Drones no céu, lições no solo: Lituânia abalada por alertas aéreos

Drones no céu, lições no solo: Lituânia abalada por alertas aéreos

Na última quarta-feira, a Lituânia viveu duas horas sem precedentes na sua história. Um suposto drone entrou no espaço aéreo do país, levando as autoridades a declarar um alerta aéreo pela primeira vez na história recente e a instruir a população a procurar abrigo.

Um Olhar Europeu com LRT /
Abrigo J. Stacevicius / LRT



Os líderes políticos e os responsáveis pelas instituições competentes afirmaram que o incidente serviu de lição sobre como informar o público, assegurar que os abrigos e locais seguros não ficam fechados e garantir a preparação em escolas, hospitais e outras instituições. 

O governo também percebeu que há mais lições para aprender. Sempre que um drone entrava no espaço aéreo, as autoridades pareciam adaptar-se à situação em tempo real. Ficou claro que a Lituânia ainda não está preparada – pelo menos por enquanto – não só para neutralizar drones, mas mesmo para os rastrear em todas as partes do espaço aéreo. 

Depois de os drones terem começado a aparecer na Letónia, era apenas uma questão de tempo até chegarem à Lituânia. 

O primeiro deste mês caiu no distrito de Utena, no nordeste, exatamente uma semana antes. Demorou quase uma semana até que o ministro da Defesa, Robertas Kaunas, confirmasse que o drone era ucraniano. Nesse caso, os radares não o detetaram de todo.O incidente alarmou a Lituânia e mostrou as fragilidades do sistema, algo também salientado pelo presidente Gitanas Nausėda. "O presidente salientou que o sistema de alerta precoce não parece estar a funcionar corretamente", afirmou o seu conselheiro-chefe, Deividas Matulionis. 

Um teste mais difícil ocorreu na quarta-feira, quando outro drone entrou no espaço aéreo lituano, levando as autoridades a declarar um alerta aéreo.

Os caças F-16 portugueses estacionados na Estónia, bem como os helicópteros militares lituanos, foram mobilizados numa tentativa de intercetar o drone. 

Os caças romenos baseados em Šiauliai não descolaram devido às más condições meteorológicas. A perseguição falhou e o drone desapareceu do radar.

De acordo com fontes da LRT, o drone entrou na Letónia vindo da Rússia, voou ao longo da fronteira, atravessou para a Bielorrússia, regressou à Letónia e, finalmente, entrou na Lituânia. 

A última localização onde foi detetado no radar foi perto de Merkinė.
Abrigo no Parlamento N. Jankauskas / LRT

A operação de busca que se seguiu, destinada a determinar se o drone se tinha despenhado ou se tinha abandonado o espaço aéreo lituano, demonstrou mais uma vez que qualquer objeto que voe abaixo do nível do radar pode atravessar o país praticamente sem ser detetado. 

A busca não teve sucesso e foi posteriormente cancelada."Não há nenhum objeto, por isso não há nada sobre o que falar», afirmou o chefe da defesa da Lituânia, o general Raimundas Vaikšnoras. 

Por enquanto, a Lituânia só pode contar com a missão de policiamento aéreo da NATO e com os sistemas de defesa aérea de que já dispõe. Estes incluem radares incapazes de detetar objetos que voam a baixa altitude, baterias de defesa aérea dispendiosas não concebidas para drones e alguns sistemas de menor calibre. 

Os incidentes também expuseram fraquezas que vão muito além das capacidades militares. Após o alerta aéreo ter sido emitido, os residentes relataram que muitos abrigos e locais seguros estavam trancados. "Foi preparada uma carta para os municípios a indicar que, pelo menos durante este período de escalada, os proprietários dos abrigos devem garantir acesso 24 horas por dia, 7 dias por semana — estes não devem estar fisicamente trancados", afirmou Renatas Požėla, diretor do Departamento de Bombeiros e Salvamento (PAGD).

