30 no National Geographic.

Os outros dois episódios vão para o ar a 26 de abril, assinalando os 40 anos do desastre. 

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