Eleições São Tomé. É urgente um plano nacional, o povo está cansado dos velhos rostos e velhas manias
O candidato a Presidente de São Tomé e Príncipe Nito d`Abreu defendeu, em entrevista à Lusa, a urgência de um plano nacional e avisou que o povo está cansado "dos velhos rostos" e de "velhas manias".
O candidato apoiado pelo partido no poder, a Ação Democrática Independente (ADI), afirmou que o futuro Presidente, a ser eleito no próximo domingo, deve sentar-se à mesa com o Governo, com as outras instituições, para formular "um plano que possa elevar o país a atingir o desenvolvimento desejado".
Nito d`Abreu sustenta que "São Tomé e Príncipe, enquanto Estado, distraiu-se muito" e o resultado está à vista: não existe uma "política forte que possa catapultar o setor económico", razão pela qual necessita urgentemente de um plano - inclusivo, que envolva todos os parceiros, também internacionais, bem como todos os partidos políticos -, focado sobretudo na educação, saúde, setor energético e indústrias.
"Nenhum Estado se faz sem um plano de 10, 20, 30, 50 anos. Ou mais. (...) E nós não temos um que diz [em] `dois, três, quatro anos queremos estar nessa posição`. Não temos. Eu, enquanto Presidente da República, o meu primeiro passo é este", afirmou.
Segundo dados do Banco Mundial, 13% dos pouco mais de 209 mil habitantes vive abaixo da linha de pobreza (três dólares/dia). O Produto Interno Bruto (PIB) real `per capita` estagnou e apenas 21% da população com 15 ou mais anos está empregada, o que pode explicar a crescente vaga migratória são-tomense nos últimos anos, face à falta de oportunidades no arquipélago.
Cerca de 18% da população são-tomense emigrou nos últimos anos e mais de metade para Portugal, com os últimos números das autoridades portuguesas a mostrarem que quadruplicou entre 2021 e 2025, para quase 47 mil pessoas, a maioria a concentrar-se na região de Lisboa.
"Tocou aqui no aspeto de fuga das pessoas do país (...). São maioritariamente jovens, com menos de 30 anos. Este é o grande problema. E a visão que eu tenho é formação profissional. O mundo está muito focado em ter indivíduos formados em licenciatura, em doutoramento, em mestrado. São necessários, sim. Mas a questão de formação profissional é demasiado importante", defendeu o também líder parlamentar da ADI.
As soluções, advogou, podem ser encontradas com investimento em áreas como a energia (também a renovável) e o turismo, cujo potencial é reconhecido, mas sem aproveitamento por quem é responsável por definir e desenvolver políticas nacionais.
Outro exemplo, enumerou, é a agricultura: "Temos terra, enfim, estamos no topo quase dos países de terra fértil. Não estamos a aproveitar esse setor".
Ou seja, argumentou, é necessário "investimento, (...) parceiros que possam (...) ajudar nestes setores, [para] fazer diminuir esta fuga das pessoas, fuga da massa juvenil para o estrangeiro".
A abstenção crescente preocupa-o. Afinal, a abstenção em 2018 não chegou aos 20% nas legislativas, mas nas últimas presidenciais já ultrapassava os 30%. "É um fenómeno que nos últimos tempos se tem assistido muito em São Tomé e Príncipe, porque o cidadão tem perdido a confiança na liderança", apontou, explicando que os são-tomenses "têm demonstrado que estão cansados, não dos velhos rostos apenas, das velhas manias".
Está confiante que, com a sua candidatura, "muitos vão sair de casa para votar", sublinhando a sua juventude, mas também o facto de oferecer "uma prática diferente".
O Tribunal Constitucional são-tomense admitiu cinco candidatos às presidenciais de 19 de julho: Eugénio Rodrigues da Trindade Tiny, Nito de Sousa Viegas D`Abreu, Miques João do Nascimento de Jesus Bonfim, Carlos Manuel Vila Nova, que se recandidata ao cargo, e Jorge Bom Jesus, que anunciou a sua desistência já fora do prazo legal.
Segundo a Comissão Eleitoral Nacional (CEN), os dados definitivos do recenseamento eleitoral automático registaram 142.191 eleitores, dos quais 121.670 estão em São Tomé e Príncipe e 20.521 na diáspora, nomeadamente 15.917 em cinco países da Europa, e 5.324 em quatro países de África.