Contra "lei da selva" de Trump, China deseja aproximar-se da União Europeia
Pequim classifica como "injustificadas" as taxas alfandegárias norte-americanas sobre produtos chineses. Criticando a "lei da selva" do atual cenário internacional, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros considera que existem "mais razões do que nunca" para que se mantenha uma boa relação entre a China e a União Europeia.
"A China, movida por um espírito humanitário, prestou ajuda aos Estados Unidos em várias ocasiões. Os Estados Unidos não devem responder com ingratidão e muito menos com a imposição de taxas injustificadas", afirmou Wang Yi, esta sexta-feira, em conferência de imprensa, à margem da sessão plenária da Assembleia Popular Nacional, o órgão máximo legislativo da China.
O ministro criticou os impostos de 20 por cento sobre os produtos chineses, alegando que são “arbitrários”, e alertou que, com as políticas “América primeiro” de Donald Trump, o mundo pode ficar sob a “lei da selva”. Wang Yi condenou ainda o comportamento “dissimulado” de Washington e garantiu que Pequim vai “contrariar firmemente” a pressão norte-americana.“Nenhum país deve pensar que pode pressionar a China e manter boas relações”, declarou o governante, acrescentando que as grandes potências “não devem guiar-se pelos lucros nem intimidar” os outros países, numa crítica dirigida à Administração Trump.Considerando o panorama internacional, Wang Yi referiu-se às relações com a União Europeia como conciliatórias, sublinhando que a Europa é um parceiro comercial importante para a China e que Pequim receia que estes laços tenham sido afetados devido à guerra na Ucrânia.
"A China continua a ter confiança na Europa. As duas partes têm a capacidade e a sabedoria para resolver adequadamente os problemas existentes através de consultas amigáveis", afirmou Wang Yi, na mesma conferência de imprensa, esta sexta-feira.
Recordando que se assinalam este ano cinco décadas desde o estabelecimento das relações diplomáticas entre a China e a UE, Wang Yi disse que "a experiência mais valiosa é o respeito mútuo, a força motriz mais poderosa é o benefício mútuo e o consenso mais consistente é o multilateralismo".
O chefe da diplomacia chinesa recordou que o presidente chinês, Xi Jinping, afirmou, em janeiro, depois de falar com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, que "quanto mais grave e complicada é a situação internacional mais a China e a Europa devem reforçar a comunicação estratégica e melhorar a confiança mútua".
Nas últimas semanas, alguns analistas mencionaram a possibilidade de uma aproximação entre a China e a Europa face à clivagem entre o bloco continental e os Estados Unidos na sequência do regresso de Donald Trump à Casa Branca. Com países em todo o mundo a serem impactados com a presidência de Trump, Wang garantiu que a China era um país de estabilidade.
“Estamos a viver num mundo turbulento e em mudança”, disse, acrescentando que a China poderia trazer “certeza a este mundo incerto”.
Isto embora persistam fricções comerciais significativas entre Bruxelas e Pequim sobre questões como os veículos elétricos chineses, sobre os quais a UE impôs taxas alfandegárias adicionais em 2024.