Cimeira de Xi e Trump testa trégua frágil entre rivalidade e risco global
O encontro entre os Presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, na quinta e sexta-feira em Pequim, é essencialmente um exercício de contenção estratégica, com ambições limitadas, mas implicações potencialmente vastas.
Para analistas contactados pela Lusa, a primeira visita de um Presidente norte-americano à China em quase uma década é vista como uma "cimeira de gestão de risco", sobretudo destinada a evitar uma deterioração abrupta das relações entre as duas maiores potências mundiais.
Kate Dennis, especialista em relações internacionais do Hunter College, em Nova Iorque, disse à Lusa considerar que Trump chega a Pequim "fragilizado externamente e muito pressionado internamente".
Ou, pelo menos, Trump está "sem uma agenda suficientemente sólida para equilibrar esses problemas" e sente que vai sentar-se ao lado de Xi numa posição bem mais frágil do que aquela que desejava para repetir os "velhos truques de vendedor imobiliário", acrescentou.
Já Maximillian Fuchs, do instituto Bruegel, com sede em Bruxelas, disse à Lusa que Pequim olha para esta reunião como uma oportunidade para estabilizar a relação com Washington e testar se Trump está disposto a manter a promessa de diálogo assumida após a trégua tarifária de outubro.
Num contexto marcado pela guerra no Irão, pela fragilidade da trégua comercial e por uma crescente rivalidade tecnológica, o encontro vai testar se a atual `détente`, negociada em outubro após tarifas momentâneas superiores a 100%, pode sobreviver a novas pressões políticas e económicas.
Em foco vão estar os chamados quatro "T" - `Trade` (comércio), `Technology` (tecnologia), Teerão e Taiwan - e do lado norte-americano, a prioridade imediata é económica.
Trump procura regressar a Washington com resultados tangíveis que possam ser apresentados ao eleitorado antes das intercalares de novembro, nomeadamente compromissos chineses de compra de produtos agrícolas, energia e aeronaves, bem como avanços no mecanismo de cooperação económica conhecido como "Board of Trade".
A lógica é simultaneamente económica e política: reduzir o défice comercial, reforçar a narrativa de independência económica e demonstrar capacidade negocial num contexto de competição global.
Ao mesmo tempo, Washington pretende pressionar Pequim em temas estratégicos, incluindo o apoio económico da China ao Irão e, de forma mais discreta, o papel no esforço de guerra russo na Ucrânia.
"Não devemos esperar avanços substanciais. Trump desloca-se a Pequim fragilizado externamente e muito pressionado internamente. Mas, claramente, sem uma agenda que equilibre estes problemas", resumiu Kate Dennis, refletindo um consenso alargado entre analistas de que o melhor desfecho será a manutenção da atual trégua.
O Presidente norte-americano chega a Pequim com um baralho de cartas marcadas e a temer que os trunfos estejam do lado chinês, disse.
Para a China, a estratégia é mais estrutural e paciente, procurando estabilidade, previsibilidade e ganhos incrementais, apostando numa abordagem que combina pragmatismo económico com firmeza geopolítica.
As prioridades passam por prolongar a trégua tarifária, obter algum alívio nas restrições tecnológicas, sobretudo no acesso a semicondutores avançados, e garantir que Washington não altera significativamente a posição sobre Taiwan.
"Para a China, é fundamental que Trump honre a promessa de diálogo. Pequim aposta em alguma estabilidade de relação com Washington, até para sossegar os principais aliados", explicou Fuchs.
Fuchs considerou que, mais do que concessões imediatas, Pequim pretende consolidar a imagem de potência responsável e previsível, contrastando com uma perceção de volatilidade da política externa norte-americana.
Para Xi, a visita oferece também dividendos internos: legitimação externa, demonstração de resiliência face à guerra comercial e reforço da narrativa de que a China joga "a longo prazo", enquanto os Estados Unidos enfrentam ciclos eleitorais.
Ainda assim, a guerra no Irão surge como principal fator de incerteza e qualquer escalada militar no Golfo durante a cimeira pode tornar politicamente inviável qualquer entendimento.
Para Kate Dennis, Washington pretende que Pequim utilize a sua influência para moderar Teerão e ajudar a reabrir o estreito de Ormuz, vital para o abastecimento energético global.
Mas a China, principal importadora de petróleo iraniano, tem mostrado relutância em alinhar com a estratégia norte-americana, defendendo uma posição de equilíbrio.
"Este é talvez o conflito que mais acrescenta uma dimensão de pressão mútua", disse Fuchs.
Outro ponto crítico é Taiwan, o dossier mais sensível da relação bilateral, já que Pequim insiste que a questão "não pode ser evitada" e procura sinais, mesmo que subtis, de redução do apoio norte-americano à ilha.
Washington, por seu lado, enfrenta fortes constrangimentos internos que limitam qualquer alteração visível da sua posição.
Também a guerra tecnológica continua a dividir os dois países.
As restrições norte-americanas à exportação de semicondutores e a utilização chinesa de terras raras como instrumento de pressão ilustram uma dinâmica de valorização das cadeias de valor, que deverá persistir independentemente de eventuais acordos pontuais e, neste quadro, os efeitos da cimeira deverão sentir-se muito para além da relação bilateral.
Sobre a guerra na Ucrânia, Washington poderá testar a disposição chinesa para limitar o apoio indireto à Rússia, embora sem expectativas de mudanças significativas.
No Médio Oriente, qualquer coordenação mínima entre as duas potências poderá contribuir para aliviar a crise energética global, mas os analistas consultados pela Lusa foram unânimes a considerar improvável um entendimento pacífico.
Na Europa, o encontro é acompanhado com cautela.
Bruxelas teme que eventuais concessões comerciais entre Washington e Pequim possam desviar fluxos comerciais e penalizar exportadores europeus, ao mesmo tempo que um aumento das compras chinesas de energia norte-americana poderá pressionar os preços globais.
Para a economia mundial, o impacto dependerá sobretudo do sinal político que sair desta cimeira.
Um prolongamento da trégua comercial poderá reduzir a incerteza e estabilizar mercados, em particular nos setores agrícola, energético e industrial, mas a tendência de fundo, de afastamento gradual entre as duas economias, deverá manter-se.
Num sistema internacional cada vez mais fragmentado, a possibilidade de diálogo sem agravar tensões entre as duas maiores potências pode ser considerado um sucesso, ou como resumiu Dennis, "num tempo de volatilidade global, um não evento pode ser o melhor resultado possível".