Descoberto método para obter facilmente células estaminais

Descoberto método para obter facilmente células estaminais

Um método inédito, que permite criar células estaminais de forma extremamente rápida e barata, está a ser saudado como uma descoberta muito importante pela comunidade científica. Num estudo publicado esta semana na revista Nature, investigadores descreveram a nova técnica que, segundo os especialistas, pode abrir “uma nova era” no campo da medicina regenerativa personalizada.

RTP /
Revista Nature

O novo método consistiu em submeter células sanguíneas comuns a “choques ambientais”, como um aumento da pressão, ou a simples imersão num banho ácido. Uma parte significativa das células assim tratadas tornou-se pluripotencial, o que levou a que o novo método fosse batizado de STAP, (Stimulus-triggered Acquisiton of Pluripotency” - Aquisição de Pluripotencialidade Despoletada por Estímulo).

As células estaminais, ou pluripotenciais, são células que têm a capacidade de se transformarem em qualquer outro tipo de célula à semelhança das que existem nos embriões.  Este tipo de células estão neste momento a ser usadas em tratamentos experimentais para problemas dos olhos, coração e cérebro, mas os cientistas acreditam que o potencial na medicina regenerativa é praticamente ilimitado. Em teoria, poderão usadas para reconstituir todo o tipo de tecidos danificados ou mesmo órgãos completos do corpo.

A descoberta, relatada em dois estudos publicados pela Nature, foi feita por cientistas do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento no Japão e do Brigham and Woman’s Hospital e do Harward Medical School nos Estados Unidos. O método ainda só foi testado em ratos, mas os cientistas têm esperança que o resultado seja idêntico nos seres humanos.
Novas possibilidades para Medicina Regenerativa e tratamento do cancro
Numa reação à descoberta, Haruko Obokata, que chefiou a equipa de pesquisadores do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, disse à BBC estar “realmente surpreendida” por as células reagirem desta forma aos estímulos ambientais. “É excitante pensar nas novas possibilidades que esta descoberta nos oferece, não só no campo da Medicina Regenerativa como também no tratamento do cancro”.

Chris Mason, professor de medicina regenerativa do University College em Londres, também não tem dúvidas de que, se o método também funcionar em humanos, “abrirá caminho a um vasto leque de terapias que usarão as próprias células do paciente como material de partida”: "A era da medicina personalizada terá verdadeiramente começado."

Porque a recolha de células estaminais ou pluripotenciais a partir de embriões levantava graves problemas éticos no caso dos seres humanos, os cientistas têm-se esforçado para encontrar alternativas mais rápidas e menos controversas.

Estudos recentemente premiados com o prémio Nobel abordavam, por exemplo, um método alternativo que permitia produzir células pluripotenciais a partir de células da pele. Mas nenhum dos métodos anteriores rivaliza em rapidez, simplicidade e custo com o que agora é proposto.
Stress é a chave
Começando com células maturas e adultas, os cientistas deixaram que estas se multiplicassem e submeteram-nas a um stress que as levou “quase ao ponto de morrerem” expondo-as a vários tipos de trauma, baixos níveis de oxigénio e ambientes ácidos.

Ao cabo de poucos dias, os cientistas descobriram que, para sobreviverem e recuperarem dos estímulos adversos, algumas das células tinham revertido a um estado semelhante ao das células estaminais embrionárias.

Haruko Obokata explicou que a ideia de que o stress poderia tornar as células pluripotenciais lhe ocorreu depois de observar que algumas delas, quando comprimidas de forma a passarem por um capilar, encolhiam para um tamanho semelhante ao das células estaminais. Decidiu então experimentar aplicar diversos tipos de stress, incluindo calor, privação de nutrientes e um ambiente rico em cálcio. Todos eles levaram a que as células alvo mostrassem sinais de pluripotencialidade.

Essas células foram capazes, posteriormente, de se diferenciarem e de crescer, evoluindo para diversos tipos de células especializadas e tecidos, dependendo do ambiente em que foram colocadas.
"Novas pesquisas e aplicações"
“Se conseguirmos descobrir os mecanismos pelos quais as estados de diferenciação são mantidos e perdidos, pode abrir-se um vasto leque de possibilidades para novas pesquisas e aplicações que utilizem células vivas”, disse Obokata.

Em média, 25 por cento das células submetidas a este tratamento sobrevivem ao stress e 30 por cento das células sobreviventes transformam-se em células pluripotenciais, uma percentagem muito superior ao que sucedia nos métodos anteriores que também demoravam muito mais tempo.

A Dra. Obokata já conseguiu reprogramar uma dúzia de tipos de células, incluindo células do cérebro, pele, pulmões e fígado, o que sugere que o método poderá resultar com a maioria, senão mesmo com todos, os tipos de célula.



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