China consolida posição na corrida global à inteligência artificial

China consolida posição na corrida global à inteligência artificial

O analista económico Scott Kennedy defende que, apesar de Washington liderar a inteligência artificial, a vantagem sobre a China deixou de ser determinante para a maioria dos utilizadores, numa altura em que modelos chineses ganham quota no mercado global.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Foto: YouTube

"Os EUA continuam a ter uma vantagem significativa, mas os modelos chineses são bastante capazes e, para a grande maioria dos utilizadores, essa diferença já não importa", afirmou o especialista em economia e tecnologia chinesa do Center for Strategic and International Studies (CSIS), um `think tank` com sede em Washington, em entrevista à agência Lusa.

Em janeiro de 2025, o lançamento do DeepSeek surpreendeu a indústria tecnológica ao demonstrar que uma empresa chinesa podia desenvolver um modelo de IA competitivo com custos muito inferiores aos dos rivais norte-americanos. Desde então, uma sucessão de novos sistemas lançou a China definitivamente na primeira linha da corrida tecnológica.

Modelos como o Qwen, da Alibaba, o Kimi, da Moonshot AI, o GLM-5.2, da Z.ai, ou o M3, da MiniMax, começaram a conquistar utilizadores fora do país, devido a preços mais baixos, maior eficiência e uma estratégia assente em modelos de código aberto.

Segundo o jornal britânico Financial Times, empresas como a norte-americana DoorDash, a Airbnb, a alemã Siemens e a empresa de recursos humanos Timebutler passaram a utilizar modelos chineses nas suas operações.

Em muitos casos, essas empresas continuam a recorrer aos modelos mais avançados da OpenAI ou da Anthropic para tarefas complexas, mas utilizam sistemas chineses para operações correntes, reduzindo significativamente os custos.

Nos últimos anos, Pequim transformou a IA numa prioridade nacional, canalizando investimentos para semicondutores, centros de dados, computação de alto desempenho, robótica e aplicações industriais, ao mesmo tempo que incentivou empresas e administrações locais a integrarem a tecnologia na economia.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde a competição se concentra sobretudo nas empresas que desenvolvem modelos de linguagem de fronteira, a China procura construir um ecossistema completo, desde os chips até às aplicações na indústria transformadora, logística, saúde, cidades inteligentes ou veículos autónomos.

"Uma proporção mais elevada das fábricas chinesas utiliza robótica do que nos Estados Unidos e no Ocidente", observou Kennedy, acrescentando que a IA está também a ser integrada em diversos processos empresariais que reforçam a competitividade da economia chinesa.

A capacidade de implementação em larga escala é apontada por vários analistas como uma das principais vantagens competitivas da China. Mais do que desenvolver o modelo mais poderoso, Pequim procura acelerar a utilização da IA em toda a economia, beneficiando da dimensão do mercado interno, da forte capacidade industrial e da coordenação proporcionada pelo Estado.

Kennedy considerou que os controlos às exportações de semicondutores avançados impostos por Washington não travaram a evolução tecnológica chinesa e acabaram por incentivar o desenvolvimento de alternativas nacionais.

"As restrições incentivaram fortemente os chineses a encontrar alternativas à tecnologia norte-americana e a desenvolver a sua cadeia de abastecimento doméstica, o que, a longo prazo, tornará a China mais competitiva, e não menos", afirmou.

Pequim procura igualmente ganhar influência na definição das regras internacionais para a inteligência artificial.

Na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, que arrancou hoje em Xangai, o Presidente chinês, Xi Jinping, defendeu que a IA "não deve ser dominada por um único país" e apelou ao reforço da cooperação internacional, enquanto representantes de 29 países assinaram o acordo que cria a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), um organismo intergovernamental com sede naquela cidade.

Apesar da rivalidade entre as duas maiores economias do mundo, Kennedy disse que continuam a existir áreas onde a cooperação será inevitável, referindo o mecanismo bilateral sobre inteligência artificial anunciado pelos dois países em maio.

"Há muitas áreas em que os Estados Unidos e a China têm um interesse comum em garantir que a inteligência artificial seja utilizada para o bem e não para o mal. Isso inclui os `deepfakes`, o cibercrime, a saúde, o envelhecimento e muitas outras questões", apontou. "Existem muitas oportunidades de cooperação".

 

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