Eleições na Catalunha. Carles Puigdemont ganha força apesar do resultado do Ciudadanos

por Christopher Marques - RTP

Numa votação com uma afluência histórica, os catalães evidenciaram nas urnas a forte divisão existente na sociedade. O Ciudadanos foi o partido mais votado mas os partidos independentistas voltaram a conseguir maioria no Parlamento. O Partido Popular aparece como grande derrotado e consegue apenas três deputados. Puigdemont surpreende também e conquista um inesperado segundo lugar. A Catalunha votou mas o problema permanece, com constitucionalistas e independentistas a reclamarem vitória.

Chamados a votar, os catalães voltaram a apresentar um resultado complexo nas eleições desta quinta-feira. Mais de 80 por cento dos eleitores deslocaram-se às urnas, numa afluência histórica para umas eleições regionais na Catalunha.

Nas urnas, os catalães fizeram do Ciudadanos de Inês Arrimadas a força política mais votada mas deram a maioria absoluta ao bloco independentista, constituído pelo Juntos pela Catalunha de Carles Puigdemont, pela Esquerda Republicana de Catalunha de Oriol Junqueras e pela Candidatura de Unidade Popular.
Resultados por partidos
Na análise por forças partidárias, o Ciudadanos aparece como o grande vitorioso destas eleições – apesar de parecer incapaz de conseguir apoio parlamentar, fruto da maioria independentista. A força política de Inês Arrimadas e Albert Rivera consegue 25 por cento dos votos, valor superior aos 17,90 por cento de votos conquistados em 2015. Este partido liberal de centro-direita passa de 25 para 37 deputados, revelam os dados da Generalitat quando estão escrutinados 99,8 por cento dos votos.

Em segundo lugar surge o Juntos pela Catalunha de Carles Puigdemont. O presidente destituído do Governo catalão surge também como vencedor, conseguindo um resultado superior ao que as sondagens indiciavam. Com 21 por cento dos votos e 34 deputados, Puigdemont ultrapassa o seu ex-parceiro de coligação, a Esquerda Republicana de Catalunha.

 

A ERC aparece em terceiro lugar com 21 por cento dos votos e 32 deputados. O terceiro lugar fica aquém do que era esperado para um partido que era dado pelas sondagens como possível vencedor. Em quarto lugar, o Partido Socialista da Catalunha obtém 14 por cento dos votos e 17 deputados.

Em quinto lugar encontra-se o Catalunha em Comum, partido próximo do Podemos. Este partido defende a realização de um referendo à independência, tendo-se oposto à independência unilateral e à aplicação do artigo 155. Com oito deputados, o Catalunha em Comum perde força mas pode ainda ter relevância no futuro político da Catalunha.

Em sexto lugar surgem os radicais de esquerda da CUP, também eles independentistas. Este partido perde força política em relação a 2015. Passa a ter quatro deputados contra os dez que tinha anteriormente.

Em sétimo lugar, o Partido Popular da Catalunha. A filial catalã do partido de Mariano Rajoy apresenta-se como grande derrotada: passa de 11 para três deputados e não conseguirá sequer formar um grupo parlamentar.
Resultados por blocos
Apesar de o Ciudadanos ser o partido mais votado, as forças que defendem a independência da Catalunha continuam a ter maioria no Parlamento.

Ao somar-se o número de deputados dos Juntos pela Catalunha e da Esquerda Republicana da Catalunha verifica-se que estes dois partidos conquistam 66 deputados, conseguindo aumentar o número de parlamentares em relação às eleições de 2015 (62).

Apesar de juntos não conseguirem ainda os 68 deputados, conseguem ter mais votos juntos do que os três partidos constitucionalistas (Ciudadanos, Partido Popular e Partido Socialista) e do que o Catalunha em Comum. Ou seja, o Juntos pela Catalunha e a ERC nem precisarão de contar com os votos favoráveis dos radicais da CUP, de quem estiveram dependentes na última legislatura.

A Catalunha em Comum não apoia a independência unilateral mas defende a realização de um referendo. Nesse sentido e, como sublinhou Carles Puigdemont no discurso desta quinta-feira, os partidos que querem que seja pelo menos realizado um referendo à independência obtêm 78 deputados contra os 57 parlamentares dos partidos que se opõem à sua realização.
Arrimadas e Puigdemont reclamam vitória
Com o Ciudadanos a ser a força política mais votada num Parlamento que será dominado por deputados independentistas, os dois campos reivindicam a vitória nestas eleições.  Pelo Ciudadanos, Inês Arrimadas agradeceu aos catalães pelo resultado obtido, sublinhando o forte crescimento conseguido pelo partido nos últimos anos.

"Somos os vencedores das eleições da Catalunha", afirmou a líder regional. Arrimadas sublinhou ainda que os partidos independentistas não poderão mais falar em nome "de todos os catalães".

"O Governo dos partidos separatistas perdeu as eleições, perdeu votos, perdeu assentos no Parlamento e perdeu força", afirma Arrimadas. "Ficou ainda mais claro que a independência não tem futuro. Vamos continuar a lutar", prometeu.

Em Bruxelas, Carles Puigdemont fez a leitura contrária. "A Republica da Catalunha ganhou à monarquia e ao artigo 155. A República catalã ganhou. Ouçam-no bem, tomem nota", afirmou Puigdemont.

Puigdemont exigiu a libertação imediata dos políticos que estão presos em Madrid. "A receita que Rajoy receitou aos catalães e apresentou à Europa fracassou. As coisas estão ainda melhores para o independentismo", garantiu.

Apresentando-se como "presidente legítimo da Catalunha", Carles Puigdemont pediu à Europa que tome nota de que "a receita de Rajoy não funciona" e apoie os catalães. Para já, a União Europeia já disse manter a mesma posição.

O porta-voz da Comissão Europeia avançou à France Presse que a posição de Bruxelas não vai mudar perante estes resultados. “Tratando-se de uma eleição regional, não temos qualquer comentário a fazer”, afirmou Alexandre Winterstein.
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