Mundo
Guerra na Ucrânia
China neutra aceita desinformação e censura apelos à paz na Ucrânia
Desde o início da invasão russa da Ucrânia que a China tem assumido ser neutra, embora não esconda que o Governo russo é o "mais importante parceiro". Mas esta neutralidade de Pequim tem sido questionada, após a censura de opiniões em defesa dos ucranianos. Na prática, foi limitado o fluxo de informação dos media chineses. E foram também omitidas porções de um discurso do presidente do Comité Paralímpico Internacional. Outra das medidas entretanto tomadas foi a suspensão das transmissões da Liga Inglesa de futebol.
Na cerimónia de abertura dos Jogos Paralímpicos de Inverno em Pequim, na última sexta-feira, o presidente do Comité Paralímpico Internacional começou por deixar “uma mensagem de paz”, que não chegou à população do país anfitrião do evento.
“Esta noite eu quero - e devo - começar com uma mensagem de paz. Estou horrorizado com o que está a acontecer no mundo, neste momento. O século XXI é uma época de diálogo e de diplomacia, não de guerra e de ódio”, começou por afirmar Andrew Parsons, referindo-se ao conflito na Ucrânia.
Mas a televisão estatal chinesa CCTV censurou esta parte do discurso, em forma de apelo à paz entre Moscovo e Kiev, e não traduziu estas palavras para o mandarim, omitindo assim a mensagem ao público chinês.
E no fim de semana passado a plataforma detentora dos direitos de transmissão para a China da Liga Inglesa de futebol, a iQiyi, cancelou a emissão dos jogos, nos quais os capitães das equipas usariam braçadeiras com as cores da bandeira ucraniana.
Dias antes, a organização tinha anunciado a intenção de exibir nos ecrãs dos estádios mensagens de apoio à Ucrânia e pedir aos espectadores que fizessem um momento “de reflexão e solidariedade”, antes do início dos encontros. Desta forma, Pequim, ao cancelar a transmissão, evitou uma vez mais a difusão das mensagens em defesa da Ucrânia.
“Esta noite eu quero - e devo - começar com uma mensagem de paz. Estou horrorizado com o que está a acontecer no mundo, neste momento. O século XXI é uma época de diálogo e de diplomacia, não de guerra e de ódio”, começou por afirmar Andrew Parsons, referindo-se ao conflito na Ucrânia.
Mas a televisão estatal chinesa CCTV censurou esta parte do discurso, em forma de apelo à paz entre Moscovo e Kiev, e não traduziu estas palavras para o mandarim, omitindo assim a mensagem ao público chinês.
E no fim de semana passado a plataforma detentora dos direitos de transmissão para a China da Liga Inglesa de futebol, a iQiyi, cancelou a emissão dos jogos, nos quais os capitães das equipas usariam braçadeiras com as cores da bandeira ucraniana.
Dias antes, a organização tinha anunciado a intenção de exibir nos ecrãs dos estádios mensagens de apoio à Ucrânia e pedir aos espectadores que fizessem um momento “de reflexão e solidariedade”, antes do início dos encontros. Desta forma, Pequim, ao cancelar a transmissão, evitou uma vez mais a difusão das mensagens em defesa da Ucrânia.
O Governo chinês tem mantido uma posição ambígua em relação à invasão russa da Ucrânia, tendo, por um lado, defendido que a soberania e a integridade territorial de todas as nações devem ser respeitadas, sem deixar de se manifestar contra as sanções impostas à Rússia.
Neutralidade pró-russa?
Em recentes declarações públicas, as autoridades chinesas tentaram estabelecer uma posição aparentemente neutra sobre a guerra na Ucrânia, sem condenar as ações russas nem descartar a possibilidade de Pequim atuar como mediador num esforço pela paz.
