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Depois de ganhar o país, Filipe Nyusi ganhou o partido

Depois de ganhar o país, Filipe Nyusi ganhou o partido

Maputo, 29 mar (Lusa) - Filipe Nyusi foi hoje eleito líder da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), cinco meses depois de ter ganho o país, nas eleições gerais de outubro.

Lusa /

Embora filho de guerrilheiros, Nyusi apresentou-se sempre como um gestor e lidera agora o maior partido político do país sem ter como medalha política qualquer protagonismo na luta contra a colonização portuguesa.

Logo após ter sido dado como vencedor das eleições de 15 de outubro, sucedendo a Armando Guebuza -- que hoje lhe passa também a liderança da Frelimo -, Nyusi prometeu pacificar o país: "A paz e a estabilidade são condições principais para o desenvolvimento de Moçambique, o grande objetivo do ciclo que queremos liderar é atingir o bem-estar do povo moçambicano".

A Frelimo escolheu como candidato do partido este antigo quadro do Caminhos de Ferro de Moçambique, onde começou como engenheiro e subiu a administrador, que era um desconhecido para muitos moçambicanos até ser convidado para o governo, em 2008.

Mas Nyusi tem uma longa trajetória nas fileiras do partido quando, ainda jovem, vivia com os pais na Tanzânia, numa das principais bases de treino de novos guerrilheiros para combater o colonialismo português.

Além disso, pertence à etnia maconde, com forte influência na Frelimo e conhecida pelo apego à tradição. Oriundo de uma família com ligação às artes, são-lhe atribuídos dotes de dançarino e as intervenções culturais são uma presença habitual nas suas ações de campanha.

Descrito como um homem de família, brincalhão e de sorriso fácil, Filipe Nyusi, 55 anos, nasceu em Namua, distrito de Mueda, província de Cabo Delgado, é casado e pai de quatro filhos.

Na Tanzânia, teve como professora Maria da Luz, a mulher de Guebuza, que o convidou para ser o segundo civil a ocupar o cargo de ministro da Defesa Nacional.

Na campanha para a sucessão de Armando Guebuza, em que defrontou outros quatro candidatos internos, Nyusi disse que Maria da Luz lhe incutiu "o amor aos estudos". Descrito como um aluno brilhante, com fortes inclinações para matemática e geografia, Nyusi estudou na antiga Checoslováquia, onde se licenciou em engenharia mecânica, no Reino Unido, na África do Sul e nos Estados Unidos.

Nos Caminhos de Ferro de Moçambique, chegou a administrador, primeiro em Nampula e depois em Maputo. Rui Fonseca, que foi chefe de Nyusi, disse, em entrevista ao jornal moçambicano Notícias, que o candidato da Frelimo tem "grandes características de liderança".

Nyusi não teve vida fácil no Ministério da Defesa, face aos ataques desencadeados em 2013 pelo braço armado da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana, principal partido da oposição) a partir do centro do país.

A resposta que adotou não foi consensual, com os críticos a considerarem que acicatou a violência e a Renamo a acusá-lo de tentar resolver um problema de natureza política através das armas. O conflito durou 17 meses, acabando com um número indeterminado de mortos e um acordo entre Governo e Renamo.

O facto de ter trabalhado muito tempo no norte do país manteve Nyusi afastado dos holofotes públicos. Porém, os moçambicanos podem não saber quem ele é, mas conhecem perfeitamente o partido do tambor e da maçaroca (símbolos da Frelimo), que nunca perdeu uma eleição nacional no país.

Se, num encontro com a comunidade moçambicana em Lisboa, Nyusi admitiu ser apenas "o candidato possível", vincaria, depois de eleito: "Sou um operário que virou gestor e depois político, filho da Frelimo, com perfil adequado para ser o candidato a Presidente da República de Moçambique, neste novo tempo político, com toda a dinâmica de crescimento."

Os apoiantes elogiam-lhe os dotes de gestão, que aplicou também no desporto, na direção do clube Ferroviário de Nampula, que chegou a vencer um Moçambola e pôs o norte no mapa futebolístico nacional.

Humanismo, humildade, honestidade, integridade, transparência e tolerância são os "valores" de "governação" que o candidato da Frelimo listou na rede social Facebook.

Durante a campanha, prometeu combater o nepotismo, que disse estar a atrasar o desenvolvimento, colocando em cargos importantes pessoas sem competência.

Após a eleição, Nyusi procurou fazer um governo de consenso com as várias alas do partido, onde constam vários próximos de Armando Guebuza.

Na discussão com a Renamo, que boicotou a tomada de posse, Nyusi tem sido criticado por ter feito demasiadas cedências ao partido de Afonso Dhlakama.

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