El Niño ameaça dezenas de milhões de pessoas à fome aguda

El Niño ameaça dezenas de milhões de pessoas à fome aguda

Cerca de 50 milhões de pessoas estão em risco de viver em situação de fome aguda, até ao fim do próximo ano, devido à intensificação do fenómeno climático El Ninõ. O alerta é da ONU que apela aos esforços para preparar os países que já enfrentam grave insegurança alimentar.

Inês Moreira Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: Anadolu via AFP

Um estudo do Programa Alimentar Mundial (PMA) das Nações Unidas, divulgado esta quarta-feira, mostra que o desenvolvimento do El Niño deve “agravar significativamente a insegurança alimentar em alguns dos países mais vulneráveis do mundo até 2027”.

“O El Niño representa uma enorme ameaça à segurança alimentar de milhões de pessoas que já se encontram em situação de vulnerabilidade”, afirmou Carl Skau, Diretor Executivo Interino do PMA, no comunicado.

“Quanto mais cedo ajudarmos as famílias a prepararem-se para esses impactos climáticos, maior será a nossa capacidade de salvar vidas e proteger os meios de subsistência. Inundações e secas severas podem levar rapidamente as comunidades da condição de sobrevivência à crise. O PMA já está a intensificar os esforços de resposta rápida em oito países e estamos prontos para fazer ainda mais”.

Situação que se agrava numa altura em que já há centenas de milhões de pessoas em níveis perigosos de fome, devido a anos de seca em várias regiões de África e à pressão sobre os preços dos alimentos causada pela guerra no Irão.

De acordo com a agência das Nações Unidas, este fenómeno climático deve atingir o pico entre setembro e dezembro de 2026, “mas em muitas regiões os efeitos serão sentidos ao longo de 2027, devido aos impactos nos futuros ciclos de colheita”.

“Secas, inundações e temperaturas extremas já representam riscos para as comunidades”, adverte o PAM. O El Niño de 2015 e 2016 “afetou a segurança alimentar de 60 a 100 milhões de pessoas” e agora a nova avaliação Programa Alimentar Mundial prevê que o El Niño de 2026 e 2027 possa “levar pelo menos mais 49 milhões de pessoas à insegurança alimentar aguda até o final de 2027”.

Esta avaliação do PAM “concentrou-se em 45 países já considerados em situação de insegurança alimentar, onde o El Niño influenciará significativamente os padrões de precipitação, as temperaturas e a ocorrência de inundações e secas”. Estes são países em que “o número total de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda (famílias que não conseguem suprir as suas necessidades alimentares diárias) aumentaria aproximadamente de 225 milhões para 274 milhões de pessoas: um aumento de cerca de 22 por cento”.

“Os maiores impactos são esperados em regiões da América Central e do sul de África, com efeitos significativos também previstos no leste de África e no sul e sudeste da Ásia”, é esclarecido no comunicado da agência. O PMA prevê que os países que já enfrentam pobreza, conflitos, instabilidade económica e eventos climáticos extremos recorrentes provavelmente sofrerão o impacto mais severo do El Niño, e que esse impacto não será sentido de forma uniforme. Alguns países já estão a enfrentar chuvas abaixo da média, inundações e temperaturas excecionalmente altas, enquanto outros devem enfrentar condições climáticas adversas durante as próximas épocas de plantio e colheita”.

Considerando este cenário, o PAM e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) “já solicitaram maior apoio para ajudar as comunidades em risco a prepararem-se para o El Niño, visando proteger vidas, meios de subsistência e a segurança alimentar antes que as emergências se agravem”.

“O maior impacto na segurança alimentar, no sul da África, ocorrerá durante o período de escassez de alimentos entre 2027 e 2028”, afirmou Richard Choularton, diretor do serviço de clima e resiliência do PMA.

O El Niño deste ano, fenómeno meteorológico que se desenvolve a cada poucos anos no Oceano Pacífico e provoca alterações nos padrões de precipitação em todo o mundo, está a desenvolver-se e prevê-se que seja o mais forte dos últimos 70 anos.
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