“A China vai continuar a trabalhar com a comunidade internacional e a desempenhar um papel positivo no restabelecimento da paz. Apoiamos todos os esforços nesse sentido. A prioridade é evitar que as tensões aumentem ainda mais ou que fiquem fora de controlo. São necessários mais esforços para que a Rússia e a Ucrânia continuem a negociar e alcancem um cessar-fogo”, afirmou esta sexta-feira o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, em conferência de imprensa.
Li salientou ainda que Pequim está empenhada em ajudar “a prevenir uma crise humanitária” e que o país asiático vai continuar a cooperar com outras nações “com base no respeito mútuo”, numa referência às relações bilaterais com a Rússia, uma vez que isto “traz estabilidade ao mundo”. Mas repetindo a posição assumida pelo Governo de Xi Jinping, as sanções ocidentais contra Moscovo “vão prejudicar a economia global”, sublinhando que os esforços para manter “a estabilidade“, depois de três anos de pandemia da covid-19, são necessários neste momento.
Mas estas mensagens de neutralidade e de apelo ao diálogo e a um cessar-fogo na Ucrânia geram alguma controvérsia entre a comunidade internacional quando, paralelamente a estes discursos, as autoridades chinesas garantem que a informação que passa para a população sobre a invasão russa é bem diferente e limitada. Para uma grande maioria dos 1,4 mil milhões de habitantes na China, a ofensiva da Rússia à Ucrânia não passa de “uma operação militar especial”, os Estados Unidos estão a financiar um programa de armas biológicas desenvolvido em território ucraniano e Vladimir Putin é o agredido que defende a Rússia.
Em todas as guerras, pelo menos as ditas modernas, a propaganda e a censura são duas das principais armas entre as partes envolvidas. Mas a China, que se quis assumir como neutra, parece estar a promover a propaganda pró-russa assim como a censura de todas as versões em defesa dos ucranianos.
Os órgãos de comunicação social da China não são independentes e há muito que se sabe que não estão isentos a um certo controlo por parte do Governo. Mas a censura, hoje em dia, abrange até as redes sociais e, por isso, os utilizadores comuns. Os conteúdos acessíveis na Internet em território chinês também são de alguma forma limitados, mas quem publicar opiniões, notícias ou imagens de apelo à paz e apoio à Ucrânia, ou mesmo contra a Rússia, arrisca-se a ter as publicações eliminadas.
Desde que começou a invasão russa, a maioria dos comentários e publicações visíveis nas redes sociais chinesas – Weibo, WeChat e Douyin – são de apoio à Rússia e a Putin.
Jin Xing, uma ex-apresentadora de um programa popular na China, disse à Reuters que a sua conta no Weibo foi suspensa na semana passada, depois de ter feito duas publicações nas quais acusava Vladimir Putin de ser um “homem russo louco” e de pedir aos seguidores que “orassem pela paz”. Publicações que foram imediatamente apagadas pela própria rede social.
"Tudo o que eu disse foi que apoio a vida e me oponho à guerra, foi só isso. Eu não disse que apoio os EUA, a Rússia ou a Ucrânia", disse Jin, cuja conta tem 13,6 milhões de seguidores. "Que erro cometi eu?”.
Mas a celebridade chinesa não foi a única censurada nas redes sociais. A premiada atriz chinesa Ke Lan está impedida de publicar no Weibo "devido à violação de regras e regulamentos relevantes", de acordo com um aviso na sua conta. Lan pôs o tradicional “gosto” e partilhou imagens e comentários de oposição à guerra, incluindo fotografias de um protesto contra a invasão russa, que decorria em São Petersburgo.
“Situação ucraniana”
Depois de a Rússia ter, novamente, acusado os Estados Unidos de estarem a financiar o desenvolvimento de armas químicas na Ucrânia, a China fez eco dessa mensagem e a neutralidade voltou a ser questionada.
Ao repetir as alegações e teorias de Moscovo "a China tenta encontrar um argumento lógico para justificar o seu apoio à Rússia" sobre a invasão, disse ao jornal espanhol El País Justyna Szczudlik, do Instituto Polaco dos Assuntos Internacionais. Segundo a especialista, o discurso oficial da China “evita mencionar a Ucrânia pelo nome. Referem-se sempre ao problema ucraniano, à situação ucraniana”.
