Desalojados das cheias em cidade do sul de Moçambique pedem terrenos para recomeçar vida
Dezenas de famílias desalojadas pelas cheias de janeiro em Xai-Xai, sul de Moçambique, continuam a viver na Escola Primária 8 de Março enquanto pedem terrenos em zonas seguras para reconstruir casas, após perderem quase tudo.
Realojadas naquela escola após duas vagas de cheias a partir de meados de janeiro, estas famílias descrevem um cenário de dificuldades, como falta de água potável, alimentação insuficiente e ausência de apoio regular, enquanto aguardam soluções das autoridades.
No pátio da escola, preenchido com tendas e lonas, colchões gastos e panelas espalhadas, dezenas de famílias tentam reorganizar o quotidiano depois de perderem casas, bens e meios de subsistência. Quase três meses depois de perderem tudo nas cheias, as crianças brincam pelo recreio da escola, junto a baldes de água, enquanto os adultos, sentados à sombra de paredes descascadas, confessam cansaço e esperança de que a permanência naquele espaço seja apenas temporária, até surgir um terreno seguro onde possam recomeçar.
"Esse aí é um sonho nosso", confessa à Lusa Salomão Banze, de 23 anos, resumindo o sentimento comum entre os deslocados, entre o descontentamento e críticas à falta de apoio.
Desde o início da época das chuvas, em outubro, pelo menos 311 pessoas já morreram em Moçambique e quase 140 mil chegaram a ser acolhidas em 198 centros provisórios. Atualmente, ainda funcionam 25 centros, com cerca de 7.500 pessoas, incluindo as famílias na Escola Primária 8 de Março.
De lábios secos e rosto cansado, Marta Cossa, de 63 anos, vive agora de biscatos para poder ter o que comer, ajudando pessoas nas machambas, enquanto permanece abrigada na escola. Conta que perdeu tudo com as cheias e vive agora sem condições: "A minha casa estragou, não tenho mais outra. Aqui entra água, estamos a sofrer".
Entre lonas improvisadas e salas sobrelotadas, mulheres, crianças e idosos partilham espaços exíguos, dependendo de ajuda pontual para alimentação, enquanto recorrem a água de poço, considerada imprópria, para consumo diário.
Telma Palembe, de 33 anos, não disfarça a tristeza. É mãe de quatro filhos e antes das cheias vendia pão nas ruas da cidade de Xai-Xai, capital da província de Gaza e que durante várias semanas viu a água engolir o centro. Agora não faz nada e o marido perdeu o emprego como consequência das cheias.
Desolada, critica a falta de assistência e reforça o principal apelo das famílias: "Se fizessem o básico de nos dar pelo menos espaço, não queremos casa construída, espaço só (...) seria gratificante".
Conta que muitas famílias regressaram às casas após a primeira inundação, mas foram novamente obrigadas a abandonar tudo com a segunda vaga, agravando a vulnerabilidade, ocupando a escola improvisada como habitação.
"Não temos água, não temos comida suficiente, e a água que usamos cria doenças", desabafou, alertando para o risco sanitário no local.
Além das condições no centro, os deslocados denunciam insegurança nas zonas de origem, com relatos de casas vandalizadas após a saída forçada devido às cheias.
Vitória Cumaio, de 40 anos, afirma nunca ter recebido apoio ou terreno, contestando alegações de distribuição anterior nas cheias dos anos 2000 e 2013: "Não recebemos todos terrenos. Eu nunca apanhei terreno".
As autoridades municipais reconhecem limitações de espaço para reassentamento, afirmando que a cidade enfrenta escassez de espaço para novas áreas de habitação, estando em curso contactos com o distrito vizinho de Chonguene.
"Precisamos de espaços para reassentar, porque Xai-Xai já não tem território", disse à Lusa o presidente do Conselho Municipal da cidade de Xai-Xai, Ossemane Adamo, acrescentando que parte das famílias deverá regressar gradualmente às zonas de origem, à medida que as condições permitam.
O autarca sublinhou que o centro instalado na escola não é definitivo, defendendo que não é compatível manter deslocados e alunos no mesmo espaço, enquanto decorre o levantamento das necessidades.
Enquanto aguardam decisões sobre o futuro, as famílias mantêm o foco num objetivo comum: acesso a um terreno seguro que permita reconstruir as suas vidas após meses marcados por perdas e incerteza.
O número de mortos na atual época das chuvas(que termina este mês) em Moçambique ascende a 311, com 1,07 milhões de pessoas afetadas, desde outubro, 24.229 casas parcialmente destruídas, 11.996 totalmente destruídas e 209.219 inundadas, com um total de 304 unidades de saúde, 109 locais de culto e 764 escolas afetadas em menos de seis meses, segundo atualização do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).
Só as cheias de janeiro provocaram, pelo menos, 43 mortos, 147 feridos e nove desaparecidos, afetando globalmente 715.803 pessoas, com algumas zonas do sul a registarem nos últimos dias uma nova vaga de inundações. Já a passagem do ciclone Gezani em Inhambane, em 13 e 14 de fevereiro, causou mais quatro mortos e afetou 9.040 pessoas, segundo os dados do INGD.
O INGD indica ainda que 316.267 hectares de áreas agrícolas foram perdidos, afetando 371.320 agricultores, e 531.116 animais morreram, entre bovinos, caprinos e aves.
Foram ainda afetados nesta época das chuvas 9.522 quilómetros de estradas, 51 pontes e 237 aquedutos.