A primeira-ministra Inga Ruginienė também criticou a situação nas escolas e creches. Em alguns locais, os dirigentes escolares ou professores alegaram que estavam a decorrer exercícios, enquanto noutros as crianças não foram autorizadas a procurar abrigo porque estavam a decorrer testes ou avaliações. Em alguns casos, as crianças foram simplesmente deixadas nas salas de aula ou levadas para o exterior, para áreas abertas como estádios. "Foi mau, muito mau", afirmou a primeira-ministra. 

A terceira lição foi para os meios de comunicação social. Algumas pessoas consideraram irónico que a LRT RADIO estivesse a tocar My Way, de Frank Sinatra, que inclui a letra "and now, the end is near"(e agora, o fim está próximo), enquanto outras criticaram a emissora pública por transmitir uma série dramática de televisão no canal principal durante o alerta. A direção da LRT afirmou que foram retiradas lições.

R. Riabovas / BNS

Por exemplo, a transmissão do sinal de rádio com imagens para todos os canais de televisão. "A transmissão decorreu sem problemas no LRT PLIUS, mas não chegou ao canal principal tão rapidamente quanto desejávamos. Isso será melhorado. Além disso, quando os jornalistas de rádio se deslocam aos abrigos, o que devemos transmitir em direto para que não sejam apenas canções que possam soar estranhas, são informações úteis – o que é um abrigo, onde encontrar um, como se comportar nessas situações", afirmou a diretora-geral da LRT, Monika Garbačiauskaitė-Budrienė. 

A aplicação de emergência LT72 também falhou devido à sobrecarga, enquanto as mensagens de alerta enviadas para os telemóveis chegaram apenas em lituano.O Ministério do Interior afirmou que, até que os problemas sejam resolvidos, os alertas serão enviados por mensagem de texto. "Tem de haver um plano de ação para que isto não volte a acontecer. Temos soluções e identificamos áreas onde é possível introduzir melhorias. Uma delas foi a nossa reação rápida através dos meios de comunicação social. Isso não é bom, mas o que aconteceu, aconteceu", afirmou o ministro do Interior, Vladislavas Kondratovičius. 

Šarūnas Jasiukevičius, um piloto de drones lituano que combateu na Ucrânia, afirmou que os incidentes vieram mais uma vez destacar falhas na proteção civil."Começaram a colocar autocolantes de abrigo em praticamente qualquer edifício e a reunir pessoas em estruturas completamente desprotegidas. Tivemos muitos exemplos em Vilnius em que, durante um alerta de ataque aéreo, um grande número de civis se concentrou em edifícios totalmente desprotegidos, como salas de assembleia de escolas ou pavilhões desportivos", afirmou. A situação deverá melhorar dentro de alguns meses, após a implantação de novos sistemas de radar, afirmou o ministro da Defesa, Kaunas.
Sinal a indicar um abrigo D. Umbrasas / LRT

Segundo o ministro, os dados dos radares e sensores serão reunidos num único local, e a inteligência artificial ajudará então a determinar se os sinais de radar correspondem a drones, balões ou algo completamente diferente.

O próximo passo, e talvez o mais importante, será a implantação de drones intercetores em toda a Lituânia. "Esses intercetores, assim que receberem um sinal, devem lançar-se automaticamente, voar até ao alvo com base nas suas coordenadas e, em seguida, um operador humano — um soldado — toma a decisão final sobre se o deve destruir ou permitir que o intercetor reutilizável regresse. É esse o nível de sistema de que precisamos", afirmou o ministro da Defesa.

O que ainda não está claro é quando o sistema de defesa aérea — que está a ser construído de raiz e adaptado especificamente às necessidades da Lituânia — ficará totalmente operacional. 

Por enquanto, uma questão permanece sem resposta: o que aconteceria se não um, mas 10, ou mesmo 50 drones, aparecessem no espaço aéreo lituano ao mesmo tempo?

Žygintas Abromaitis, LRT TV, LRT.lt / 27 maio 2026 07:19 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP




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