Em recentes declarações públicas, as autoridades chinesas tentaram estabelecer uma posição aparentemente neutra sobre a guerra na Ucrânia, sem condenar as ações russas nem descartar a possibilidade de Pequim atuar como mediador num esforço pela paz.
“A China vai continuar a trabalhar com a comunidade internacional e a desempenhar um papel positivo no restabelecimento da paz. Apoiamos todos os esforços nesse sentido. A prioridade é evitar que as tensões aumentem ainda mais ou que fiquem fora de controlo. São necessários mais esforços para que a Rússia e a Ucrânia continuem a negociar e alcancem um cessar-fogo”, afirmou esta sexta-feira o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, em conferência de imprensa.
Li salientou ainda que Pequim está empenhada em ajudar “a prevenir uma crise humanitária” e que o país asiático vai continuar a cooperar com outras nações “com base no respeito mútuo”, numa referência às relações bilaterais com a Rússia, uma vez que isto “traz estabilidade ao mundo”. Mas repetindo a posição assumida pelo Governo de Xi Jinping, as sanções ocidentais contra Moscovo “vão prejudicar a economia global”, sublinhando que os esforços para manter “a estabilidade“, depois de três anos de pandemia da covid-19, são necessários neste momento.
Mas estas mensagens de neutralidade e de apelo ao diálogo e a um cessar-fogo na Ucrânia geram alguma controvérsia entre a comunidade internacional quando, paralelamente a estes discursos, as autoridades chinesas garantem que a informação que passa para a população sobre a invasão russa é bem diferente e limitada. Para uma grande maioria dos 1,4 mil milhões de habitantes na China, a ofensiva da Rússia à Ucrânia não passa de “uma operação militar especial”, os Estados Unidos estão a financiar um programa de armas biológicas desenvolvido em território ucraniano e Vladimir Putin é o agredido que defende a Rússia.
Em todas as guerras, pelo menos as ditas modernas, a propaganda e a censura são duas das principais armas entre as partes envolvidas. Mas a China, que se quis assumir como neutra, parece estar a promover a propaganda pró-russa assim como a censura de todas as versões em defesa dos ucranianos.
Os órgãos de comunicação social da China não são independentes e há muito que se sabe que não estão isentos a um certo controlo por parte do Governo. Mas a censura, hoje em dia, abrange até as redes sociais e, por isso, os utilizadores comuns. Os conteúdos acessíveis na Internet em território chinês também são de alguma forma limitados, mas quem publicar opiniões, notícias ou imagens de apelo à paz e apoio à Ucrânia, ou mesmo contra a Rússia, arrisca-se a ter as publicações eliminadas.
Desde que começou a invasão russa, a maioria dos comentários e publicações visíveis nas redes sociais chinesas – Weibo, WeChat e Douyin – são de apoio à Rússia e a Putin.
Jin Xing, uma ex-apresentadora de um programa popular na China, disse à Reuters que a sua conta no Weibo foi suspensa na semana passada, depois de ter feito duas publicações nas quais acusava Vladimir Putin de ser um “homem russo louco” e de pedir aos seguidores que “orassem pela paz”. Publicações que foram imediatamente apagadas pela própria rede social.
"Tudo o que eu disse foi que apoio a vida e me oponho à guerra, foi só isso. Eu não disse que apoio os EUA, a Rússia ou a Ucrânia", disse Jin, cuja conta tem 13,6 milhões de seguidores. "Que erro cometi eu?”.
Mas a celebridade chinesa não foi a única censurada nas redes sociais. A premiada atriz chinesa Ke Lan está impedida de publicar no Weibo "devido à violação de regras e regulamentos relevantes", de acordo com um aviso na sua conta. Lan pôs o tradicional “gosto” e partilhou imagens e comentários de oposição à guerra, incluindo fotografias de um protesto contra a invasão russa, que decorria em São Petersburgo.
