Conselho do CERN mandata direção para estudar viabilidade de acelerador de 100 quilómetros
O Conselho do CERN mandatou hoje a direção do laboratório europeu de física de partículas, na Suíça, para estudar a viabilidade de um novo acelerador, um túnel circular de 100 quilómetros, indicou à Lusa o delegado português na organização.
O Conselho do CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear) reuniu-se hoje remotamente, por causa da pandemia da covid-19, para aprovar a atualização da Estratégia Europeia para a Física de Partículas.
No Conselho do CERN, órgão máximo da organização formado por delegados de 23 Estados-Membros, Portugal está representado pelo presidente do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), Mário Pimenta.
Em declarações à Lusa, o presidente do LIP disse que, ao aprovar a atualização da Estratégia Europeia para a Física de Partículas, o Conselho do CERN mandata a direção da organização/laboratório europeu de física de partículas para estudar nos próximos cinco anos a viabilidade técnico-financeira da construção de um novo acelerador de partículas, com mais energia e maior do que o atual, o LHC, considerado o maior acelerador de partículas do mundo.
Findos os cinco anos, os estados-membros do CERN terão de decidir se o novo acelerador, um túnel circular de 100 quilómetros, mais 73 quilómetros do que o LHC, avança ou não, adiantou Mário Pimenta.
Segundo o presidente do LIP, ficaram hoje assentes as prioridades para o futuro da física de partículas na Europa, para lá de 2036, e que passam por estudar com maior precisão o bosão de Higgs, partícula elementar descoberta em 2012 com experiências feitas no acelerador LHC, e por explorar a mais alta energia possível, que permita descobrir novas partículas e, desta forma, desvendar mais sobre a composição do Universo, que se terá formado há 13,8 mil milhões de anos.
Mário Pimenta assinalou que "a maior parte da energia do Universo", a chamada energia escura, que estará na origem da expansão acelerada do Universo, "não é suportada pelas partículas" subatómicas que são conhecidas.
Por outro lado, a matéria escura, a que é inferida pelo efeito gravitacional sobre a matéria visível, como galáxias e estrelas, terá partículas pesadas, com mais massa.
Ao elevar-se a energia de um acelerador de partículas, abre-se o caminho para se produzir partículas com maior massa, de acordo com Mário Pimenta.?
Juntas, a matéria escura e a energia escura, postuladas nas teorias físicas, formam 95% do Universo. Os restantes 5% correspondem à matéria visível, a que é explicada pelo Modelo-Padrão da física de partículas, confirmado em experiências feitas no LHC.
Justificando a importância da construção de um novo acelerador, para funcionar com 10 vezes mais energia do que o LHC, o presidente do LIP enfatizou que a descoberta do que é feita a matéria escura do Universo trará "mais conhecimento" e irá "mudar a visão do mundo".
O maior acelerador de partículas do mundo, o LHC (Large Hadron Collider, Grande Colisionador de Hadrões), começou a funcionar há cerca de 12 anos.
O desempenho do LHC, onde circulam protões a uma velocidade próxima da luz que depois chocam a uma energia elevadíssima, vai ser melhorado para que possa produzir, em alta luminosidade, mais colisões por segundo a partir de 2026, e durante sensivelmente 10 anos.
A partir de 2040, segundo Mário Pimenta, será preciso assegurar um novo acelerador de partículas, que, nos primeiros dez anos de funcionamento, possa ser uma verdadeira "fábrica de Higgs", que permita gerar, colidindo positrões com eletrões, bosões de Higgs em grande quantidade e medir as suas propriedades com grande precisão.
Depois, o acelerador seria adaptado para colidir novamente protões, a uma energia ainda mais elevada, a partir de 2050.
A tecnologia da física de partículas, com recurso a feixes de protões, tem sido utilizada em vários países no tratamento de determinados cancros, estando o seu uso a ser delineado em Portugal, com a instalação de duas máquinas, uma em Loures e outra em Coimbra.