Construtora chinesa garante legalidade de contratos milionários emAngola
A empresa de construção chinesa sob suspeita de corrupção, após ter conquistado contratos milionários em Angola, defendeu hoje a legalidade dos acordos e garantiu ter capacidade de produção suficiente, admitindo no entanto recorrer à subcontratação.
A Zhejiang Hangxiao Steel Structure garantiu em comunicado que a empresa tem uma capacidade de produção total de 680 mil toneladas e lembrou que os contratos assinados com Angola admitem subcontratos.
"A empresa espera examinar o trabalho preparatório de seis locais de construção em Angola em meados de Abril", disse Zhou Jinfa, presidente da empresa de construção chinesa, segundo o comunicado a que a Agência Lusa teve acesso em Pequim.
"Isto não é nenhuma piada internacional", acrescentou o responsável.
A Hangxiao Steel anunciou a 13 de Março um contrato de 34,4 mil milhões de renminbis (3,35 milhões de euros) para a venda de produtos e prestação de serviços de construção de casas estatais em Angola.
Esta empreitada envolve a venda de 3,3 milhões de toneladas de aço a Angola enquanto, segundo os especialistas do sector, a empresa chinesa terá produzido apenas 300 mil toneladas em 2006 com um volume de negócios de 1,5 mil milhões de renminbi (147 milhões de euros).
No comunicado, Zhou Jinfa desvaloriza a diferença entre os dois valores, afirmando que a fábrica da Hangxiao Steel tem capacidade para 680 mil toneladas e os contratos com Angola permitem a subcontratação.
A Comissão Reguladora do Mercado de Valores (CRMV) da China revelou segunda-feira ter a Hangxiao Steel Structure debaixo de suspeita após as acções da empresa, cotadas na bolsa de Xangai, terem subido 60 por cento, valorizando em seis dias consecutivos o máximo de 10 por cento permitido pela China numa sessão bolsista.
A CRMV suspeita, entre outras coisas, de "insider trading", ou uso de informação privilegiada no mercado financeiro, porque a subida diária das acções decorreu nos seis dias imediatamente anteriores ao anúncio do contrato milionário em Angola.
O presidente da Hangxiao garantiu hoje que nenhum dos directores e administradores da empresa estão envolvidos no caso de especulação bolsista, acrescentando que a empresa também quer saber quem beneficiou com a operação ilegal.
"As conversações [com a China International Fund, empresa parceira de Hong Kong que mediou o negócio entre a construtora de Zhejiang e o governo angolano] foram longas e envolveram muitos responsáveis empresariais, sendo por isso difícil garantir a discrição antes do anúncio oficial", disse ainda Zhou Jinfa.
A Hangxiao Steel queixou-se numa nota enviada segunda-feira à bolsa de valores de Xangai que a China International Fund, a empresa de Hong Kong que mediou o negócio entre a construtora de Zhejiang e o governo angolano, se recusou a adiantar detalhes sobre projecto antes da assinatura do contrato.
A China International Fund assinou um contrato de Construção, Aquisição e Equipamento com o governo angolano para a realização de diversas obras públicas, tendo depois subcontratado a Hangxiao Steel.
Cada vez mais empresas chinesas estão a ganhar negócios com entidades estatais em África, especialmente nos países menos desenvolvidos do continente mas com grandes recursos naturais.
Uma fonte do sector da construção civil manifestou na segunda- feira à Agência Lusa em Pequim cepticismo quanto à capacidade da Hangxiao Steel para conquistar e cumprir um contrato de valores tão elevados como o contrato em Angola.
"A Hangxiao Steel não deixa de ser uma empresa de província, como é que tem capacidade para estar a jogar numa divisão onde se lidam com valores como os que eles anunciaram para o contrato em Angola?", disse a mesma fonte à Agência Lusa.
O jornal económico oficial chinês "China Business Journal", considerou, citando um especialista anónimo do sector, que o negócio da Hangxiao Steel em Angola é como "uma cobra a engolir um elefante".
Angola ultrapassou em 2006 a África do Sul como o maior parceiro comercial da China em África, com um comércio bilateral superior a 11,8 mil milhões de dólares (8,8 mil milhões de euros) durante o ano, com Angola a ser o segundo maior fornecedor de petróleo à China, depois da Arábia Saudita, A China, através do Banco de Exportações e Importações concedeu a Angola, nos três últimos anos, empréstimos de 4,4 mil milhões de dólares (3,3 mil milhões de euros), que permitiram a Luanda ignorar as condições de transparência e boa governação exigidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para a atribuição de crédito ao país.