Declaração unilateral de independência também suscita divisões entre eurodeputados portugueses
Estrasburgo, França, 20 Fev (Lusa) - A declaração unilateral de independência do Kosovo suscita divergências entre as forças políticas portuguesas representadas no Parlamento Europeu, com PCP e Bloco de Esquerda a defenderem que Portugal não deve reconhecer a independência.
Para Edite Estrela, líder da delegação do PS, "Portugal vai certamente reconhecer a independência do Kosovo, mas obviamente que o deve fazer atendendo à posição da União Europeia", um assunto que estará hoje à tarde em debate no hemiciclo de Estrasburgo.
"Não pode haver diferentes momentos, muito desfasados no tempo, em que cada um dos Estados-membros reconheça a independência do Kosovo. Deve haver uma posição concertada e tendo em conta a legislação de cada país", defendeu.
Já o coordenador da delegação do PSD, Carlos Coelho, realça que "teria sido desejável que o processo de independência tivesse sido negociado, pois uma declaração unilateral é sempre algo a evitar, até pelo efeito de imitação que pode provocar noutros", e Portugal "não deve estar na primeira linha" de países a reconhecer a independência, já que "qualquer precipitação é nociva".
Comentando a falta de uma posição comum entre os 27 - alguns Estados-membros já anunciaram que não reconhecerão o Kosovo -, Carlos Coelho diz tratar-se de "mais uma prova de que não há uma verdadeira política externa e de segurança comum" na UE, pois "os interesses nacionais prevalecem sempre em situações delicadas" como esta.
Para José Ribeiro e Castro, "Portugal deve reconhecer (o Kosovo), em articulação com os outros Estados-membros da UE", e embora compreenda "os sentimentos do povo sérvio", o eurodeputado considera a declaração de independência "uma evolução inevitável".
"O que desejo é que possa contribuir para a estabilidade na região. É indispensável que as autoridades do Kosovo respeitem a democracia e os direitos da minoria sérvia, e não se assista às tensões étnicas que caracterizaram o desmantelar da antiga Jugoslávia, e é também indispensável que isto não entrave, e venha mesmo facilitar, a aproximação quer do Kosovo, quer, sobretudo, da Sérvia à UE", disse.
Já os deputados do PCP e Bloco de Esquerda defendem que Lisboa não deve reconhecer a declaração de Pristina.
A deputada comunista Ilda Figueiredo considera que a declaração unilateral "não respeita o direito internacional e a resolução da ONU, não tem em conta os vários problemas que podem surgir na UE, e, sobretudo, não respeita toda a situação que se vive na zona dos Balcãs e pode ser mais um foco de instabilidade".
Para Miguel Portas, do Bloco de Esquerda, Portugal não deve reconhecer a independência e, defendendo que se deveria ter investido mais em busca de um compromisso que "não mexesse nas fronteiras" - "o que nos Balcãs é uma promessa de problemas mais tarde" -, lamentou que este tenha sido o "último acto" de "um processo alimentado pelos Estados Unidos e caucionado pelo silêncio europeu".
"A UE seguiu atrás e vai-lhe competir, "para não variar", pagar a factura da política dos outros", concluiu.
ACC.