Confinamento em Xangai. China acusa EUA de usarem retirada de norte-americanos como arma

Confinamento em Xangai. China acusa EUA de usarem retirada de norte-americanos como arma

Pequim está a condenar Washington por ter ordenado aos funcionários do Consulado norte-americano que abandonassem a cidade de Xangai, onde novos surtos de covid-19 estão a fazer regressar apertadas restrições. A China acredita que os Estados Unidos estão a usar a retirada de cidadãos como "arma" para atacar o país.

Joana Raposo Santos - RTP /
O Departamento de Estado dos EUA ordenou a retirada de pessoal não essencial do consulado de Xangai. Aly Song - Reuters

Foi na segunda-feira que o Departamento de Estado dos EUA ordenou a partida dos funcionários não essenciais e respetivas famílias de Xangai, cidade de 25 milhões de pessoas que serve de centro financeiro da China.

Em causa está “um aumento dos casos de covid-19 e o impacto das restrições impostas pela China”, escreveu o Departamento num comunicado, pouco depois de ter autorizado a “partida voluntária” dos seus funcionários em Xangai.

Washington publicou também um aviso a aconselhar todos os americanos a evitarem viagens para território chinês, invocando restrições que incluem “o risco de pais e filhos serem separados”.

Agora, o Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros notificou os Estados Unidos, dizendo “opor-se firmemente” à ordem do Consulado. Desde 1 de março foram registados mais de 320 mil casos em 31 províncias chinesas depois de um surto que começou em Xangai.

“Expressamos forte insatisfação com o facto de os EUA politizarem [a situação] e usarem a retirada dos seus funcionários como arma”
, declarou na terça-feira o porta-voz do Ministério, Zhao Lijian.

O responsável considerou que os EUA estão a “manchar a China” e assegurou que as políticas de controlo e prevenção da covid-19 “são eficazes e baseadas em dados científicos”, pelo que o Governo “está muito confiante de que conseguirá controlar a nova onda de infeções”.
Surto estendeu-se a 30 províncias chinesas
As declarações de Zhao Lijian contrastam, porém com as de outros responsáveis chineses, incluindo o vice-diretor da Comissão Nacional de Saúde da China, Lei Zhenglong, que na terça-feira alertou que o surto em Xangai “não está a ser contido”.

Só na segunda-feira, essa cidade chinesa registou mais de 26 mil novos casos de transmissão local, ultrapassando pelo sexto dia consecutivo a barreira dos 20 mil contágios, segundo dados da Comissão Nacional de Saúde.

Segundo Lei Zhenglong, o surto que começou em Xangai já se espalhou por mais de 30 províncias chinesas e o número de infeções deve manter-se elevado nos próximos dias.
Habitantes de Xangai em desespero por comida e medicamentos
Aquela que é a mais populosa cidade da China está desde 29 de março em confinamento, com muitos habitantes a reportarem dificuldades no acesso a bens essenciais, como comida e medicamentos.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram protestos num complexo residencial de Xangai na semana passada, com manifestantes a entrarem em confronto com a polícia e a gritarem desde os portões fechados: “Deem-nos mantimentos”.

Um outro vídeo revela uma mãe em aparente desespero a pedir a vizinhos medicação para o seu filho. “Têm medicação para a febre? Está alguém em casa? Estão acordados?”, pergunta a mulher, em imagens gravadas de madrugada.

Desde o início da pandemia que a China apertou as regras para a compra e venda de medicação para a febre, exigindo uma prescrição médica e um teste negativo à covid-19.

Têm também vindo a público relatos de pais que dizem ter sido separados dos seus filhos infetados com covid-19, incluindo crianças pequenas, devido às restritivas políticas chinesas para o controlo da doença.

Um habitante contou que o seu cão foi abatido pelas autoridades sanitárias, sem aviso prévio, depois de o dono ter sido colocado em quarentena.

c/ agências
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