Empresário em megaprocesso de branqueamento extraditado hoje por Portugal para Maputo
O empresário Abdul Gafar Gulam chegou hoje a Maputo, concluindo a extradição a partir de Portugal no âmbito de um megaprocesso de branqueamento de capitais, fraude fiscal e associação criminosa investigado em Moçambique.
Fonte ligada ao processo explicou à Lusa que a extradição, a partir de Lisboa, aconteceu a pedido das autoridades moçambicanas, no âmbito do processo 3/GCCCOT/22, conhecido como operação "stop branqueamento de capitais", em que foram constituídos arguidos 40 indivíduos e 32 sociedades comerciais.
Acrescentou que esses arguidos, incluindo Abdul Gafar Gulam, que tinha abandonado o país, são indiciados pela prática de crimes de branqueamento de capitais, fraude fiscal, associação criminosa, falsificação e uso de documentos falsos, envolvendo dezenas de milhões de dólares.
As autoridades moçambicanas emitiram mandados de captura internacional e um alerta vermelho pela Interpol contra o arguido, que seria mais tarde localizado na capital portuguesa, onde ficou detido, desde 2025, até à concretização do pedido de extradição, autorizado pelo Tribunal da Relação de Lisboa.
A mesma fonte indicou que Abdul Gafar Gulam será presente quinta-feira ao Juiz da Instrução Criminal, em Maputo, para o primeiro interrogatório judicial de arguido preso.
Abdul Gafar Gulam é suspeito, junto com outros arguidos, de ter criado pelo menos oito empresas de fachada, usando para o efeito terceiras pessoas, estrangeiros e nacionais.
Recorrendo a "testas de ferro, em nome de quem constituiu as empresas", o arguido terá aberto contas em diferentes bancos comerciais, através dos quais "passou a receber elevadas somas de dinheiro, maioritariamente por depósito em numerário e cheques".
A investigação aponta que sem que as referidas empresas tivessem efetivamente exercido alguma atividade comercial para a qual foram supostamente criadas, passaram a transferir montantes para várias jurisdições estrangeiras, incluindo Portugal, Turquia, China, Hong Kong, Maurícias, Tailândia, Japão, Emirados Árabes Unidos e Malásia, alegadamente para pagamento de mercadorias que nunca chegaram a ser importadas.
"Ou seja, nunca deram entrada no território aduaneiro moçambicano, prejudicando deste modo, o Estado moçambicano, que se viu privado de arrecadar os impostos devidos", descreve a mesma fonte.
Para justificar as transferências de valores ao estrangeiro e dissimular a falta de entrada da mercadoria em Moçambique, Abdul Gafar Gulam, com auxílio de despachantes aduaneiros e colaboradores de bancos comerciais, é suspeito de ter forjado termos de compromisso de intermediação bancária, faturas proformas supostamente de fornecedores e documentos únicos das Alfândegas, que posteriormente apresentou junto da banca e entidades públicas.
Entre 2019 e 2022, Abdul Gafar Gulam terá transferido para o estrangeiro o equivalente a cerca de 140 milhões de dólares (120,1 milhões de euros), alegando a compra de mercadorias que nunca foram desembaraçadas no território aduaneiros nacional.
A investigação concluiu que com a criação de empresas em nome de terceiros e que nunca operaram no país e que nunca tiveram trabalhadores, existência física e sem pagar impostos, "movimentaram milhares de meticais seguidas de transferências ao estrangeiro sem causa legítima, provocou prejuízos ao Estado moçambicano, colocando em causa a estabilidade do sistema financeiro nacional e da economia nacional".
Outro dos empresários envolvidos neste processo, Hussen Gulam Mahomed, está em prisão preventiva desde 31 de julho de 2025, que foi detido nos Emirados Árabes Unidos e extraditado para Maputo nesse mês.
Hussen Gulam é irmão do Norolamin Gulam, detido nos Estados Unidos da América por suspeita de tráfico internacional de droga, igualmente arguido no mesmo processo, 3/GCCCOT/22, em Moçambique.