“Situação ucraniana”
Depois de a Rússia ter, novamente, acusado os Estados Unidos de estarem a financiar o desenvolvimento de armas químicas na Ucrânia, a China fez eco dessa mensagem e a neutralidade voltou a ser questionada.
Ao repetir as alegações e teorias de Moscovo "a China tenta encontrar um argumento lógico para justificar o seu apoio à Rússia" sobre a invasão, disse ao jornal espanhol El País Justyna Szczudlik, do Instituto Polaco dos Assuntos Internacionais. Segundo a especialista, o discurso oficial da China “evita mencionar a Ucrânia pelo nome. Referem-se sempre ao problema ucraniano, à situação ucraniana”.
“Não expressa apoio explícito à integridade territorial da Ucrânia; fala apenas em geral de respeito pela soberania e integridade territorial dos Estados”.
Mas, pelo contrário, menciona a Rússia pelo nome e repetidas vezes, continuou Szczudlik. A posição de Pequim, pelo menos verbalmente, baseou-se numa "neutralidade enviesada" de apoio a Moscovo, que depois é imitada pelos media.
Nos primeiros dias da invasão russa, a comunicação social chinesa foi muito cautelosa quando se tratava de noticiar o assunto. Enquanto que, no resto do mundo, a invasão monopolizou páginas de jornais e minutos de transmissão, os media chineses praticamente descartaram o assunto e deram prioridade a discursos de Xi Jinping ou aos Jogos Olímpicos. Além disso, nunca foram usadas expressões como “guerra” ou “invasão”, mas sim “crise” ou “operação especial”.
Entretanto, a comunicação social da China já começou a cobrir com mais intensidade o assunto, mas com um claro tom pró-russo, adianta ainda a especialista em assuntos internacionais. A CCTV chegou a partilhar nas redes sociais um noticiário da televisão russa que afirmava que o presidente ucraniano, Volodímir Zelensky, tinha fugido para a Polónia.
E, à medida que esta neutralidade vai sendo questionada, Pequim tem tentado assumir um tom menos “subjetivo no conflito”. Neste momento, a comunicação social chinesa, os sites, blogs e redes sociais não estão autorizados a realizar transmissões ao vivo ou a incluir legendas relacionadas com a guerra e “está estritamente proibido reproduzir informações estrangeiras que violem as regras”.
Mas, pelo contrário, menciona a Rússia pelo nome e repetidas vezes, continuou Szczudlik. A posição de Pequim, pelo menos verbalmente, baseou-se numa "neutralidade enviesada" de apoio a Moscovo, que depois é imitada pelos media.
Nos primeiros dias da invasão russa, a comunicação social chinesa foi muito cautelosa quando se tratava de noticiar o assunto. Enquanto que, no resto do mundo, a invasão monopolizou páginas de jornais e minutos de transmissão, os media chineses praticamente descartaram o assunto e deram prioridade a discursos de Xi Jinping ou aos Jogos Olímpicos. Além disso, nunca foram usadas expressões como “guerra” ou “invasão”, mas sim “crise” ou “operação especial”.
Entretanto, a comunicação social da China já começou a cobrir com mais intensidade o assunto, mas com um claro tom pró-russo, adianta ainda a especialista em assuntos internacionais. A CCTV chegou a partilhar nas redes sociais um noticiário da televisão russa que afirmava que o presidente ucraniano, Volodímir Zelensky, tinha fugido para a Polónia.
E, à medida que esta neutralidade vai sendo questionada, Pequim tem tentado assumir um tom menos “subjetivo no conflito”. Neste momento, a comunicação social chinesa, os sites, blogs e redes sociais não estão autorizados a realizar transmissões ao vivo ou a incluir legendas relacionadas com a guerra e “está estritamente proibido reproduzir informações estrangeiras que violem as regras”.