Cristãos da Terra Santa denunciam aumento de violência e pressão na região
Representantes de diferentes comunidades cristãs da Terra Santa denunciaram hoje um aumento do assédio, da violência e da pressão sobre cristãos em Israel, Jerusalém Este e Cisjordânia ocupada, situação que, alertaram, está a impulsionar a emigração de famílias.
"Sentimo-nos órfãos", resumiu o coordenador do Fórum de Cristãos da Terra Santa, Wadie Abunasar, durante uma sessão informativa realizada em Jerusalém Este.
O politólogo palestiniano de nacionalidade israelita denunciou que os cristãos em Israel enfrentam desafios multidimensionais, que incluem uma resposta policial insuficiente perante agressões e crimes de ódio, a falta de atenção da liderança política israelita e o esquecimento da comunidade internacional.
Abunasar alertou ainda que um número crescente de famílias cristãs está a abandonar o país devido à deterioração das condições de vida e ao aumento do assédio.
Na mesma linha, a diretora do Centro Inter-religioso Rossing para a Educação e o Diálogo (JCJCR), Hana Bendcowski, apresentou um relatório que documenta 155 incidentes contra cristãos em território israelita em 2025, entre estes "61 agressões físicas, 52 ataques contra propriedades eclesiásticas, 28 casos de assédio e 14 atos de vandalismo de sinais" com conteúdo cristão.
Segundo o relatório, os ataques afetam especialmente os membros do clero, que denunciam cuspidelas, insultos e assédio quotidiano, o que gera entre os cristãos a perceção de serem cidadãos cada vez menos aceites e põe em questão a viabilidade futura das suas comunidades.
Bendcowski assinalou ainda que uma sondagem realizada pela sua organização deteta níveis mais elevados de intolerância para com o cristianismo entre os setores mais jovens e religiosos da população judia israelita, embora tenha sublinhado que a maioria da sociedade "não participa" e "condena" este tipo de conduta.
O pároco católico de Taybe, Bashar Fawadleh, alertou sobre agressões sistemáticas de colonos israelitas na Cisjordância ocupada, de maioria cristã.
Os ataques incluem incêndios provocados, roubo de gado, danos às culturas e restrições de acesso a terras agrícolas e olivais, principal fonte económica da vila.
Além disso, Fawadleh assegurou que cerca de 15 famílias, aproximadamente 80 pessoas, já abandonaram a localidade devido a uma situação que considerou cada vez mais insustentável.
Por sua vez, o presidente do Clube da União Árabe Ortodoxa de Jerusalém, Hani Bulata, denunciou a invisibilidade da comunidade cristã ortodoxa palestiniana e a pressão que enfrenta em diferentes âmbitos da vida religiosa e social.
Bulata referiu ainda o incidente registado no passado dia 11 de abril durante a celebração do Fogo Sagrado na igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém, quando milhares de fiéis congregaram-se para participar num dos principais rituais da Semana Santa ortodoxa, num contexto marcado pelas restrições decorrentes do conflito com o Irão.
Naquela ocasião, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Autoridade Nacional Palestiniana denunciou agressões policiais israelitas contra fiéis e `scouts` palestinianos, bem como obstáculos nos acessos à basílica, factos que qualificou como uma violação do statu quo dos locais sagrados e da liberdade de culto.
O número de cristãos em Israel aumentou desde a criação deste Estado, até aos aproximadamente 180.000 cidadãos atuais, mas a proporção que representam na sociedade continua estagnada em 2%.
A situação é ainda mais extrema em Jerusalém Este ocupado, que neste período passou de 50% para menos de 2%; ou em Belém, local do nascimento de Jesus, que caiu de 80% para 10%.