Como funciona o medo social perante o hantavírus? A marca emocional e traumática deixada pela covid

Como funciona o medo social perante o hantavírus? A marca emocional e traumática deixada pela covid

A "memória coletiva da pandemia" gera receios na sociedade, mais devido à memória do que aconteceu do que por causa da situação real.

Um Olhar Europeu com RTVE /
Antony Dickson / AFP



Especialistas em sociologia e psicologia explicam como surge um medo por vezes irracional e alertam para outro grande vírus: a desinformação.

Vírus, confinamento, quarentena, contágio, PCR... são algumas das palavras que voltaram aos noticiários devido ao surto de hantavírus no navio de cruzeiro Hondius, que fez três mortos e quase uma dezena de infetados. 

Ouvi-las de novo levou a sociedade a suster a respiração, pelo menos nos primeiros momentos de dúvida, mais pela memória do que a pandemia do coronavírus significou nas nossas vidas do que por um perigo real e justificado para a saúde pública.

Esta é a principal conclusão de especialistas em psicologia e sociologia, que explicam como a sociedade é afetada por esta memória coletiva pandémica que nos mostrou, ensinou e obrigou a uma nova forma de viver - confinados e isolados -, de nos relacionarmos - sem contacto, sem beijos, sem abraços e com máscaras pelo meio -, de chorar a morte de um ente querido - sem poder dizer adeus - e, em suma, uma nova forma de encarar a própria vida.

Tudo isto num contexto de extrema vulnerabilidade face a uma pandemia global que chegou sem alerta e deixou mais de 22 milhões de mortos, segundo dados divulgados esta semana pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

A OMS tem sido responsável por repetir uma mensagem clara durante estes dias - "não se trata de outra covid"- consciente de que na mente de todos a memória do que foi o coronavírus é recorrente, inevitável e gera um alarme por vezes difícil de controlar.Como atua o medo perante a memória? "Quando vivemos uma experiência traumática coletiva como a que vivemos durante a pandemia, que envolveu confinamento e isolamento severos, deixa uma marca emocional que condiciona a nossa perceção do risco muitos anos mais tarde, e é mais do que normal que o medo e a incerteza surjam face a este surto, mesmo antes de conhecermos a sua extensão", diz a psicóloga da saúde Silvia Álava à RTVE Noticias.

"O medo permite-nos estar vivos e funciona como um sistema de sobrevivência, é uma resposta adaptativa dos seres humanos que ajuda a antecipar os riscos, a aumentar a vigilância. Senti-lo é normal, mas o problema surge quando não sabemos como lidar com ele, quando se torna contagioso a nível emocional e é difícil discernir entre o que tem validade científica e o que não tem", acrescenta.

Cristina Ait-Chaib é psicóloga especializada em crises e catástrofes e explica à RTVE Noticias que, apesar de existirem provas científicas claras que diferenciam o coronavírus do hantavírus, quando a sociedade deteta uma potencial ameaça à saúde e ao bem-estar "que pode ou não ser real", ocorre o chamado "sequestro da amígdala" ou, por outras palavras, a nossa parte mais racional é "sequestrada" pela nossa parte mais primitiva, o que nos faz perder o controlo em situações de stress emocional.

"Impede o raciocínio lógico e racional sobre o que se está a passar e faz com que o nosso lado mais analítico e crítico não consiga lidar com o problema que estamos a enfrentar", explica.

O sociólogo Jordi Busquet afirma que o que vivemos durante a pandemia foi um "verdadeiro choque" para a sociedade, que marcou um antes e um depois nas nossas vidas e criou uma nova perspetiva sobre as coisas, "nem sempre para melhor".

"O medo é uma emoção muito intensa e pode ter um aspeto positivo, porque se tivermos medo preparamo-nos para o pior. Na história da evolução humana, o medo ajudou-nos a sobreviver e a ultrapassar situações difíceis, mas temos de ter cuidado porque o medo também paralisa, gera desconforto e tem uma componente muito importante de contágio e disseminação", afirma, para lançar uma mensagem de alerta: "Uma sociedade que vive numa situação de medo constante é uma sociedade muito manipulável porque o medo é muito irracional e não se consegue controlá-lo".

Até agora, os casos de hantavírus têm sido circunscritos ao navio de cruzeiro Hondius, mas a sociedade assistiu com apreensão aos primeiros testes PCR de pessoas com sintomas que não tinham sido contactos próximos. Os resultados negativos foram tranquilizadores.

Os especialistas entrevistados concordam que a memória pandémica que já temos altera o significado das coisas e que algumas palavras completamente neutras, como "máscara", têm agora uma nova componente e desencadeiam memórias muito duras na sociedade.Lutos mal resolvidos Ángel Terrón perdeu um familiar próximo durante a pandemia e criou uma plataforma de apoio a familiares e vítimas, que ainda tem um grupo ativo no Whatsapp. É psicólogo e utilizou os seus conhecimentos para apoiar aqueles que passaram por momentos difíceis durante o pior da pandemia. Conta à RTVE Noticias como, especialmente durante os primeiros momentos deste surto de hantavírus e quando havia dúvidas sobre o seu alcance, este chat foi reativado com mensagens que deixam claro que as memórias e o medo permanecem na sociedade.

Nesse grupo, falou-se quase mais sobre a pandemia de covid e o que fez à vida das pessoas do que sobre a realidade atual.

Este psicólogo explica que há lutos que não se puderam realizar - "lutos mal resolvidos" - que continuam a gerar consequências psicológicas importantes nas pessoas que não puderam enterrar e despedir-se dos seus entes queridos.

Mas, para além destas queixas individuais, os especialistas apontam também para o facto de o luto coletivo da sociedade face a uma pandemia de tal magnitude não ter sido bem feito.

Neste sentido, Terrón afirma que "voltámos rapidamente ao mundo e não trabalhámos a nível emocional, não gerimos os efeitos que a pandemia tinha tido em nós. Queríamos tanto voltar a viver que quisemos virar a página rapidamente. A desinibição prevaleceu e saímos para a rua sem a gerir, e agora, à mínima suspeita de que algo semelhante possa acontecer, começamos a tremer".

"Ait-Chaib concorda e diz que a "exaustão e a sobrecarga" causadas pelo coronavírus "contribuíram para que tudo aquilo por que passámos não fosse devidamente processado" e quase se tornasse um "assunto tabu". "Isto agora encoraja a propagação deste medo porque não foi bem resolvido", acrescenta a psicóloga.Idade e personalidade influenciam o medo Além disso, os traumas e os medos não são iguais para todas as pessoas, dependem da idade, da personalidade e das experiências vividas durante a covid.

Não é a mesma coisa para a pessoa que reage com hiper-relaxamento e decide colocar uma máscara desnecessariamente ou cancelar uma viagem sem uma justificação real, ou para a pessoa que evita, minimiza qualquer risco e até se recusa a reconectar com o que viveu.

Os especialistas explicam que quando uma palavra - hantavírus - desencadeia os nossos medos, estes variam. Assim, uma pessoa que esteve doente durante a pandemia teme novamente a doença; um adolescente preocupa-se com um novo confinamento porque o confinamento marcou essa geração de uma forma especial; uma pessoa mais velha pode pensar diretamente na morte, e alguém que vive num lar de idosos pode reviver o horror vivido nesses espaços durante o confinamento. Mais uma vez, o medo atual é mais influenciado pelas sensações do passado do que pela realidade do presente.

Busquet explica como a pandemia intensificou na sociedade de uma forma "espetacular" "a necessidade de sair, de viajar, de encher estádios em concertos, de partilhar experiências, momentos e lugares". "A experiência do confinamento foi muito dura para os adolescentes e jovens e deixou a sua marca", afirma.Desinformação e notícias falsas: outro vírus potente O sociólogo explica que "a sociedade vive mal em situações de mudança e de incerteza" e o desconhecimento do alcance do que está a acontecer e das suas consequências "deixa-nos nervosos e pedimos à ciência respostas rápidas, definitivas e imediatas, e às vezes a ciência precisa de tempo". "Neste lapso de tempo e no meio de situações de incerteza ou de caos, a indústria das 'fake news' funciona muito rapidamente", lamenta.

A opinião é unânime entre os especialistas, que estão preocupados com outro grande vírus do nosso tempo: a desinformação e as notícias falsas.

VerificaRTVE tem vindo a recolher boatos desde o início da crise do hantavírus, desde falsas restrições e encerramentos de escolas inexistentes em França a notícias falsas sobre vacinas e fotografias falsas que apenas servem para alarmar a sociedade.

"A informação é muito polarizada, por vezes formada através de rumores nas redes sociais, vídeos virais e títulos alarmistas. E é aqui que ocorre o viés de confirmação, em que o nosso cérebro seleciona informações que apenas confirmam uma hipótese que já estamos a criar. Há tanta desinformação de um lado ou de outro que ouvimos e vemos apenas o que queremos", diz Silvia Álava.

"A gestão do ponto de vista da informação e dos líderes políticos vai condicionar muito a forma como processamos e nos adaptamos enquanto sociedade a esta crise e, neste ponto, temos de apelar à responsabilidade de todos nós", acrescenta Cristina Ait-Chaib.

María Menéndez / 15 maio 2026 06:05 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
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